Opinião – O inferno mora ao lado

”…se todos os argumentos apresentados não conseguirem demover os hipócritas de plantão, talvez possam considerar a necessidade de pacificação do país.” O Senado Federal inicia, hoje, o julgamento final do impeachment da presidente Dilma. Estará nas mãos dos senadores a séria responsabilidade de decidir os destinos deste país. Têm pela frente dois caminhos, praticamente opostos: …

25/08/2016 09:23



”…se todos os argumentos apresentados não conseguirem demover os hipócritas de plantão, talvez possam considerar a necessidade de pacificação do país.”

O Senado Federal inicia, hoje, o julgamento final do impeachment da presidente Dilma. Estará nas mãos dos senadores a séria responsabilidade de decidir os destinos deste país. Têm pela frente dois caminhos, praticamente opostos: a retomada da democracia ou a confirmação do golpe, impondo à nação inimaginável retrocesso.

Com a escolha, os parlamentares explicitarão suas verdadeiras motivações. Muitos – acreditem! – passarão por cima dos interesses do país para salvar a própria pele. Afinal, há notícias de que 35 dos 81 senadores teriam sido citados na delação da Odebrecht. Por isso, a necessidade de um acordão para cassar a presidente e encerrar a Lava Jato. Não sem motivos, vários deles tremeram, com o anúncio da presidente de que irá pessoalmente ao Senado para se defender. Apavoram-se diante do risco de serem confrontados pela própria hipocrisia.

Dilma Rousseff já deu uma prévia do que irá sustentar em sua defesa. Em carta enviada ao Senado, voltou a defender a realização de um plebiscito para que a população decida sobre a convocação de novas eleições. Ou seja, propõe devolver ao povo o poder de decisão que lhe foi cassado, garantindo-se a governabilidade e a legitimidade para a recondução do país à democracia.

Mas, se o compromisso com a democracia não for motivação suficiente, razões é que não faltam para que o grupo do “salve-se quem puder” recue. A começar pelo desastre do governo interino, que, como bom representante das oligarquias do poder, já promove a retirada de direitos históricos e o fim das conquistas sociais que mudaram a realidade brasileira. Sem contar que o plebiscito poderá, ainda, ser instrumento para a convocação da Constituinte exclusiva, com vista à reforma política. Viabilizando-a, nossos representantes dariam provas de comprometimento com o fim de um sistema político falido, que propicia a corrupção.

Na carta ao Senado, Dilma voltou a assumir erros cometidos por seu governo, mas lembrou que somente o povo, por meio do voto, pode afastar o chefe do Estado pelo “conjunto da obra”. Não arredou pé, no entanto, de sua inocência, a qual, diga-se de passagem, foi confirmada pelo próprio Ministério Público Federal em recente despacho no Distrito Federal. O órgão avaliou que os atrasos nos repasses da União ao BNDES referentes ao Plano Safra – principal alegação do processo de impeachment – não constituem ilícito penal, e sim ato de improbidade administrativa. Outra razão de peso para que os senadores reflitam. Não há qualquer sustentação para a tese do crime de responsabilidade, o que torna o afastamento um claro e flagrante golpe de Estado.

Por fim, se todos os argumentos apresentados não conseguirem demover os hipócritas de plantão, talvez possam considerar a necessidade de pacificação do país. Ao consumarem o golpe, assumirão a responsabilidade por uma divisão sem precedentes em nossa história, cujas consequências não se pode prever. O inferno mora ao lado, não duvidem, nobres parlamentares, e o tempo há de cobrar-lhes a conta.

 

durval angelo
Por Durval Ângelo