A solidão contemporânea

Psicologia e medicina são duas profissões extremamente diferentes, os primeiros psicanalistas eram médicos e fizeram questão de acentuar esta distância deixando claro que cada tratamento cuida de determinados sofrimentos. Vejo apenas duas semelhanças entre psicologia e medicina: ambas são tratamentos visando a saúde e nossos pacientes nos procuram em último caso. Não é de hoje …

21/03/2011 13:46



Psicologia e medicina são duas profissões extremamente diferentes, os primeiros psicanalistas eram médicos e fizeram questão de acentuar esta distância deixando claro que cada tratamento cuida de determinados sofrimentos. Vejo apenas duas semelhanças entre psicologia e medicina: ambas são tratamentos visando a saúde e nossos pacientes nos procuram em último caso.
Não é de hoje que as pessoas esperam o máximo possível para procurar um tratamento, com a demora a cura torna-se mais difícil. Tanto os médicos quanto nós psicólogos temos nossa parcela de culpa ao utilizarmos o tratamento. Como consequência temos um grande número de pacientes graves.
Algo interessante que se observa nas clínicas são as “doenças da moda” a cada período de tempo muda-se a doença. Houve uma época que as pessoas sofriam de “síndrome do pânico”, depois veio a “depressão”. Hoje em dia as pessoas chegam a mim e aos meus colegas sofrendo de solidão.
Solidão é um nome meramente ilustrativo, o sofrimento destas pessoas assemelha-se à uma sensação de vazio, associada com uma falsa percepção de que ninguém gosta delas. Como consequências temos pessoas que se envolvem em relacionamentos superficiais apenas para não ficarem sozinhas. Mesmo quando o relacionamento não é superficial, mas verdadeiro uma hora ele acaba, neste momento aqueles que sofrem de solidão emendam outro relacionamento em seguida. Esta tentativa de não ficar só funciona por algum tempo, ela adia o sofrimento, mas a sensação de solidão cresce em um efeito bola de neve até que desaba no mais profundo desespero.
A solidão é uma “patologia” (se é que podemos chamá-la assim) contemporânea e típica das grandes cidades. Converso com não psicólogos provenientes de outros lugares do Brasil e todos eles se surpreendem com o distanciamento dos paulistas. Nossa sociedade contribui para que cada um se isole e de fato ficar sozinho é necessário, não existe amadurecimento sem a capacidade de conseguir ficar só, mas também não existe qualidade de vida sem sofrimento.
Hoje em dia a vida virtual é cada vez mais frequente, este é um sintoma da solidão, nem todos que se relacionam virtualmente sofrem, seria um absurdo escrever isto, mas esta vivência colabora para o distanciamento. Assim como a vida virtual trás muitos benefícios, possibilidades de cultura e novos tipos de relacionamentos. Diria que a vida virtual só é possível por que as pessoas sentem-se sozinhas, as megalópoles favorecem para esta solidão.
Outros sinais dos tempos são as baladas feitas para não nos relacionarmos, não existe contato verdadeiro em uma balada, não há espaço para nos conhecermos, as festas são motivos para se beber, não é possível fortalecer vínculos embriagado, mesmo quando se bebe com amigos fica cada um sozinho na sua própria embriagues. Também não sou contra festas ou bebidas, apenas uso elas como exemplo da nossa sociedade que pari solitários.
Não podemos mudar a sociedade, também seria tolice voltar-se contra a tecnologia ou revoltar-se contra as baladas. O que podemos fazer é prestar atenção em nós mesmo, em nossos amigos a dificuldade em ficar sozinho é um indício, na dúvida procure um psicanalista, existem alguns, aqueles que realmente acreditam nas ideias de Freud, que aceitam barganhar o preço.