Feminização da Aids

Na próxima sexta-feira começa o Carnaval, quando o país parece parar no tempo. Tudo se volta para a festa profana. Mas a alegria de alguns é a preocupação de outros. E na ocasião surgem as campanhas que visam alertar para o exagero no consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, a velocidade nas estradas e, …

27/02/2011 13:49



Na próxima sexta-feira começa o Carnaval, quando o país parece parar no tempo. Tudo se volta para a festa profana. Mas a alegria de alguns é a preocupação de outros. E na ocasião surgem as campanhas que visam alertar para o exagero no consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, a velocidade nas estradas e, como não poderia deixar de ser, o sexo inseguro. Neste ano o alvo da campanha do Ministério da Saúde são os jovens de até 24 anos, mas principalmente do sexo feminino. Serão para elas os spots, jingles e outras mensagens via meios de comunicação. O objetivo é evitar a chamada feminização da epidemia, ou seja, o número crescente de casos de soropositivas entre as brasileiras mais jovens.

Segundo dados oficiais, a cada 8 meninos de 13 a 19 anos contaminados com o vírus HIV, há 10 meninas dessa faixa etária na mesma situação. Em estados como a Paraíba, por exemplo, havia 4 garotos e 15 meninas contaminados no ano de 2009. No Rio de Janeiro, no mesmo ano, foram registrados 54 meninas e 28 meninos soropositivos. Por isso o Ministério as elegeu como foco principal de uma campanha que visa incentivar o uso da camisinha, até hoje a única barreira cientificamente comprovada capaz de evitar a transmissão do vírus por meio da relação sexual. E para garantir o uso do preservativo o órgão anunciou a distribuição de 84 milhões de camisinhas, o que representa 26 milhões a mais que no ano passado.

Apesar de mais informada – e as fontes de informação são inúmeras – esta geração de jovens ignora o preservativo, mesmo conhecendo todos os riscos e maneiras de contaminação da doença. Além do sentimento de invencibilidade comum nesta faixa etária, no caso das meninas a camisinha é deixada de lado tão logo o relacionamento pareça “estável”. Dados do Ministério da Saúde mostram que 60% dos jovens usam a proteção na primeira relação e apenas 30% quando o parceiro se torna fixo. O preservativo também vem sendo deixado de lado no sexo casual, uma prática cada vez mais frequente quando o que importa é o prazer, aqui e agora.

E o que parecia ser um avanço tem o seu lado cruel. De acordo com especialistas, o fato de o Brasil ter controlado a epidemia de Aids, com programas de distribuição de medicamentos, e de os portadores do vírus terem uma qualidade maior de vida contribui para que os jovens esqueçam o preservativo na carteira ou não façam questão de usá-lo. A gravidez indesejada continua sendo a maior preocupação de pessoas nesta faixa etária, o que se reflete no aumento do uso indiscriminado da pílula do dia seguinte.

Estima-se que 630 mil brasileiros sejam soropositivos, número que deve aumentar com a segunda etapa da campanha nacional, de incentivo ao teste de HIV, sífilis e hepatite B, principalmente para os que não fizeram sexo seguro no Carnaval. A instalação de tendas em locais com maior movimentação facilitará o acesso aos exames. Resta torcer para que a campanha não se resuma na conscientização e que exista, nos órgãos competentes, uma continuação deste trabalho com o acompanhamento total e irrestrito dos que se descobrirem portadores da doença.