Água doce em risco

24/02/2012 08:07



A agricultura como está sendo praticada, na maior parte do mundo, apodera-se de 92% da água doce do Planeta. Tal situação é insustentável. O alerta é de pesquisadores holandeses, preocupados com o abastecimento futuro das populações, diante do excessivo consumo carreado para a produção agrícola.

O Brasil insere-se, especialmente, entre essas preocupações, por ser o quarto país com o maior consumo desse recurso e também o quarto entre os que exportam bens cuja produção requer grande volume de água, como os produtos primários. Enquanto o consumo se acentua, as fontes de água doce minguam.

Este diagnóstico é formulado aos pesquisadores Arjen Hoekstra e Mesfin Mekonnen, publicado na revista científica PNAS. Arjen Hoekstra é o criador do conceito de “pegada hídrica”, entendida como o volume de água usada na cadeia produtiva de determinado bem.

Com este importante mecanismo de mensuração do consumo, a dupla de pesquisadores estimou a pegada hídrica média de cada país e do setor econômico, baseando-se no consumo nacional de produtos e no comércio global de “commodities”, no período transcorrido entre 1996 e 2005. A demanda de água doce surpreendeu, por haver superado, na fase estudada, os índices até então conhecidos. Nos levantamentos anteriores, o consumo era mais comedido.

Arjen Hoekstra defende ponto de vista segundo o qual as atividades agrícolas poderão adotar modos de produção mais racionais, em particular, nas regiões secas. Além desse aspecto, o Brasil, arrolado entre os países com os maiores índices de consumo de água em suas atividades agrícolas, é motivo de cuidado do pesquisador pela administração da água doce em futuro próximo.

Pelas projeções dos dois cientistas, o brasileiro consome, em média, 3.780 litros de água por dia, considerando os 5% que vêm de casa e 95% dos produtos agrícolas e industriais. O consumo de uma xícara de café exige 140 litros de água, incluindo-se na estimativa o líquido necessário para o plantio e produção.

Países desenvolvidos apresentam taxas elevadas de consumo do líquido. Ainda assim há parâmetros elevados, também, em países subdesenvolvidos, como a Bolívia, em razão da ineficiência da produção agrícola. O gasto de água por habitante se torna uma ameaça aos seus mananciais. O conceito de pegada hídrica começa a interessar aos países latino-americanos, como Brasil e Chile, onde o hábito do consumo excessivo é uma realidade difícil de superar.

A água é fator decisivo para o comércio mundial futuro, junto com a segurança hídrica das nações tanto desenvolvidas como em desenvolvimento. Não se vislumbra sequer como o problema poderá ser equacionado. A China alinha-se entre os países com maiores inquietações. Como já enfrenta escassez de água, precisará em breve aumentar suas importações do líquido.

A América do Norte, por sua vez, sofre com a falta de água doce em algumas regiões. Por isso, terá de recorrer ainda mais aos países vizinhos. Dessa maneira, a América Latina poderá se tornar a maior exportadora do mundo de produtos com maior percentagem de água na sua composição.

O futuro das nações, diante dessa perspectiva de escassez, dependerá essencialmente da água potável. Há necessidade de preservar os recursos hídricos, racionalizar o consumo, combater o desperdício e emprestar tratamento diferenciado aos insumos que reclamam alto uso de água na produção.

Fonte:Diariodonordeste





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