Análise – Paulo Guedes: Keynes ou Friedman?

”A pergunta é a seguinte: para surpreender o mundo e soerguer a nossa economia, o ministro da Economia continuará defensor ortodoxo da Escola de Chicago?” O tom otimista do Ministro Paulo Guedes, ao declarar que enxerga “futuro brilhante” para a economia nacional, abre, de um lado, clima de otimismo (o que é positivo) e de …

25/06/2020 13:39



”A pergunta é a seguinte: para surpreender o mundo e soerguer a nossa economia, o ministro da Economia continuará defensor ortodoxo da Escola de Chicago?”

O tom otimista do Ministro Paulo Guedes, ao declarar que enxerga “futuro brilhante” para a economia nacional, abre, de um lado, clima de otimismo (o que é positivo) e de outro, causa indagações sobre o que está na cabeça do, até agora, fiel seguidor da Escola de Chicago (Friedman), cuja linha inflexível é acreditar no “mercado” como resultado da “competição perfeita” e que, portanto, deve operar livremente, sendo o melhor modelo de gestão da economia.

A indagação surge, em razão da história da economia em “tempos de crise” justificar o debate, acerca da eficácia de teorias, que se opõem à Friedman.

Entre esses pensamentos contrários, assume destaque a concepção de John Maynard Keynes (figura abominada pelos defensores do mercado), convocado pelo governo inglês em 1914, para enfrentar a crise financeira europeia, após a I Guerra Mundial e em 1936, quando o mundo enfrentou outra impiedosa crise (a Grande depressão).

A influência do Estado sobre a economia de mercado diferencia Friedman de Keynes.

O primeiro é a favor da desregulamentação comercial e produtiva, do “laissez faire”, livre mobilidade de capitais, privatizações generalizadas. Essa linha de pensamento econômico acredita que a “competição perfeita” se faz através dos “mercados”, que devem operar livremente, sem regulamentações, por serem o melhor modelo de gestão da economia.

É o que pensa o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Já Keynes defendeu, que os mercados dependem da “confiança”, o que influi nas flutuações de preços, além da oferta e da procura. Com base em tal concepção, o Estado se torna imprescindível e deve agir de maneira a conter os ânimos do mercado, porque ele é um fenômeno social e não matemático. Ele completa a sua tese, repetindo que o governo tem o papel de coordenar as expectativas.

Existem exemplos de implementações dessas duas teorias em economias globais.

No pós I Guerra, Keynes sugeriu como saída da crise inglesa, enfrentar a pressão dos bancos privados e honrar apenas as obrigações devidas ao setor público. Dessa maneira, salvou o banco da Inglaterra (acumulou reservas) e preservou a credibilidade do país a nível externo.

Na reconstrução após a Grande Depressão (quebra da bolsa americana), as teses de Keynes vingaram. Ele revolucionou a economia, ao defender que as forças do mercado não seriam suficientes para retomada econômica.

Em contraponto a obra de Keynes, na década de 1950, um grupo de professores do departamento de economia da universidade de Chicago, liderado por Milton Friedman, se opôs a teoria da intervenção do estado na economia, mesmo moderadora. Até o Plano Marshall, que reconstruia a Europa no pós II Guerra, foi contestado.

Esse pensamento econômico, que pregava a abrupta diminuição do estado, expandiu-se a partir da década de 60, nos governos Ronald Reagan e Margareth Thatcher. O ditador chileno Pinochet também aderiu e usou as ideias na economia chilena, hoje consideradas catastróficas.

A crise financeira de 2008 desmoronou os seguidores inflexíveis da Escola de Chicago e reféns do mercado. Exemplos foram Islândia, Hungria e Estados Unidos (“Detroit”), com a onda de demissões e execuções de hipotecas, poupanças perdidas e aposentadorias dizimadas; além de distúrbios nas ruas e mobilizações políticas.

O presidente francês Nicolas Sarkozy chegou a afirmar à época que “a auto regulação, para solucionar todos os problemas, se acabou. O laissez-faire também”. Joseph Stiglitz, o economista-chefe do Banco Mundial passou a defender tese semelhante.

Atualmente, o mundo sofre com a mais impiedosa pandemia já ocorrida, através dos séculos. Neste contexto, o Brasil pensa na sua reconstrução.

É bom que o “orientador” de 99% da economia nacional (poder outorgado pelo Presidente Bolsonaro) seja otimista e afirme que o Brasil irá “surpreender”.

A pergunta no ar é a seguinte: para surpreender o mundo e soerguer a nossa economia, o ministro da Economia continuará defensor ortodoxo da Escola de Chicago, onde se formou, ou admitirá, que os tempos são outros, e as teorias de Keynes não morreram totalmente, no sentido de considerar o estado, elemento fundamental para o controle social?

 

 

 

 

ney lopesPor Ney Lopes, jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br