Sem tempo para duas safras

O atraso no plantio de soja este ano deverá provocar uma redução de 100 mil hectares na área da oleaginosa no ciclo 10/11, ou 300 mil toneladas a menos de um total previsto de 19 milhões de toneladas. A projeção foi feita ontem pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), …

16/10/2010 08:31



O atraso no plantio de soja este ano deverá provocar uma redução de 100 mil hectares na área da oleaginosa no ciclo 10/11, ou 300 mil toneladas a menos de um total previsto de 19 milhões de toneladas. A projeção foi feita ontem pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), após avaliação do plantio nas principais regiões produtoras do Estado. Mas, a ‘sinuca de bico desta safra’ vai além: sem tempo hábil para plantar e colher a soja precoce e em seguida plantar algodão, ou o milho, o produtor que terá de optar apenas uma safra cheia por imposição do clima seco, uma mudança radical sobre o comportamento do produtor mato-grossense acostumado à safra de soja e safrinhas de algodão ou milho.

Com atraso para o início da semeadura da soja – que em algumas regiões passa de 30 dias – e a lentidão das plantadeiras por conta da indecisão do produtor diante da falta de umidade no solo, Mato Grosso plantou até a última quinta-feira, 6,7% da área destinada ao cultivo, ou seja, 418 mil hectares de mais de 6,24 milhões estimados.

Na região de Lucas do Rio Verde (360 quilômetros ao norte de Cuiabá), a área plantada está muito aquém do registrado historicamente para a segunda quinzena de outubro, segundo o agrônomo Agmar Lima. “Este atraso vai impactar na redução da área plantada de soja agora, ou nas das safrinhas de milho e algodão. O produtor está numa sinuca de bico e terá que fazer o replanejamento de plantio para diminuir os prejuízos com o atraso da safra”.

Na região de Lucas, a previsão era plantar 40 mil hectares de soja precoce no mês de setembro e, depois, a safrinha de algodão, no mês de janeiro. Com a falta de chuvas, o plantio da variedade de soja precoce está atrasado e não sobrará tempo para o produtor plantar a safrinha do algodão no final do ano. “O produtor que planejava plantar algodão terá que esperar até dezembro para fazer o cultivo da pluma. Se ele plantar soja a partir de agora, perderá a janela de plantio de algodão. Ele terá que optar por uma ou por outra cultura. Mas não dá para fazer agora uma projeção de perdas de hectares de milho e algodão”, diz.

MILHO – Outra cultura que também registrará queda na área plantada será o milho safrinha. O motivo é o mesmo: plantando soja agora, o produtor ficará com a data limite de 15 de fevereiro para cultivar o milho. Neste caso, ele corre o risco de perder sementes ou, no mínimo, vai colher menos, pois a produtividade não será a mesma. “O que o produtor decidir daqui pra frente, vai depender muito de chuva. Até agora tivemos apenas algumas garoas e nenhuma chuva de grande proporção para umedecer o solo”.

ALGODÃO – Egidio Vuaden, delegado da Aprosoja/MT na região de Lucas e vice-presidente da Fundação Rio Verde, também está preocupado com o atraso das chuvas do plantio. “Conheço muitos produtores que já desistiram de plantar soja precoce para esperar o momento de plantar algodão”, disse, explicando que a preferência pela pluma está na rentabilidade para o produtor. “O algodão tem preço melhor e, além disso, os produtores precisam plantar a pluma para cumprir os contratos de exportação”.

Vuaden estima a perda de 100 mil hectares na área plantada de soja este ano. “A janela para o plantio da variedade precoce está praticamente fechada e não haveria mais tempo para o produtor fazer as duas coisas: plantar soja agora e algodão safrinha em dezembro, ou mesmo de ciclo normal em janeiro”.

TERMÔMETRO – Em algumas regiões, como Tapurah e Lucas do Rio Verde, médio norte estadual, por exemplo, o período de plantio está bem mais atrasado. A região médio norte responde por quase 40% do total estadual. “No ano passado, nesta época, já havíamos plantado 50% de toda a área (120 mil hectares) do município. Este ano ainda não chegamos a quatro mil hectares”, conta o presidente do Sindicato Rural de Tapurah (433 quilômetros ao norte de Cuiabá), Marusan Ferreira.

O atraso vai refletir diretamente na produção das safrinhas de milho e algodão, plantadas após a colheita da soja, nos meses de dezembro e janeiro.