Opinião – Faça o que eu digo, mas eu faço o que eu posso

”É bom ver o presidente Bolsonaro beijar as cruzes de sua Presidência. Porque a democracia é o cruzeiro maior que repousa no altar das instituições” O terraplanista e globalista chanceler do governo, juntamente com o presidente marrento com esse tal de meio ambiente e cheio de pinimbas com o Mercosul, foram para o outro lado …

05/07/2019 12:07



”É bom ver o presidente Bolsonaro beijar as cruzes de sua Presidência. Porque a democracia é o cruzeiro maior que repousa no altar das instituições”

O terraplanista e globalista chanceler do governo, juntamente com o presidente marrento com esse tal de meio ambiente e cheio de pinimbas com o Mercosul, foram para o outro lado do mundo e, lá no Japão, assinaram um acordo com a União Europeia que… fortalece a defesa do meio ambiente e o Mercosul. E o grande tuiteiro do Norte? Donald não foi até a Coreia do Norte visitar o rechonchudo ex-vilão número um da humanidade e se transformou no primeiro presidente americano a pisar em solo norte coreano? A turma da vaia logo se mobilizou a plenos pulmões e soltou a garganta contra Bolsonaro e Trump. Mas quer saber? Uma das coisas mais lindas do poder é ver a realidade fazer as retóricas dobrarem os joelhos e beijarem a cruz. Ou chame a isso de pragmatismo. Ou instinto de sobrevivência. Mas, seja o que for, é um dos traços mais interessantes do poder. E dos mais positivos.

É curioso como os estereótipos muitas vezes não combinam com os fatos, sim, os fatos, os malditos fatos, os detestáveis fatos, os inescapáveis fatos na vida pública. Barack Obama era aquele ursinho panda inclusivo de fala mansa e sedutor na Casa Branca, mas como comandante e chefe da máquina de matar das forças armadas americanas ordenou mais ataques contra vidas e alvos do que o aterrador, antipático, falastrão, odiado por tantos, bilionário branquelo e misógino Donald Trump. Obama errou? Fez o que pôde no seu tempo, diante de suas circunstâncias. E Trump, que fala tanto e tão grosso para todos os efeitos práticos é –até agora, pasmem– mais pacifista que o adorável panda democrata: está andando numa corda bamba com o Irã e foi lá tirar uma foto com o gorducho nuclear norte coreano.

No Brasil, o radicalismo do PT no poder terminou no primeiro dia com a nomeação de um ex-presidente do Bank of Boston para a chefia do Banco Central. Até a “querida” Dilma nomeou um ex-discípulo da “asquerosa” universidade de Chicago para seu Ministério da Fazenda. E, agora, o campeão do agronegócio e crítico declarado do Ibama e do Mercosul bebeu água servida pelo Macron e beijou a cruz do acordo de Paris (com todas as suas rigorosas exigências ambientais) e esqueceu o que disse do Mercosul para fechar um acordo econômico com a União Europeia, no melhor estilo daquilo que um dia já foi atribuído ao ex-presidente Fernando Henrique (e talvez jamais pronunciado por ele, embora praticado) “esqueçam o que escrevi”.

Seriam essas guinadas contraditórias, oportunistas, ou apenas a envernizada expressão de Fernando Henrique (esta de sua legítima lavra), “a ética da responsabilidade”? Estariam os líderes comprometidos não com a ética estreita e monolítica do senso comum (inflexível e não maleável) ou a eles caberia cumprir uma ética que é complacente e própria do exercício do poder? Uma ética darwniana que se adapta aos diferentes ambientes desse selvagem e inóspito habitat chamado História? Cada um tenha sua própria opinião, mas é inegável que é melhor ver Trump confraternizando com Kim Jong-un do que mísseis explodindo Pyongyang. É melhor ver Bolsonaro negociando o acordo de Paris que as motosserras devastando tudo ao redor. É melhor, enfim, ver os interesses nacionais prevalecendo sobre as ideologias palanqueiras. É melhor ver a lógica do mundo real conduzir as ações dos homens com responsabilidade do que a lógica dos tuítes.

E se a ética da responsabilidade deve se sobrepor sobre as pulsões efêmeras dos populismos, isso coloca algumas questões para o exercício da política no dia a dia, especialmente na micropolítica, das pequenas peças que se encaixam na grande engrenagem desse mecanismo. Como conciliar os justos anseios das sociedades por novas práticas na atividade pública com os inafastáveis deveres do estadismo? As ruas de todo o mundo ocidental proclamam o desejo difuso de uma “nova política” e assim também é no Brasil. E é importante frisar: nova, mas política. O sonho por essa abstração não trata da morte da política, mas do fim da política como praticada tradicionalmente. Confundir nova política com não política é um ardil dos que querem flertar com o arbítrio. Por isso é tão bom ver o presidente Bolsonaro beijar as cruzes de sua Presidência. Porque a democracia é o cruzeiro maior que repousa no altar das instituições. Amém.

Por Mario Rosa, 54 anos, é 1 dos mais renomados consultores de crise do Brasil. Foi o autor do prefácio do primeiro plano de gerenciamento de crises do Exército Brasileiro. Atuou como jornalista e consultor.