Opinião – Fritando o ovo da serpente

”Ali estava eu, sentado na minha salinha (…) olhando para um pôster de um simpático macaco sentado em uma privada e lendo jornais (…)” Sem dinheiro, e com uma ressaca monumental , fiz o caminho de volta para a minha nova pequena cidade provinciana de Bonn, descendo o periférico, passando ao lado do aeroporto Charles …

23/07/2019 13:23



”Ali estava eu, sentado na minha salinha (…) olhando para um pôster de um simpático macaco sentado em uma privada e lendo jornais (…)”

Sem dinheiro, e com uma ressaca monumental , fiz o caminho de volta para a minha nova pequena cidade provinciana de Bonn, descendo o periférico, passando ao lado do aeroporto Charles de Gaulle rumo ao norte. Viagem rápida, passando Liége, já estamos na fronteira, e entramos na bela Aachen, onde estão os restos mortais do imperador Carlos Magno, em sua imponente catedral gótica.

Logo em seguida a “autobahn” para Colônia e a saída estratégica para Bonn Norte, onde estava o meu apartamento e a minha solidão de solteiro. Antes de partir, Gustavo, que me tinha como um colega mais novo, menino para ele, me deu vários conselhos e me recomendou para dois amigos seus que moravam perto de mim, em Dusseldorf. Jan Lage e Paulo Greuel.

O principal conselho foi quando balbuciei uma leve e quase imperceptível queixa de que tinha gasto uma grana preta naquele fim de semana. Com mais de uma década de vida, trabalho e imersão cultural na Europa, Gustavo foi taxativo, como um pai.

– Miguel, disse, nunca esqueça o que vou lhe falar. O que vale aqui na Europa e, principalmente em Paris, é a aparência. A aparência, e só. Depois vem o resto. A aparência abre ou fecha portas para você aqui. Não esqueça isso, se quiser passar um bom tempo por aqui cuide das aparências.

Respirei fundo, entrei no meu Porsche branquinho e voltei para casa. Foi, de longe, a embaixada onde mais aprendi e na qual exerci o trabalho mais gratificante que um jovem diplomata poderia aspirar. A Embaixada do Brasil em Bonn. Do embaixador, ainda remanescente da época dos grandes embaixadores do Itamaraty, Jorge Carvalho e Silva, passando pelo rigoroso, carinhoso, dedicado e incansável Ministro Conselheiro, Mário Augusto Santos, e pelos colegas mais antigos.

Sérgio Amaral, Valter Pecly, Regis Arslanian, Luiz Braconnot, Heraldo Póvoas, Raimundo Magno, Paulo Fernando Telles Ribeiro, e um time de primeira de oficiais de chancelaria a e contratados locais, onde se destacavam Renata Wachsmuth, no gabinete do embaixador, Luiz Saboia, no Consulado, Gilmar Mendes ( o atual Ministro do STF), nas Comunicações, Roberto Regueira, no Setor Econômico; o irmão da brasileira Rainha Silvia da Suécia, Jorgen, no Setor Comercial, e muitos outros, alemães, como o rigorosíssimo Senhor Leucht, na contabilidade, e as mais antigas funcionárias, as íntegras Liese Lotte e Rose Marie Hasse.

Um time inigualável. Sorte minha. Aprendi muito e fui amigo de todos, inclusive dos nossos queridos funcionários subalternos: Sebastião, um gentleman, motorista de alto gabarito, ainda jovem, morava na própria chancelaria. Vítor, um espanhol que havia caído de cabeça de um edifício onde pintava nas alturas, e terminou ficando mais esperto e mais engraçado do que antes daquela queda quase fatal. Trabalhava na cozinha e fazia o nosso cafezinho, repetido a cada meia hora, naquele frio invernal de Bonn.

Para coroar, em Brasília, o nosso Chanceler era o Embaixador Ramiro Saraiva Guerreiro. Grande Ministro das Relações Exteriores do Brasil. Sucedeu a Antônio Azeredo da Silveira. Um craque. Um dos melhores profissionais da diplomacia brasileira em todos os tempos e um homem do bem. Assim como seu filho, da minha geração, carinhosamente chamado pelos colegas de “Guerreirinho”. O hoje embaixador Guerreirinho é simplesmente um profissional que podemos considerar protótipo da excelência profissional. Precoce e gênio. Sempre foi discreto e nunca tirou partido por ter o seu pai no poder, como Ministro das Relações Exteriores. Quando chegou o momento de sua remoção para o exterior pediu para ir servir no Cairo, então um posto secundário e muito difícil, para espanto e perplexidade geral dos seus colegas, principalmente daqueles carreiristas e oportunistas, que enxergavam o mundo apenas como um exercício de benefícios pessoais, luxo e poder, no espírito dos diplomatas eunucos da antiguidade persa e grega.

Ali estava eu, sentado na minha salinha, chefe do Setor de Imprensa, ao lado da ampla sala do chefe do Setor de Ciência, Tecnologia e Cooperação Científica, o Conselheiro Sérgio Amaral, olhando para um pôster de um simpático macaco sentado em uma privada e lendo jornais, que afixei em frente à minha mesa de trabalho, para espanto geral da galera da Embaixada.

 

Por Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.