Ruim com eles, pior sem eles

19/05/2012 01:58



A corrida bancária protagonizada pela população da Grécia nos últimos dias é apenas mais um sinal do iminente colapso econômico do país, cuja saída da zona do euro é debatida publicamente pelos líderes da região. Embora os saques da semana passada representem apenas 1% do total de depósitos, as autoridades monetárias temem que uma avalanche de resgates quebre as instituições financeiras. Na quarta-feira 16, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, conhecido como “Super Mario”, interrompeu temporariamente a concessão de empréstimos a alguns bancos gregos, sob o argumento de que a recapitalização dessas instituições precisa ser concluída pelo Banco Central da Grécia.

“Assustadas, as famílias já vêm remetendo dinheiro para o exterior há muito tempo”, diz o economista brasileiro, descendente de família grega, Nicola Tingas, que, no mês passado, visitou parentes na cidade de Tessalônica, a 500 quilômetros da capital Atenas. “As pessoas sacam o dinheiro e guardam até debaixo do colchão”, diz Tingas. A instabilidade econômica na Grécia aumentou após a fracassada tentativa de se formar um governo de coalizão – as eleições do dia 6 de maio não indicaram um vencedor. Sem acordo entre as correntes políticas e sob um governo interino, os eleitores voltarão às urnas no dia 17 de junho para um novo pleito. A insatisfação popular com a austeridade fiscal deve ser traduzida em mais votos para os partidos radicais de esquerda e de direita – comunistas e neonazistas, respectivamente.
Principais vítimas do desemprego, os jovens lideram os protestos contra o arrocho, mas ainda não empunham, em sua maioria, a bandeira da saída da Zona do Euro. Oficialmente, a chanceler alemã Angela Merkel e os principais dirigentes europeus garantem que a prioridade é ajudar a Grécia. “Mas, para isso, sacrifícios fiscais precisam ser feitos”, disse Merkel, em mais um recado à já asfixiada população grega.Diante de um cenário nebuloso, bancos e empresas trabalham com a possibilidade de ressurreição do dracma, a antida moeda grega. “O fim do atual modelo do euro é uma certeza, e será traumático”, afirmou Douglas McWilliams, executivo-chefe do Centro Britânico de Pesquisas Econômicas e de Negócios (CEBR, na sigla em inglês) em relatório distribuído na quinta-feira 17. “A opção é alongar esse sofrimento fiscal até a morte do euro ou acabar logo com a união monetária e iniciar a recuperação econômica da região.”
Pelos seus cálculos, uma saída desordenada da Grécia custará 5% do PIB da Zona do Euro, o equivalente a US$ 1 trilhão. Se a ruptura for planejada, a perda será de 2% do PIB, ou US$ 300 bilhões. Por causa do elevado risco de abandonar o euro, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou, na quinta-feira 17, a nota da Grécia de B- para CCC. Muitos analistas consideram, no entanto, que uma eventual saída da Grécia da união monetária não seria tão simples. Para os gregos, significaria ter uma moeda desvalorizada e uma inflação fora do controle. Nem mesmo eventuais ganhos de exportação compensariam o desarranjo econômico. Para os demais países europeus, a primeira conta a ser paga seria a do calote dos títulos gregos e seus impactos no sistema bancário. É aí que mora o perigo. Os cofres dos bancos espanhóis, por exemplo, estão abarrotados de títulos podres e poderiam não suportar uma corrida bancária.
O primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, demonstrou, na semana passada, uma enorme preocupação com a elevação dos juros cobrados pelos investidores para rolar a dívida do país. “Precisamos reduzir o déficit público, pois há um sério risco de que não consigamos mais tomar empréstimos, ou de que o façamos a preços astronômicos”, disse Rajoy. Corte nos gastos, no entanto, é tudo o que a população europeia repele. A propósito, nem os cabarés parisienses estão imunes à estagnação da economia no Velho Continente. A casa de espetáculos Crazy Horse, que atrai turistas interessados em shows picantes nas proximidades da avenida Champs Élysées, enfrenta a primeira greve de dançarinas desde a sua criação, em 1951. Alguns espetáculos da semana passada foram cancelados, enquanto as bailarinas sensuais reclamam de “salários miseráveis”, cerca de € 2 mil.

Fonte:istoédinheiro





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