Investidores anti-Dilma na inércia da crise política

10/05/2016 12:48

Investidores levam negócios para o lado pessoal, uma postura que diante da crise política, pode dificultar tirar o Brasil de sua pior recessão em um século.

O clima nos círculos financeiros brasileiros beira a euforia.

O real é a moeda de melhor desempenho no mundo neste ano. As ações brasileiras subiram mais de 30% e os yields dos títulos estão despencando. Tudo isso em um país com o maior índice de desemprego em quatro anos, déficit orçamentário nas alturas, inflação perto dos 10% e uma classificação de crédito que coloca o governo lado a lado com a Guatemala.

Há um certo perigo, como diria Alan Greenspan, de exuberância irracional. E por trás de tudo isso está a empolgação, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com a possibilidade de o impeachment da presidente Dilma Rousseff abrir caminho para uma onda de medidas de austeridade e reformas para estabilizar a economia, que passa por dificuldades. Em conversas privadas com investidores, fica claro que a convicção de que melhores tempos virão decorre, em parte, do descontentamento deles com Dilma e o PT, postura que pode estar subestimando as dificuldades para tirar o Brasil de sua pior recessão em um século.

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e atualmente chefe do departamento econômico da Confederação Nacional do Comércio, diz que o mercado precificou que Temer será capaz de fazer tudo o que for necessário para corrigir a economia.

A fragilidade do rali foi exposta na segunda-feira, quando os ativos brasileiros despencaram depois de uma decisão do presidente interino da Câmara pedindo a anulação do impeachment. Apesar de investidores classificarem o episódio como um obstáculo passageiro, o real caiu mais de 4,5%, enquanto a bolsa afundou 3,5%.

Até mesmo os assessores do vice-presidente Michel Temer, que assumirá o lugar de Dilma pelo menos temporariamente se o Senado decidir levar o processo de impeachment da presidente adiante, se concentram em conter as expectativas. A realidade é que, apesar de todo o otimismo, Temer enfrenta uma lista de desafios que cresce diariamente e que não será fácil de corrigir.

Temer é quase tão impopular quanto Dilma e a investigação de corrupção que sacudiu o governo dela agora avança sobre muitos aliados dele. Há pouco apetite para mais medidas de aperto entre os brasileiros pobres, já atingidos pela recessão, ou pelos parlamentares que dependem dos votos deles, em particular às vésperas das eleições municipais de outubro.

O plano inicial de eliminar um terço dos ministérios já está tendo o escopo reduzido e os aumentos de impostos que ajudariam a reforçar as contas do país foram descartados por enquanto por serem muito impopulares, segundo dois aliados de Temer, que pediram anonimato porque a discussão não é pública. Até mesmo o principal assessor de Temer, Wellington Moreira Franco, diz que ele conseguirá realizar apenas melhorias graduais nas contas públicas e que não tem pressa de elevar a idade de aposentadoria, uma iniciativa impopular que os economistas, quase universalmente, consideram necessária.

Realidade sombria

A situação sombria serve de advertência para os investidores que levaram os ativos brasileiros a ganhos recorde no mundo. As ações estão em um bull market e o custo de proteger a dívida soberana contra prejuízos, medido pelos swaps de crédito de cinco anos, está próximo do nível mais baixo desde agosto. Embora a valorização do real neste ano seja a maior entre cerca de 150 moedas monitoradas em todo o mundo pela Bloomberg, os analistas projetam que a moeda cairá 9% até o fim de dezembro.

Os investidores, de forma geral, estão ignorando os sinais de possíveis problemas futuros. A fragmentação no Congresso, dizem, não será problema para um político experiente como Temer; os altos índices de desaprovação, em linha com a rejeição de Dilma, podem ser uma vantagem, já que Temer não precisará se preocupar com medidas duras prejudicando seu índice de aprovação.

Paulo Bilyk, que ajuda a administrar R$ 10 bilhões em ativos como diretor de investimento da Rio Bravo Investimentos, disse em um evento no Rio de Janeiro, no mês passado, que a equipe de Temer agirá rápida e decisivamente para corrigir os males do Brasil. Segundo ele, são pessoas que sabem muito claramente o que precisa ser feito.

Na semana passada, o BNP Paribas alterou para positiva sua perspectiva para o Brasil após anos de pessimismo, dizendo que Temer tem uma “oportunidade de ouro” para projetar uma reformulação econômica se conseguir montar uma equipe econômica sólida e angariar apoio no Congresso. A economia crescerá 2 % no ano que vem, disse o banco — um contraste gritante em relação à projeção de consenso dos economistas consultados pelo Banco Central, de crescimento de apenas 0,5 %.

Os otimistas dizem que Temer, um advogado especialista em Direito Constitucional de 75 anos, tem muito a seu favor. É um operador político experiente, defende medidas pró-mercado e tende a reunir uma equipe econômica de alto nível em seu governo, possivelmente incluindo o ex-presidente do BC Henrique Meirelles como ministro da Fazenda.

Em um esforço para evitar uma reação entre os eleitores, já pressionados pelo desemprego e pela queda do salário real, Temer evitará as medidas de aperto e, em vez disso, focará em ações de longo prazo para ganhar a confiança do investidor, segundo seus assessores. Entre as iniciativas, provavelmente estarão a flexibilização das regras sobre os contratos públicos, garantindo ao setor privado uma importância maior no setor do petróleo, e a redução de desperdícios nos gastos públicos.

O problema é que essa abordagem demora para produzir resultados e corre o risco de ficar parada em um Congresso dividido.

Lava Jato

Segundo João Pedro Ribeiro, estrategista da Nomura Holdings em Nova York, o anúncio das primeiras medidas e ministros de um possível governo Temer tenderá a ser pró-mercado e ajudará a valorizar os ativos brasileiros. Segundo Ribeiro, em uma segunda fase, quando as reformas enfrentarem um Congresso dividido, haverá um choque de realidade.

Talvez o maior risco para Temer, e por extensão para os otimistas em relação ao Brasil, seja o potencial de novos desdobramentos da Operação Lava Jato, segundo Christopher Garman, chefe de análises sobre o país da consultoria política Eurasia Group.

Pelo menos 43 parlamentares que apoiariam Temer são investigados sob acusações de corrupção do Supremo Tribunal Federal. Muitos são membros do próprio partido do vice-presidente, o PMDB.

Isto não é um bom presságio para uma agenda econômica agressiva no Congresso e é precisamente o tipo de risco político que muitos investidores estão subestimando, disse André Cesar, fundador da consultoria Hold Assessoria Legislativa, de Brasília. Ele acompanha a política do Brasil há mais de duas décadas.

 

Por Raymond Colitt, Julia Leite e Anna Edgerton com a colaboração de Arnaldo Galvão, Peter Millard, Paula Sambo, Cristiane Lucchesi e Walter Brandimarte.