Opinião – Inevitável ruptura política

Partidos com definição étnica causam inevitável ruptura política. Divisão política é inevitável quando os partidos têm uma definição étnica Nenhuma cidade na Holanda é tão holandesa em sua essência como Haia. Mas basta uma caminhada ou um passeio de bicicleta a um quilômetro mais a leste e surge um cenário bem menos tradicional, o das barbearias …

20/06/2016 16:18



Partidos com definição étnica causam inevitável ruptura política. Divisão política é inevitável quando os partidos têm uma definição étnica

Nenhuma cidade na Holanda é tão holandesa em sua essência como Haia. Mas basta uma caminhada ou um passeio de bicicleta a um quilômetro mais a leste e surge um cenário bem menos tradicional, o das barbearias de imigrantes ganenses e de casas de chá turcas. As mulheres usam um lenço na cabeça; homens vestidos com jelabas entram em uma mesquita para as orações da noite.

Em frente à mesquita está o açougue do marroquino Amin, onde em uma tarde recente, atrás de um balcão refrigerado cheio de shawarma, Jamal, o filho de 31 anos de Amin, instalou um computador. Jamal é um rapaz com ideias modernas, que teria condições de superar a distância social e cultural entre a identidade tradicional do país e suas novas comunidades de imigrantes. Ele veio para a Holanda com a família aos 2 anos, formou-se em administração de empresas na Universidade de Erasmus, e trabalhou como analista de dados em diversas empresas de médio porte.

Mas no ano passado Jamal desistiu de trabalhar no mundo corporativo e voltou para o açougue do pai. “O preconceito racial permeia a sociedade holandesa”, disse; na última empresa em que trabalhou, ele viu com tristeza seus colegas brancos inventarem desculpas para rejeitar pedidos de emprego de pessoas de outras etnias.

Como a maioria dos holandeses de famílias de imigrantes, Jamal votou no Partido Trabalhista de centro-esquerda. Porém agora está pensando em votar no Denk (“Pense”), um novo partido criado por dois deputados holandeses de origem turca e que tem um apelo explícito para as comunidades muçulmanas e minorias étnicas. Depois de dez anos de insultos constantes aos muçulmanos e de discursos contra a imigração do político Geert Wilders, atual líder nas pesquisas de intenção de votos, muitos muçulmanos perceberam que nem o Partido Trabalhista ou qualquer outro partido majoritário iria defender suas causas.

Denk não conquistará mais do que alguns assentos nas eleições gerais de 2017, mas a pergunta de seus líderes à sociedade expõe um problema crucial: em um momento de crescente xenofobia, as minorias na Europa podem confiar nos grandes partidos de centro-esquerda nos quais em geral votam? Eles devem criar seus próprios partidos? Ou isso agravaria ainda mais a polarização?

A abordagem do Denk como representante apenas das minorias étnicas aumentará as divisões na sociedade holandesa. “O discurso dos parlamentares do Denk enfatiza a retórica de ‘nós contra eles’”, disse Ahmed Marcouch, um deputado holandês de origem marroquina do Partido Trabalhista.

Há pouco tempo, quando o Parlamento holandês colocou em votação uma proposta para reconhecer o genocídio armênio, Denk assumiu uma atitude incomum de forçar uma votação individual, para que pudesse exibir um vídeo de deputados holandeses de origem turca de outros partidos votando na resolução, como material de campanha para seus eleitores. Essa divisão política é inevitável quando os partidos têm uma definição étnica. Por esse motivo, é provável que Jamal, por fim, hesite em votar no Denk.

 

Fonte - The Economist