Opinião – Bolsonaro e a Teoria da Curvatura da Vara de Lênin

”Exceder para buscar o ponto. Na saúde, ambiente e cultura”, Silva Pinto O governo do presidente Jair Bolsonaro parece tomar atitudes extremas em algumas áreas. O caso mais recente é o da divulgação dos números de infectados e mortos pela pandemia da covid-19. Em vez de se apresentar o problema, promover o debate e buscar a …

10/06/2020 16:27



”Exceder para buscar o ponto. Na saúde, ambiente e cultura”, Silva Pinto

O governo do presidente Jair Bolsonaro parece tomar atitudes extremas em algumas áreas. O caso mais recente é o da divulgação dos números de infectados e mortos pela pandemia da covid-19.

Em vez de se apresentar o problema, promover o debate e buscar a melhor alternativa, parte-se logo para uma mudança completa sem maiores esclarecimentos. E se diz a todo mundo para acreditar que será melhor assim, ainda que pareça o contrário. Depois, eventualmente, se faz algum recuo de ajuste, sem explicações ou qualquer constrangimento. Houve atitudes assim em relação ao meio ambiente, cultura e direitos humanos.

Entender esse comportamento exige buscar explicações teóricas no que há de mais radical na esquerda. A Teoria da Curvatura da Vara, de Vladimir Lênin (1870-1924), pode ajudar. O revolucionário russo dizia que, se uma vara está inclinada demais para 1 lado, não adianta buscar a correção mexendo-a até o ponto em que se acha que deveria estar. É preciso levar para o lado oposto. Depois, dizia Lênin, a vara recuará até o ponto em que se espera.

Não adianta buscar exemplos disso nos governos de esquerda do país. A razão é que a esquerda que chegou ao poder é do tipo não radical. Preferiu fazer acordos com quem já detinha parte do poder para, em contrapartida, conseguir a aprovação de políticas que considerava necessárias. É negociar antes e conseguir o que se quer depois.  O atual governo parece recorrer à radicalização e depois, se necessário, recuar.

Não se trata necessariamente de uma decisão consciente dos responsáveis pela política atual. Mas o fato é que os militares estudaram muito o pensamento marxista com o objetivo de combater a guerrilha urbana e rural nos anos 1970. O próprio Bolsonaro entrou para o Exército depois de, quando era adolescente, ter acompanhado uma dessas operações militares no Vale do Ribeira.

A proximidade do presidente com Olavo de Carvalho também ajuda a entender a escolha desse método. O escritor direitista é ex-marxista. E adepto do uso de mecanismos da esquerda para atingir objetivos com o sinal trocado. Carvalho disse que a prioridade de Bolsonaro deve ser a tomada do poder antes de tudo. Entende que para isso não basta receber a faixa e sentar-se na cadeira presidencial.

Carvalho atacou duramente o presidente em 1 vídeo divulgado no sábado (6.jun). O fato de não ter recebido uma réplica igualmente grosseira, que não seria algo inédito, mostra que há de fato apreço de Bolsonaro e de outras pessoas do seu círculo ao escritor.

 

 

 

 

Por Paulo Silva Pinto, formado em jornalismo pela USP (Universidade de São Paulo), com mestrado em história econômica pela LSE (London School of Economics). No Poder360 desde fevereiro de 2019. Foi repórter da Folha de S.Paulo por 7 anos. No Correio Braziliense, em 13 anos, atuou como repórter e editor de política e economia.