Vaticano insiste em uso “excepcional” da camisinha

O Vaticano reafirmou neste domingo o “caráter excepcional” do uso da camisinha nas declarações feitas pelo Papa Bento XVI e insistiu que o uso do preservativo é justificado apenas “em alguns casos” e não constitui uma solução ao problema. O porta-voz Federico Lombardi afirmou que o pontífice falou a respeito de uma “situação excepcional” quando …

22/11/2010 09:46



O Vaticano reafirmou neste domingo o “caráter excepcional” do uso da camisinha nas declarações feitas pelo Papa Bento XVI e insistiu que o uso do preservativo é justificado apenas “em alguns casos” e não constitui uma solução ao problema. O porta-voz Federico Lombardi afirmou que o pontífice falou a respeito de uma “situação excepcional” quando disse que o uso da camisinha é aceitável para a Igreja Católica em “certos casos”.

“O Papa considerou uma situação excepcional na qual o exercício da sexualidade é um perigo real para a vida do outro”, disse Lombardi. Em um livro que será lançado na terça-feira, o Papa Bento XVI, 83 anos, afirma que o uso de preservativos é aceitável especialmente para reduzir o risco de infecção do HIV, em uma aparente flexibilização de sua postura a respeito do tema.

O livro, que tem como título “Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times” (Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais do Tempo, em tradução livre para o português), é baseado em 20 horas de entrevistas conduzidas pelo jornalista alemão Peter Seewald.

A declaração surpreendente, apesar de não questionar a proibição da camisinha na doutrina da Igreja, foi considerada um passo importante que muda a imagem ultraconservadora do pontífice alemão, segundo analistas. “O Papa deu o passo em um momento maduro, que já era esperado por muitos teólogos e conferências episcopais”, afirmou o vaticanista Luigi Accatoli do jornal Corriere della Sera.

A inédita abertura do chefe da Igreja Católica ao uso do preservativo, rejeitado de todos os modos até o momento, abre o debate dentro da instituição sobre uma aceitação ou não do uso da camisinha como um “mal menor” para salvar vidas. Com a abertura “clamorosa”, como a qualificou à AFP o vaticanista Marco Politi, o Papa “consente com cautela” o uso da camisinha 20 meses depois das reações negativas provocadas por uma declaração dada pelo pontífice na África, continente devastado pela Aids, de que o preservativo “agravava o problema”.

Importantes nomes da Igreja, como os cardeais Carlo Maria Martini e o africano Peter Kodwo Appiah Turckson, já haviam se pronunciado publicamente a favor do uso da camisinha em casos específicos, como quando um dos membros do casal está contaminado. A nova posição de Bento XVI certamente influenciará o debate, já que até agora a Igreja defendia apenas a abstinência como método de prevenção da doença, e apresenta um rosto mais humano e aberto do primeiro pontífice alemão da era moderna, que ficou conhecido como guardião do dogma durante o pontificado de João Paulo II.

“Desta vez parece que fala como pastor, com tom tolerante, mais que cmo chefe da Igreja. São declarações que não podia fazer de forma oficial”, declarou à AFP o analista Bruno Bartolini. Para Politi, o Papa percebeu que “demonizar” o preservativo era “insustentável do ponto de vista científico, teológico e moral”, mas afirmou que seria melhor ter pronunciado estas palavras em um contexto eclesiástico e não por meio de uma entrevista. Ao mesmo tempo, pessoas ligadas ao pontífice, tentaram minimizar o alcance da afirmação.