Quadrilha explorava índios e vendia madeira ilegal

Numa ação criminosa que gera mais vantagem financeira do que o tráfico de drogas, segundo a Polícia Federal, madeireiros e empresários da região de Juína (735 km a Noroeste de Cuiabá) foram presos nesta sexta-feira (26), por extração e comercialização ilegal de madeiras da terra indígena Serra Morena. As prisões ocorreram durante a Operação Pharisaios, …

28/11/2010 11:18




Numa ação criminosa que gera mais vantagem financeira do que o tráfico de drogas, segundo a Polícia Federal, madeireiros e empresários da região de Juína (735 km a Noroeste de Cuiabá) foram presos nesta sexta-feira (26), por extração e comercialização ilegal de madeiras da terra indígena Serra Morena. As prisões ocorreram durante a Operação Pharisaios, da Polícia Federal.

De acordo com o delegado que coordenou a operação, Wilson Rodrigues, a exploração de madeira era realizada por meio de aliciamento dos índios, que recebiam, em média, de R$ 15 a R$ 30 pelo metro cúbico, enquanto os proprietários de madeireiras e serrarias comercializam o produto por R$ 300 a R$ 1 mil.

A comercialização se dava por meio de “esquentamento” com guias florestais fraudulentas, emitidas em Plano de Manejos pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). Dentre as madeiras comercializadas estão o ipê e o mogno.

“O Plano de Manejo é um grande negócio, lucrativo e muito mais vantajoso do que o tráfico de drogas. Enquanto os madeireiros pagam R$ 15 por um metro cúbico de madeira, os empresários vendiam a mesma quantia por valores que chegam a R$ 1 mil”, afirmou Rodrigues, em entrevista coletiva, na sede da Polícia Federal, na tarde desta sexta-feira (26).

Segundo o delegado, dez mandados de prisão foram expedidos, mas, até o momento, apenas seis foram cumpridos. Ele afirmou ainda que cinco pessoas foram presas em flagrante, por porte ilegal de arma de fogo. Os nomes não foram divulgados.

Além disso, foram cumpridos dois mandados de condução coercitiva e 24 mandados de busca e apreensão, de documentos, caminhões, pás-carregadeiras, reboques e escavadeiras.

A quantidade de terra explorada de forma ilegal e os valores que a operação rendeu aos envolvidos ainda serão levantados pela PF. O delegado Wilson Rodrigues explicou que o foco, neste primeiro momento, é a preservação da área indígena.

Num segundo momento, a PF irá fazer uma auditoria e revisão dos Planos de Manejos que eram utilizados pela quadrilha. Além disso, a polícia buscará identificar se as irregularidades eram cometidas em função de falhas no Sistema de Comercialização e Transporte de Produtos Florestais (Sisflora), da Sema, ou se havia participação de servidores.

Crimes

Dentre os crimes que os empresários e madeireiros foram indiciados estão: exploração de floresta, dano em Área de Preservação Permanente, transporte ilegal de madeira, formação de quadrilha armada e falsidade ideológica.

Investigações

As investigações tiveram início em 2009, a partir de uma denúncia da Fundação Nacional do Índio (Funai), que relatava a exploração e comercialização ilegal de madeiras na terra indígena, por meio de aliciamento dos índios, que recebiam dinheiro em troca.

Segundo Wilson Rodrigues, a denúncia trazia apenas os apelidos dos envolvidos. A partir daí, iniciou-se uma investigação para identificar o nome dos madeireiros que aliciavam os índios e dos proprietários das madeireiras e serrarias que faziam a exploração e comercialização das toras.

Quanto aos índios, o delegado afirmou que eles eram ludibriados pela quadrilha, se tornando vítimas.

Após um ano de investigação, foi deflagrada a Operação Pharisaios, pela Polícia Federal, em parceria com Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), Força Nacional e Funai.

Esquema

Segundo a Polícia Federal, o esquema funcionava da seguinte forma: as toras de madeira eram extraídas ilegalmente da terra indígena e transportadas até uma das madeireiras, que comercializam mediante “esquentamento” com guias florestais fraudulentas, emitidas em Plano de Manejo pela Sema.

Nas guias, eram feitas simulações de que as madeiras seriam oriundas de propriedade rurais privadas, o chamado repasse de “créditos florestais fictícios”.

Ainda de acordo com a PF, as fraudes nas guias florestais são “grosseiras”, tendo sido identificadas centenas, entre elas, que o transporte de toras de madeira em motocicletas e veículos de passeio, transporte de quantidade de madeira até três vezes superior à capacidade de carga do caminhão, transporte com cadastro de placas de veículos inexistente.

Já as fraudes nos Planos de Manejo estão ligadas a áreas em que constam emissões de guias, mas que não apresentam sinais de exploração florestal; áreas que extrapolam o perímetro aprovado pela Sema ou com exploração incompatível com a volumetria autorizada e exploração de Área de Preservação Permanente.