Opinião – França e Brasil

”Nesse debate, a reinvenção da democracia brasileira começaria por afastar a preocupação de ser esquerda, ou direita. Afinal, as ideias e propostas não têm rótulos” Não há como fugir das apreensões, em relação ao futuro da humanidade, sobretudo pelo início em breve do novo governo brasileiro. Os atuais protestos sociais na França são emblemáticos e …

13/12/2018 17:21



”Nesse debate, a reinvenção da democracia brasileira começaria por afastar a preocupação de ser esquerda, ou direita. Afinal, as ideias e propostas não têm rótulos”

Não há como fugir das apreensões, em relação ao futuro da humanidade, sobretudo pelo início em breve do novo governo brasileiro.

Os atuais protestos sociais na França são emblemáticos e acendem o “alerta” do que poderá acontecer em outras nações.

Ninguém previu o renascimento da extrema direita de Marine Le Pen, unida nas ruas de Paris à extrema esquerda de Jean-Luc Mélenchon, causando inquietações, que se alastram até nas democracias aparentemente sólidas.

Na última segunda feira, Macron enfrentou a crise, decretando “estado de emergência econômico e social”. Mudou o seu método de governar, que era amarrado à lógica do mercado, defendida pelo primeiro ministro de ultra direita, Édouard Philippe.

Calçou as “sandálias da humildade” e fez um giro social. Ao invés de concentrar benefícios para empresas e pessoas com patrimônio, dá prioridade à classe média e trabalhadores.

Segundo o “Journal du Dimanche” disse aos seus assessores: Quando há ódio, significa que há uma demanda por amor”.

Outra mudança é a sua reaproximação da classe política, de quem se afastara por considerar-se “gênio”, ao ganhar uma eleição sem previsão de sucesso. Cercou-se de tecnocratas e burocratas, civis e militares.

Após os protestos, ele parece convencer-se, de que somente a criatividade política é capaz de superar crises nas democracias. Isso não ocorre, por exemplo, na Rússia, onde o “czar vermelho” Vladimir Putin “segura o país” com métodos autoritários, desde 1999, cargo no qual continuará até 2024, graças a uma emenda à Constituição, criada por ele mesmo, que ampliou o período da Presidência de 4 para 6 anos.

Um tipo desse não pode ser exemplo para quem confie na Democracia.

Os adversários de Macron acusam-no de “fraqueza”, diante da rebeldia das massas. É bom lembrar que há cinquenta anos, o país viveu a revolta de “Maio de 1968”.

À época era presidente o general Charles De Gaulle, governo forte, sem oposição, militar e quase monárquico. Mesmo assim, não evitou o movimento de impulso, que abalou a V República e ele deixou o poder. Por que, agora, Macron seria fraco e omisso?

O movimento chamado de “coletes amarelos” (“gilets jaunes”, em francês), que hoje abala a França, tem origem remota nos levantes populistas ocorridos em Baltimore (USA) no período pós-morte do líder negro Martin Luther King; “Occupy” Wall Street (2011, USA); catalães e o Movimento dos “Indignados”, na Espanha; Liga Norte na Itália; o movimento flamengo, na Bélgica; na Turquia (2013), os jovens na defesa do Parque Gezi, protestando contra o ditador Erdogan. O mesmo já aconteceu noReino Unido, Estados Unidos, Europa Central e no Brasil, com as revoltas de 2013 e a paralisação dos caminhoneiros, em maio passado.

Sociólogas americanas apontam como causa dessas revoltas globais, uma reação “dos jovens, que obedeceram às regras do jogo e não viram os frutos dos seus esforços“.

São insurreições que rejeitam partidos políticos, sindicatos e instituições governamentais.

Em verdade, o Ocidente revela mal estar com a globalização, que prioriza o “mercado”, em detrimento do individuo e transfere riquezas e poder, principalmente em proveito da Ásia e da China.

Nesse contexto inseguro, a maior preocupação serão as consequências de protestos semelhantes em nosso país. A última eleição de 2018 sinalizou insatisfação do eleitor e apontou para a crise de legitimidade da Democracia Representativa.

A “vacina” brasileira para enfrentar o futuro imprevisível será a reinvenção da nossa Democracia, como meio de conter as revoltas sociais. Cabe ao Congresso Nacional buscar um ponto de equilíbrio, separando as “discordâncias” e unindo as “concordâncias” sobre temas polêmicos.

A esquerda dá prioridade a ação estatal para reduzir a desigualdade. A direita entende que cada cidadão pode sair da pobreza, por sua ação pessoal.

John Stuart Mill, intransigente defensor do liberalismo, defende que o exercício da liberdade humana, somente é possível com uma distribuição justa de oportunidades, diminuindo-se a distância entre os mais ricos e os mais pobres da sociedade.

Lord Beveridge, o criador do Estado de bem-estar social britânico, analisava que a segurança das pessoas não depende delas próprias, mas também da garantia do Estado, espécie de seguro coletivo contra o infortúnio individual.

Nesse debate, a “reinvenção da democracia brasileira” começaria por afastar a preocupação de ser “esquerda”, ou “direita”. Afinal, as ideias e propostas não têm rótulos.

Para serem eficazes, elas dependem do conteúdo ético e da competência, de quem as defende. Só isto e nada mais!

 

 

 

 

ney lopes

 

Por Ney Lopes, jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br –blogdoneylopes.com.br