Faltam moedas no mercado

Dar troco em moedas tem sido uma tarefa difícil para os comerciantes em Cuiabá e os clientes, cada vez mais exigentes, cobram o valor correto ou exigem descontos na hora de pagar a conta. O que poucos sabem é que a confecção de moedas custa caro para o Banco Central e para o Brasil. Para …

22/11/2010 10:23



Dar troco em moedas tem sido uma tarefa difícil para os comerciantes em Cuiabá e os clientes, cada vez mais exigentes, cobram o valor correto ou exigem descontos na hora de pagar a conta. O que poucos sabem é que a confecção de moedas custa caro para o Banco Central e para o Brasil. Para se ter uma ideia, em 2010 o BC irá confeccionar um total aproximado de 2 bilhões de moedas, se calcular o preço médio de R$ 0,15 por cada uma delas, serão desembolsados R$ 240,05 milhões.

Entre os principais motivos para a escassez de níqueis no mercado está a desvalorização atribuída ao dinheiro de metal e a cultura de guardá-lo nos cofrinhos. O proprietário de uma padaria, José Souto Silva, exemplifica muito bem isso. Segundo o comerciante, muitas vezes tem que “brigar” para que o cliente pague com a moeda. “Tem pessoa que vem aqui e mesmo tendo como pagar com trocados, dá em notas e diz que as moedas são para colocar no cofre dos filhos”.

Mas o problema já foi mais grave, relembra o proprietário da Rede Modelo de Supermercados, Altevir Magalhães. Conforme ele, há alguns anos não se encontravam moedas nem mesmo nos bancos para realizar a troca. “Às vezes íamos no banco e não conseguíamos trocar as notas por moedas. Elas estavam em falta em todos os lugares”. Atualmente o supermercado faz estoques semanais, principalmente nos fins de semana, para garantir o troco. “Todas as semanas fazemos a troca e guardamos. Nos fins de semana chegamos a guardar em média R$ 6 mil em moedas por loja. Antigamente só conseguíamos garantir R$ 3 mil”. Em outras épocas o supermercado chegou a fazer campanhas nas lojas para sensibilizar os clientes a colocar as moedas em circulação”.

Independentemente do valor, Magalhães garante que o troco nunca deixa de ser dado. “Quando acabam as moedas em algum caixa, a operadora avisa os supervisores que já providenciam a reposição. Deixamos tudo preparado para que não haja demoras”. Nas situações em que não há realmente troco para devolver, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) recomenda que o valor da compra receba um abatimento para que ele não saia no prejuízo. Nem mesmo a devolução em mercadorias, como balas, é permitida.

O problema é que a utilização de balas e chicletes é o primeiro recurso adotado quando há falta do troco. A atendente de uma bomboniere localizada em um shopping, Alcinéia Cordeiro de Souza, diz que quando falta o níquel no caixa, oferece balas como parte do troco. “Tento repassar em balas ou chocolates, mas tem cliente que não aceita e tenho que sair procurando nas outras lojas para ver se consigo trocar o dinheiro”, afirma ao comentar que no shopping é ainda mais difícil fazer a troca porque grande parte dos lojistas trabalha com cartões e o dinheiro é pouco utilizado.

Como a devolução exata do troco é um direito do consumidor, muitos não hesitam em exigir o que lhe é assegurado. Como é o caso do empresário Valdir Macagnan Júnior. “Eu cobro porque é meu, e é dinheiro. E não costumo guardar não, recebo e uso para fazer outras compras”.

O gerente comercial Clóves dos Reis da Silva reage diferentemente. Primeiro espera por um posicionamento do atendente para então cobrar. “Eu aguardo e comento, caso argumente que não há troco, eu entendo e aceito receber uma bala”. Quanto à utilização das moedas, Silva diz as de R$ 1 são guardadas em um cofre, mas que as de menor valor são utilizadas para efetuar pequenos pagamentos. “Sempre ando com algumas moedas no bolso e no carro para pagar estacionamento, ir à padaria, fazer outras pequenas compras”.

O casal Sebastião Campos Filho e Odilza Queiroz de Campos diz que nunca cobra o troco miúdo, ao contrário da filha. “Não fazemos questão. Não vamos mais utilizar mesmo. Mas nossa filha não admite ficar sem receber direitinho. Ela exige porque depois guarda as moedas”.

O problema é tão sério que algumas empresas chegam a alterar o valor dos produtos para evitar que tenham problemas na hora de fazer a devolução da diferença da compra. A perfumista Ozielma Rosa diz que na farmácia, quando vão colocar preço, eles pensam nos valores que não dificultam a operação. “Não colocamos muitos números quebrados, entre colocar R$ 0,75 e R$ 0,50, colocamos o menor porque é exige menos moedas na devolução. Quando o troco é quebrado é mais difícil porque as moedas de valores menores são as mais raras”.

Reposição – Segundo informações repassadas pela assessoria de imprensa do Banco Central do Brasil, a reposição de moedas é feita de acordo com a demanda identificada por meio de pesquisas. Porém, por ser considerada informação sigilosa, o Banco não divulga os valores, quantidades e locais onde as reposições são realizadas.

Caso raro – Se existe dificuldade para encontrar moedas, a de 1 centavo então é uma raridade. Durante todas as entrevistas feitas pela reportagem, em vários locais, em nenhum estabelecimento e com nenhum consumidor foi encontrado o níquel de menor valor da moeda nacional. Nos estabelecimentos, os comerciantes alegam que nunca são utilizadas pelos clientes e por ser difícil preços tão quebrados, a troca de notas por 1 centavo é bem menor ou nem mesmo acontece. De acordo com os dados do Banco Central, cada moeda de R$ 1 centavo, custa 9 centavos para ser confeccionada, por isso a importância delas permanecerem em circulação no mercado e não serem esquecidas ou descartadas.

Em 2005, o Banco Central suspendeu a distribuição da moeda pelo país depois que foi identificada que das 3 bilhões existentes, mais de 30% do total de moedas em circulação naquela ocasião e ainda superior em 20% o total atual, eram suficientes. Mesmo assim, mais 63 milhões de moedas foram emitidas durante os anos de 2005, 2006 e no primeiro semestre de 2007, referentes à produção de 2004.

De acordo com uma pesquisa encomendada pelo Banco Central em 2005 e 2006, o valor de 1 centavo era o que a população menos relatava sentir falta no mercado. Entretanto, a assessoria do BC informa que a fabricação se dará quando for notada a necessidade, mas que por enquanto será priorizado a produção dos demais valores. Além disso, a autoridade monetária continua promovendo campanhas para conscientizar o brasileiro a colocar as moedas em circulação.