O imperativo da indústria transformadora

Os serviços de alta tecnologia exigem competências especializadas e criam poucos postos de trabalho, e por isso o seu contributo para o emprego global continuará forçosamente limitado. A produção industrial, por outro lado, pode absorver elevado número de trabalhadores com aptidões médias, fornecendo-lhes empregos estáveis e benefícios. Por isso, para a maior parte dos países, …

20/09/2011 09:48



Os serviços de alta tecnologia exigem competências especializadas e criam poucos postos de trabalho, e por isso o seu contributo para o emprego global continuará forçosamente limitado. A produção industrial, por outro lado, pode absorver elevado número de trabalhadores com aptidões médias, fornecendo-lhes empregos estáveis e benefícios. Por isso, para a maior parte dos países, continua a ser uma boa fonte de empregos de elevada remuneração.

Na realidade, o sector das indústrias transformadoras é também onde as classes médias ganham forma e crescem. Sem uma base produtiva enérgica, as sociedades tendem a dividir-se em ricos e pobres – aqueles que têm acesso a empregos estáveis e bem remunerados e aqueles cujos empregos são menos seguros e cujas vidas são mais precárias. A produção pode, em última análise, ser fulcral para a força da democracia de uma nação.

Nas últimas décadas tem-se verificado nos Estados Unidos uma constante desindustrialização. Desde 1990, a taxa de emprego do sector transformador caiu quase cinco pontos percentuais. Isso não seria necessariamente mau se a produtividade laboral (e os salários) não fossem substancialmente mais elevados nesse sector do que no resto da economia – 75% mais elevados, para ser mais exacto.

As indústrias de serviços que absorveram a mão-de-obra dispensada do sector transformador são heterogéneas. No nível superior, finanças, seguros e serviços às empresas, todos juntos, possuem níveis de produtividade semelhantes aos da indústria de transformação. São indústrias que criaram alguns novos postos de trabalho, mas não muitos – e isso foi antes da crise financeira que surgiu em 2008.

O grosso do novo emprego veio dos “serviços pessoais e sociais,” que é onde se encontram os trabalhos menos produtivos da economia. Esta migração de postos de trabalho para patamares inferiores na escala da produtividade retirou anualmente 0,3 pontos percentuais ao crescimento da produtividade norte-americana desde 1990 – sensivelmente um sexto da produtividade em relação a este período. A crescente percentagem de mão-de-obra de baixa produtividade contribuiu para que aumentassem as desigualdades na sociedade norte-americana.

A perda de postos de trabalho no sector da indústria transformadora norte-americana acelerou depois do ano 2000, com a concorrência global como provável culpado. Conforme mostrou Maggie McMillan do International Food Policy Research Institute, existe uma estranha correlação negativa entre alterações no emprego na China e nos Estados Unidos no seio das indústrias de transformação. Naquilo em que a China mais se expandiu, os Estados Unidos perderam o maior número de postos de trabalho. Nos poucos sectores que, na China, sofreram contracção, os Estados Unidos ganharam emprego.

Em Inglaterra, onde o declínio da indústria de transformação parece ter sido almejado quase alegremente pelos Conservadores, desde Margaret Thatcher até David Cameron ter chegado ao poder, os números são ainda mais impressionantes.

Para os países em vias de desenvolvimento, o imperativo da indústria transformadora é absolutamente vital. Normalmente, a diferença de produtividade em relação ao resto da economia é muito maior. Quando a indústria transformadora se desenvolve, pode criar milhões de postos de trabalho para trabalhadores não- qualificados, frequentemente mulheres que anteriormente trabalhavam na agricultura tradicional ou desempenhavam serviços subalternos. A industrialização foi a força motriz de um rápido crescimento no Sul da Europa durante as décadas de 1950 e 1960, e no Este e Sudeste asiáticos nos anos 1960.

A Índia, que recentemente teve taxas de crescimento idênticas às da China, contrariou essa tendência apoiando-se em software, call centers e outros serviços às empresas. Isso levou a que algumas pessoas pensassem que a Índia (e talvez outros países) pudesse enveredar por um caminho diferente, liderado pelos serviços, para o crescimento.

Mas a fraqueza da indústria transformadora é um entrave ao desempenho económico global da Índia e ameaça a sustentabilidade do seu crescimento. As indústrias de serviços de alta produtividade da Índia empregam trabalhadores com os mais elevados níveis de instrução. Mas a economia Indiana terá de criar postos de trabalho produtivos para os trabalhadores não-qualificados de que é dotada em grande quantidade.

Para os países em vias de desenvolvimento, expandir as indústrias transformadoras permite não só melhorar a afectação de recursos como também, ao longo do tempo, ganhos dinâmicos. E isso porque a maior parte das indústrias transformadoras é aquilo a que poderíamos chamar “actividades de escada rolante”: quando, numa economia, uma indústria é reanimada, a produtividade tende a crescer rapidamente em direcção ao patamar tecnológico dessa indústria.

Na minha investigação descobri que as diferentes indústrias transformadoras, como por exemplo a de peças de automóvel ou maquinaria, apresentam aquilo a que os economistas chamam “convergência incondicional” – uma tendência automática para fazer diminuir o fosso em relação aos níveis de produtividade dos países desenvolvidos. É muito diferente da “convergência condicional” que caracteriza o resto da economia, em que o crescimento da produtividade não é garantido e depende de políticas e de circunstâncias externas.

Um erro comum na avaliação do desempenho das indústrias transformadoras é analisar unicamente os resultados e a produtividade, sem ter em conta a criação de postos de trabalho. Na América Latina, por exemplo, a produtividade do sector transformador cresceu a olhos vistos desde que a região se tornou liberal e se abriu ao comércio internacional. Mas esses ganhos verificaram-se à custa de – e em certa medida devido a – uma racionalização industrial e a reduções de emprego. Os trabalhadores despedidos acabaram em actividades menos qualificadas, como serviços informais, provocando a estagnação da produtividade em toda a economia, apesar do excelente desempenho do sector transformador.

As economias asiáticas também se abriram, mas aí os governantes tiveram mais cuidado no apoio às indústrias transformadoras. Mais importante ainda, mantiveram moedas competitivas, que é a melhor forma de garantir lucros elevados aos fabricantes. O emprego no sector transformador registou uma tendência para aumentar (como parcela do emprego global), até mesmo na Índia, com o seu crescimento liderado pelos serviços.

À medida que as economias se desenvolvem e se tornam mais ricas, o sector transformador – “fazer coisas” – torna-se inevitavelmente menos importante. Mas se isso acontece mais depressa do que os trabalhadores conseguem adquirir competências mais qualificadas, o resultado poderá ser um perigoso desequilíbrio entre a estrutura produtiva da economia e a sua força de trabalho. Podem ver-se as consequências por todo o mundo, sob a forma de mau desempenho económico, desigualdade crescente e políticas de divisão.

Por:Dani Rodrik é professor da Universidade Harvard