Brasil será o 13º país a estourar topo da meta de inflação

Países ricos e em desenvolvimento enfrentam – em diferentes estágios – um problema em comum no atual momento da economia global: a luta contra a inflação. Apesar dos esforços de governos e Bancos Centrais mundo afora, por enquanto, a disparada nos preços tem vencido a disputa. E o Brasil passará a integrar a lista de …

06/05/2011 09:54



Países ricos e em desenvolvimento enfrentam – em diferentes estágios – um problema em comum no atual momento da economia global: a luta contra a inflação. Apesar dos esforços de governos e Bancos Centrais mundo afora, por enquanto, a disparada nos preços tem vencido a disputa. E o Brasil passará a integrar a lista de países que têm a inflação acima do centro da meta estabelecido pelo governo.

Adotado no Brasil em 1999, o regime de metas de inflação estabelece um índice central e uma banda de variação. Para 2011, o centro da meta para o IPCA é de 4,5% com limite de dois pontos percentuais para cima (6,5%) ou para baixo (2,5%).

É consenso entre os especialistas consultados pelo iG que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) –a chamada inflação oficial – vai ultrapassar em abril o topo de 6,5% no acumulado de 12 meses. Para tanto, basta o indicador vir acima de 0,76% no mês, na divulgação que será realizada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A inflação nos emergentes

Topo da meta foi ultrapassado por metade dos países emergentes que adotam sistema.

Caso a expectativa dos analistas se confirme e o IPCA de abril estoure o topo da meta, o Brasil se juntará a outros 12 países na lista daqueles que contam com inflação acima do máximo permitido, segundo estudo da Tendências Consultoria. Atualmente, 23 países adotam o regime de metas de inflação.

Com o Brasil, a lista de países com inflação acima da meta passaria a contar com sete emergentes (Brasil, Coreia do Sul, Tailândia, Polônia, Hungria, China e Rússia) e seis desenvolvidos (Suécia, Canadá, zona do euro, Israel, Reino Unido e Austrália). Ainda mantêm a inflação dentro do limite da meta países como República Tcheca, Peru, Colômbia, Chile, México, Filipinas, Japão, Noruega, Estados Unidos e Islândia.

Para Roberto Padovani, estrategista-chefe do Banco WestLB do Brasil, o movimento global de inflação não é surpresa. Os estímulos econômicos dados em meio à crise de 2008, explica ele, indicariam, em um segundo momento, uma pressão inflacionária, caso as economias dessem sinais de recuperação – o que, de fato, aconteceu. Em 2010, o movimento foi intensificado pela política fiscal dos Estados Unidos, que ampliou a liquidez internacional.

“Seria uma decorrência lógica, nesse quadro de inflação global, que os emergentes tivessem um risco maior, já que esses países não enfrentaram uma crise de crédito”, disse Padovani, que avalia que, no caso brasileiro, “equívocos fiscais” pioraram a situação. “Houve um aumento de incentivos que agravou o problema e vai custar caro, com a inflação rompendo o limite superior da meta.”

Segundo Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, os países deveriam ter adotado medidas mais austeras contra a inflação. “Eles achavam que a situação se resolveria mais rápido do que realmente aconteceu”, disse. Ele pondera, no entanto, que houve uma mudança nas relações macroeconômicas, com decisões mais rápidas e instrumentos menos eficientes que no passado. “Hoje, os países estão financeiramente globalizados e a dinâmica de juros e compulsório tem um efeito menor, por conta da fuga de capitais.”

IPCA

O cenário projetado para a inflação no Brasil sinaliza que a meta de inflação será ultrapassada neste mês. Flávio Serrano, economista sênior do banco Espírito Santo, espera que o IPCA avance 0,80% em abril, chegando a 6,54% no acumulado de doze meses. “A projeção é até conservadora”, diz Serrano. Para a Tendências Consultoria, o IPCA deve subir 0,89% em abril, acumulando taxa de 6,64% em doze meses. Padovani, do WestLB, projeta 0,82% e 6,6% respectivamente, enquanto Agostini espera IPCA em 0,9% no mês.

Além da pressão de alimentos, que já começa a dar sinais de desaceleração, o principal motivo para o avanço do IPCA no mês é o comportamento dos preços de combustíveis. “O álcool anidro, por exemplo, subiu mais de 40% no período e puxou também o preço da gasolina, que tem 20% do produto na sua mistura”, diz Serrano. Para o economista, os itens gasolina e álcool devem responder por 0,3 ponto percentual do IPCA no mês.

Depois de atingir o pico em abril, a inflação deve começar a arrefecer já a partir de maio, chegando a uma taxa próxima de 0,4%. “Trabalhamos com um cenário melhor, de forte desaceleração da inflação, que volta para um patamar mais normalizado, dependendo em especial do comportamento dos preços do álcool. A partir da metade do ano, a taxa deve girar entre 0,30% e 0,45%”, diz Serrano. “Mas o cenário ainda não é benigno, porque as medidas de núcleo da inflação ainda estarão elevadas”, afirma.

O economista da Tendências Consultoria, Thiago Curado, também é da opinião de que o cenário inspira cautela. “Esse recuo a partir de maio não significa que podemos parar de olhar para a inflação com preocupação”, diz, já que os preços de serviços ainda devem continuar bastante pressionados durante o ano. Para a Tendências, o IPCA deve fechar 2011 com taxa de 6,6%, acima do teto. Só em 2012 que a inflação voltará a patamares mais próximos à meta, com variação de 5,2%.

Desaceleração

Para o banco Espírito Santo, a inflação acumulada em doze meses no Brasil continuará acima do teto pelo menos até setembro, mas deve fechar o ano dentro da banda máxima estipulada pelo governo, com taxa de 6,3%. Em 2012, o banco espera que o IPCA recue para 4,8%.

Roberto Padovani também acredita em inflação convergindo para a meta no ano que vem, embora ressalte a necessidade de um aperto fiscal. “Com esse freio nos incentivos fiscais e monetários, aumenta a chance de a economia brasileira começar a crescer próximo do seu potencial ou abaixo dele. Esse fator é fundamental para fazer com que a inflação convirja para a meta.”

Alex Agostini, por sua vez, defende que o Banco Central aumente “a dose” na elevação de juros, para conter o avanço dos preços. “Para 2012, entendemos que é possível a inflação ficar um pouco menor, não no centro da meta, como o governo tem falado, mas próximo de 5,2%, se houver uma postura austera nos juros e com medidas complementares.”

Fonte:IG