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Opinião – Minha liberdade termina quando começa a sua

”Os libertinos da liberdade. Liberdade é diferente de libertinagem”, diz autora

Em tempos de covid-19, regras de convivência têm o potencial de se tornarem questões de vida ou morte. E o Estado está agindo para regulamentar essas normas e impor limites às liberdades individuais. Eu, que me considero libertária, penso que em termos gerais o governo não deveria ter o poder de decidir se eu posso ou não arriscar a minha vida. Esse deveria ser um direito nato, pessoal e intransferível. Mas se eu acredito ter o direito de me contaminar, pela mesma lógica eu jamais deveria ter o direito de contaminar a outros. Esse é um dos princípios mais básicos do libertarianismo, sintetizado no axioma da não-agressão. É aí que entra o uso da máscara de proteção.

Quem caminha na Lagoa Rodrigo de Freitas ou na orla de Ipanema consegue afirmar, com muita confiança, que metade das pessoas se exercitando nesses espaços privilegiados são extremamente egoístas (ou extremamente ignorantes). Fica fácil fazer essa afirmação porque até hoje, várias semanas depois do decreto municipal que obriga o uso de máscaras por quem está na rua, ele continua sendo descumprido.

O mais revelador é que, ao que tudo indica, a máscara serve principalmente para proteger aquele que interage com quem a usa –não aquele que a está usando. Ou seja: eu uso a máscara para te proteger, e você a usa para me proteger. É uma espécie de dilema do prisioneiro da pandemia, onde ambos fazemos esse pacto silencioso. É uma perfeita simetria social de direitos e obrigações.

Quem se recusa a usar a máscara, portanto, não está sendo corajoso ao se arriscar ao contágio. Está, de fato, sendo um espírito de porco que arrisca contaminar quem por ele passa –sem sofrer quase nenhuma consequência por isso. Minha recomendação caridosa a essas pessoas: evitem passar por mim. Porque eu, caros leitores, apesar de libertária, respeito ao menos duas leis com obediência quase religiosa: a lei do menor esforço; e a Terceira Lei de Newton, carinhosamente conhecida como a lei da ação e reação.

É normal ver gente menos curiosa confundindo libertarianismo com libertinagem. Eu diria que a realidade é exatamente o contrário. O libertário real aceita a sua responsabilidade e as consequências dos seus atos. Não vou explicar conceitos formais aqui, mas vou dar exemplos com os quais nos deparamos –e um exemplo particular com o qual eu me deparei– pra tentar explicar o que eu entendo por libertarianismo e porque eu o defendo.

Antes de continuar, uma ressalva: existe libertarianismo de direita e de esquerda. Ayn Rand se referia a libertários como os “hippies de direita”. Mas na esquerda também existe quem queira menos interferência do governo nas escolhas pessoais. Acho que ambos os extremos são absurdos, porque inevitavelmente acabariam na defesa da anarquia. Então vale esclarecer antes de continuar: não acredito por um único momento no sucesso de qualquer comunidade anarquista com mais de 100 habitantes. Adoraria crer que tal utopia é possível, mas eu prefiro lidar com o realizável. Claro que também quero cantar John Lennon e imaginar um mundo sem fronteiras, sem religião, sem posses, mas deixo isso para as noites de luau em volta da fogueira, balançando de um lado pro outro cantando ao som daquele violão que só tem cinco cordas porque uma arrebentou e nunca foi substituída. Na vida real, eu não quero nem morar em prédio onde não exista um síndico responsável.

A questão da liberdade não é tão simples, porque ela pressupõe uma preeminência –uma liberdade que será privilegiada em detrimento de outra. No caso da máscara, a sua liberdade de não usá-la afeta diretamente a minha liberdade de não ser contaminado por você em um lugar público ao qual eu tenho direito de acesso. Por que a minha liberdade é mais importante que a sua? Porque a ausência da minha significaria possível morte, enquanto a ausência da sua significaria apenas um desconforto.

Como libertária –e faço questão de declarar que não sou nem especialista no assunto, muito menos porta-voz– eu defendo algo condenado até por muçulmanos laicos: o direito de mulheres saírem às ruas usando o niqab (o véu que cobre o rosto todo, menos os olhos). Eu não acredito que nenhum governo deva ter o poder sobre essa escolha, e que o rosto é seu para mostrar ou esconder. Por outro lado –e alguns vão achar que isso é uma contradição, mas é coerência– eu também defendo o direito de qualquer estabelecimento comercial proibir a entrada de cliente que não revele seu rosto.

Um dos valores mais sagrados para libertários é o direito de arriscar a própria vida. Acredito que uma vida bem vivida leve em consideração uma certa equação entre risco e benefício. Se de fato é necessário comer cinco porções de frutas ao dia pra evitar o câncer, eu já fiz a minha escolha –prefiro ter câncer. Mas a super-regulamentação da vida livre continua acontecendo, e essa cautela obrigatória, imposta por lei, compromete vários prazeres da existência.

Às vezes, esse excesso de regulamentação não é nem por respeito à vida, mas por respeito a questões econômicas e o lobby das empresas de seguros de vida e de saúde. (Pra quem se interessa pela indústria do lobby nos EUA, eu escrevi esse artigo sobre o assunto). Nos Estados Unidos, onde ainda existe uma federação, Estados têm costumes diferentes e permitem que a lei reflita as idiossincrasias locais que fazem o mundo mais interessante e menos homogêneo. Em Indiana, é normal passar na estrada por motoqueiros sem capacete aproveitando uma das grandes vantagens do uso da moto, o vento no cabelo. Aliás, vale traduzir o título e subtítulo desse artigo da revista de esquerda Mother Jones sobre a pressão dos motoqueiros pela liberdade de pilotar sem capacete: “Livre para … morrer. Mortes de motociclistas nos EUA mais do que dobram desde 1997. A resposta dos motoqueiros: Deixem-nos em paz.”

O argumento em favor do uso obrigatório do capacete não é desprezível. Alguns acham que o governo não deveria ter que arcar com o tratamento de quem não teve o cuidado de se proteger, e que essas vítimas representam um fardo injusto sobre todos os outros pagadores de impostos. Eu, como libertária, concordo com essa lógica. Se não por outra razão, porque o dinheiro dos impostos é limitado, e governar é eleger prioridades.

Eu não conseguiria defender que o governo arcasse com esse tipo de acidente enquanto crianças morrem por falta de água tratada. O meu libertarianismo determina que minha liberdade vem com responsabilidades, e que o estado tem recursos limitados e portanto tem a obrigação moral (e atuarial) de cuidar das coisas mais prementes e menos evitáveis.

Mas e em países onde o governo nem arca com custos de saúde? Para alguns, a liberação do uso de capacete prejudica até a saúde privada, porque aumenta o custo do seguro de saúde para todos. Mas existem várias soluções possíveis para isso: pode-se cobrar uma mensalidade maior de quem não usa capacete; pode-se obrigar as pessoas a assinarem termos de responsabilidade abrindo mão do seguro em acidente em que desprezou regras mínimas de proteção. Existem ainda outros argumentos possíveis contra essa liberdade. Eu posso argumentar, por exemplo, que a morte de alguém por não estar usando o capacete é uma penalidade extra e indevida sobre quem involuntariamente atropelou aquele motoqueiro. Estamos aí chegando a um extremo de preocupação em que a vida é regida pela pior hipótese. Eu não faço questão nenhuma em participar desse tipo de vida, mas uso esse gancho para a história que quero contar a seguir.

Em primeiro lugar, eu ando com meu cachorro sem a guia. Eu sei que está “errado,” e em alguns lugares isso é até ilegal. Mas antes de adotar meu Nietzsche eu tinha na minha cabeça que só seria “dona” de um animal se ele pudesse viver o mais livremente possível. Consegui treinar meu vira-lata a não ir para a rua sem o meu comando, e ele fica livre na calçada e espera no meio-fio pela minha ordem até a hora de atravessar.

Mas um dia eu estava num bar com amigos em Ipanema e o Nietzsche, solto, começou a latir para uma mesa de umas sete pessoas a dez metros de distância onde um outro cachorro, filho de um dono muito mais civilizado, estava deitadinho quieto debaixo da mesa, preso por uma coleira. Não acredito que o Nietzsche tenha latido por mais de um minuto, e tenho confiança nessa estimativa porque eu não suporto latido. Aliás, essa foi uma das condições que impus antes de prometer ficar com o cachorro recém-adotado: não ficaria com um que vive latindo. Sim, senhores, o coração de pedra aqui é inegável, e minha paz é algo da qual não abro mão. A outra razão pela qual eu sei que o Nietzsche não latiu por mais de um minuto é que eu tenho horror a incomodar –tanto ou mais do que tenho horror em ser incomodada. E o que aconteceu então foi o seguinte: O Nietzsche vai lá na mesa dos caras, provoca o outro cachorro bem maior que ele, e quando eu estou a ponto de ir prender o meu quase-filho ele volta pra minha mesa todo dengoso –coberto de cerveja.

Eu sinto o cheiro na hora e fico estarrecida. Olho pro meu amigo na minha frente e ele diz que viu o que aconteceu. Algumas conhecidas ao meu lado me provocam, salivando: “Você não pode deixar isso passar!” Eu pergunto pro meu amigo: “Quem foi?” Ele não responde. Eu insisto. Ele ainda assim não responde. É um atestado da grandeza daquele amigo que ele tenha se recusado pelo resto da noite a me dizer qual dos homens jogou cerveja no Nietzsche. E é um atestado da minha perfídia que enquanto eu me afogava num mar de ódio e raiva, eu ainda consegui calcular minha vingança e tive o discernimento de encher com fel da ambev o único copo da mesa com bituca de cigarro e assim garantir que a minha revanche seria dupla – você tirou um olho, vai perder dois.

Resumindo, meu amigo recusou a delação por tempo suficiente pra eu adquirir a temperança e a inteligência de entender –pra contragosto de muitos que estavam na minha mesa– que o cara que jogou cerveja no Nietzsche estava certo. Ou melhor: era eu que estava primeiramente errada. O meu cachorro estava incomodando, e os incomodados reagiram com a já mencionada Terceira Lei de Newton. Ação e reação. E a reação foi precisa o suficiente pra interromper a chatice do meu Nietzsche sem machucá-lo –algo que eu talvez não tivesse conseguido. Sim, teria sido melhor que fosse com água, mas era aquilo que o cara tinha à mão. O único erro dele, segundo meu irmão, foi que ele jogou a cerveja no cachorro –e não em mim.

 

 

 

 

Por Paula Schmitt é jornalista, escritora e tem mestrado em ciências políticas e estudos do Oriente Médio pela Universidade Americana de Beirute. É autora do livro de ficção “Eudemonia” e do de não-ficção “Spies”. Venceu o Prêmio Bandeirantes de Radiojornalismo, foi correspondente no Oriente Médio para o SBT e Radio France e foi colunista de política dos jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo. Publicou reportagens e artigos na Rolling Stone, Vogue Homem e 971mag, entre outros veículos.

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