Opinião – Como fica o mundo depois da Covid-19

”Times Square vazia ao meio-dia, hora de alta circulação em Nova York. Liberais terão de encontrar 1 equilíbrio entre liberdade e programas públicos” Todo o mundo, incluindo os países onde a espiral da contaminação ainda cresce, como o Brasil, ainda sofrerão os efeitos da pandemia do coronavírus por longo tempo. Países como a China e …

19/04/2020 14:06



”Times Square vazia ao meio-dia, hora de alta circulação em Nova York. Liberais terão de encontrar 1 equilíbrio entre liberdade e programas públicos”

Todo o mundo, incluindo os países onde a espiral da contaminação ainda cresce, como o Brasil, ainda sofrerão os efeitos da pandemia do coronavírus por longo tempo. Países como a China e a Itália, porém, que levaram a sério o lockdown e já começam a trabalhar para a volta à vida depois do terror, começam a encarar a realidade deixada pela pandemia.

Como será o mundo depois do vírus? Para muitos, pensar no futuro hoje é um exercício de futurologia barata. Porém, já se pode tirar algumas conclusões a respeito do que mudou –e vai ficar.

A primeira delas é que a grande onda do liberalismo exacerbado, que cresceu a a partir dos anos 1980, sofreu um golpe definitivo, bem maior que o da crise de 2008.

Mesmo os conservadores dos Estados Unidos, que tanto combateram o projeto de um sistema público de saúde cuja instituição Barack Obama tentou implantar, terão de rever o papel do Estado e suas políticas públicas.

A cena dos caminhões recolhendo corpos em Nova York, de gente que morreu sem sequer poder ir ao hospital, não apenas é um macabro retrato do drama na metrópole mais cosmopolita do mundo, como fala sobre todo um sistema de vida.

Tanto para os mais pobres quanto os mais ricos, uma crise como a do covid torna-se um salve-se quem puder de consequências trágicas, numa sociedade onde cada um tem de se virar sozinho.

Isso não significa exatamente um estatismo maior, com aumento de impostos e imposição de sistemas públicos unificados de saúde, algo em que até o Brasil é melhor que os Estados Unidos.

Significa que os governos liberais terão de encontrar um equilíbrio maior entre as virtudes da liberdade e programas públicos que visam atender a população de forma mais igualitária, especialmente saúde e educação.

Não se trata de esquerdismo ou comunismo, pelo contrário. Trata-se de oferecer igualdade de oportunidades, uma das tarefas fundamentais e inerentes ao regime democrático. Por trás dessa igualdade, está o princípio humanista de que a vida de todos tem o mesmo valor.

Depois de 2008, os Estados Unidos passaram a investir dinheiro público no desenvolvimento de um sistema de saúde melhor, assim como na recuperação da economia, com forte ajuda pública ao setor privado. A dívida americana cresceu. Foi ela que deu impulso à recuperação econômica e não os gênios do capitalismo americano.

Países europeus, com a receita ponderada entre o público e o privado, embora tenham seus próprios problemas, como a absorção dos imigrantes, possuem um equilíbrio maior. Esse equilíbrio deve permitir que saiam da crise em condições de uma recuperação mais rápida.

Países como Brasil vão pagar o preço por não terem aproveitado o longo período de prosperidade para se colocarem numa posição melhor. Assim como o vírus mata mais fácil os mais fracos, a catástrofe econômica vai pegar mais duro quem tinha menos condições de enfrentá-la. É uma boa lição para o futuro. Não se pode esperar a catástrofe para fazer o que tem de ser feito.

Outra conclusão que se pode tirar da pandemia é que o mundo, que se tornou aberto e globalizado como nunca, pela criação de um mercado virtualmente franqueado e grande trânsito internacional, se tornará mais fechado. Países deverão voltar a investir na produção doméstica, no lugar do grande mercado globalizante, que derrubou preços e também o emprego.

Nesse cenário, o grande perdedor deve ser a China. Maior beneficiário da abertura dos portos, ela deve enfrentar o fechamento dos outros países por uma onda que não dispensará a intolerância, algo que já se faz sentir contra os chineses. A intolerância é o mecanismo que, sobretudo quando não há regra de direito para isto, impõe o afastamento dentro da sociedade, fazendo o papel de afastar o indesejável.

Esse deve ser o tom do futuro: pessoas mais desconfiadas da convivência; o crescimento dos mercados protecionistas nacionais e mais barreiras à globalização

Por outro lado, o mundo também já percebeu a necessidade de aperfeiçoar os organismos de coordenação de problemas globais. Desde a saúde, agora emergencial, até o meio ambiente e as relações comerciais globais.

Nelas, também se pedirá um equilíbrio maior. Assim como um vírus capaz de rodar o mundo, deve haver também um círculo maior de solidariedade, e uma pressão por políticas que reduzam os efeitos negativos do liberalismo selvagem em escala planetária. Em especial o crescimento da miséria, a concentração de renda e a extinção do emprego.

Essa é grande mudança que o Covid nos traz. Apesar das diferenças e da defesa de interesses, paira a conclusão de que, ao fim e ao cabo, todos são responsáveis por todos.

Quando países em todo o mundo deixam de lado a preocupação com o próprio bolso para salvar vidas, mandando as pessoas saírem do trabalho para se proteger em casa, colocam a vida humana novamente como o valor supremo.

A grande mensagem deixada pelo esforço contra o coronavírus, que se espalhou por todo o planeta, é de que de nada vale a riqueza, sem a Humanidade.

 

 

 

Por Thales Guaracy, 55 anos, é jornalista e cientista social, formado pela USP. Prêmio Esso de Jornalismo Político, é autor de livros como “A Conquista do Brasil”, “A Criação do Brasil” e “O Sonho Brasileiro”, entre outros. Pertence ao board do Projeto Condorcet, plataforma colaborativa global para o desenvolvimento da democracia na era digital.