Queimadas: gastos dobram em MT em 2010

A união de hábitos “culturais” com a falta de conscientização popular tem feito Mato Grosso superar a si mesmo no número de queimadas. Campeão brasileiro de focos de calor, o Governo do Estado estima um gasto de R$ 4 milhões em novos equipamentos e contratação de brigadistas, neste ano. O número é o dobro do …

26/09/2010 11:15



A união de hábitos “culturais” com a falta de conscientização popular tem feito Mato Grosso superar a si mesmo no número de queimadas. Campeão brasileiro de focos de calor, o Governo do Estado estima um gasto de R$ 4 milhões em novos equipamentos e contratação de brigadistas, neste ano. O número é o dobro do que se gastava no combate de incêndios, até então.

De acordo com o coordenador da Gestão do Fogo da Defesa Civil, major PM Paulo da Silva, dos 170 mil focos registrados em 2010, 90% deles foram justamente no período proibitivo, que vai de julho até outubro. As queimadas, informou, são causadas em sua maioria pela ação humana.

“É uma situação de afronta ao que a legislação determina. Tida como uma questão cultural, em que a pessoa queima para depois plantar, já que depois da seca vem a chuva, a população usa o fogo como uma ferramenta. Um incêndio não ocorre sozinho, precisa que alguém coloque uma centelha para começar”, afirmou.

O reflexo da contribuição do homem nos altos índices de queimadas pode ser verificado nos dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). As multas geradas por queimadas criminosas já ultrapassam R$ 50 milhões.

Além delas, houve a apreensão de três caminhões, três tratores de esteira e um trator com grade; todos os veículos estavam sendo utilizados para queima de pasto.

Pela Sema, já foram fiscalizados 43 municípios, em 224 pontos diferentes. As infrações registradas in loco já somam 144 autos de infração, 112 autos de inspeção, 23 termos de embargo, 43 notificações e 5 termos de apreensão. Pelo satélite foram registradas 311 infrações e os incêndios combatidos chegam a 2.411.

As ações de combate ao fogo têm sido feitas pelo Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman), criado em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, e formado pelo Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Ibama, por meio do PrevFogo, e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Atualmente, o Ciman totaliza 630 combatentes e, de acordo com o major Paulo, nesta semana, 465 pessoas estão trabalhando em 25 municípios no combate ao fogo.

“Esforço do Estado não adianta sem conscientização”

O secretário de Estado de Meio Ambiente, coronel PM Alexander Maia, analisou que os altos índices de queimadas em Mato Grosso ultrapassam a questão governamental. O que falta, segundo ele, é a população contribuir.

“O Estado tem se esforçado, sobremaneira, para conseguir dar uma resposta positiva. O que realmente mudou é a consciência das pessoas. Não conseguimos sensibilizá-las e não sabemos o que faltou. Poderíamos ter o dobro de brigadistas e ainda assim seríamos campeões”, disse.

O secretário falou sobre o incêndio no Sesc Pantanal, na terça-feira (21), como exemplo das tragédias no Estado. “O local é um exemplo de preservação, com mais de 35 brigadistas permanentes, equipamentos e, mesmo assim, veja o que acabou de acontecer”, disse.

Para o coronel, mesmo com o grande volume de multas, a questão é ainda mais delicada. “Neste ano, aplicamos mais multas do que em toda a história de Mato Grosso. Não é o que queríamos, precisamos que os que foram multados entendam que nosso objetivo é que parem de queimar urgentemente”, observou.

Paulo da Silva completou observando que a questão das queimadas, vista como “cultural”, não pode mais continuar sendo aceitável. “Poderíamos colocar um extintor em cada árvore e ainda não teríamos condições de combater o fogo se a população não mudar os hábitos”, completou.

Caos no Estado

A mistura de tempo seco, vento forte e altas temperaturas, já foi responsável por pelo menos 335 mil hectares queimados em Mato Grosso. A área atingida é equivalente a 335 mil campos de futebol.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, apenas nos primeiros 22 dias de setembro, já foram registrados em Mato Grosso 15.421 focos de queimadas, número superior aos 1.625 do mesmo período em 2009.

Em extensão, o Parque Estadual do Araguaia, que engloba as regiões Leste e Nordeste do Estado, foi o mais atingido até agora pelo fogo. De um total de 223 mil hectares, 98% da unidade de conservação foram queimadas durante um mês.

À época, o gerente regional da unidade, Herson Souza Lima, informou que o grande problema eram as propriedades particulares que estão instaladas dentro do Parque.

“Quando foi criado, em 2001, já existiam fazendas dentro da região que hoje é o Parque e a questão fundiária vem se enrolando desde então. Fogo não surge sem alguém colocar; por isso, acredito que seja criminoso”, disse, na ocasião.

Outra unidade de conservação atingida pelas queimadas foi o Parque Nacional de Chapada dos Guimarães. Com uma área de 33 mil hectares, estima-se que pelo menos 4 mil hectares foram incendiados dentro do parque e mais 11 mil hectares na região circundante.

O ICMBio, responsável pela unidade, ainda faz trabalho de monitoramento na região. De acordo com a analista ambiental, Priscila Amaral, ainda há focos de queimadas próximas da unidade.

As cidades de Marcelândia (710 km ao Norte de Cuiabá) e Peixoto de Azevedo (691 km ao Norte de Cuiabá) também tiveram perdas devido aos incêndios. Os prejuízos dos dois municípios podem chegar a mais de R$ 40 milhões.

Em Marcelândia, ao menos três grandes queimadas foram responsáveis pela perda de 30 mil hectares. Já em Peixoto a área atingida chega a 75 mil hectares.