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Opinião – Recuperação econômica a caminho

”Compromisso com o equilíbrio fiscal deve ser retomado tão logo possível. É possível já no 4º trimestre. Cobra responsabilidade fiscal”, por Freitas Gomes

O nível inflacionário está sob controle há alguns anos, tendo terminado 2019 em 4,31%, dentro do intervalo de tolerância da meta de inflação, que é de 4,0%. Ao decorrer de 2020 os resultados continuam se mostrando baixos, sendo de +0,07% em março e de -0,31% em abril, deflacionário, portanto. A tendência é que esse movimento deflacionário permaneça, com o setor de serviços pressionando os preços para baixo. A demanda por serviços foi muito afetada durante o isolamento social e só será compensada com o reestabelecimento da renda, o que levará mais tempo para ocorrer e, só então, começará a impulsionar a inflação. Já o comércio deve ter elevação mais rápida nos seus preços.

Os preços mais baixos foram afetados pela restrição na demanda, e porque grande parte da procura por moeda, atualmente, está destinada a entesourar, o que pode ser observado pelo aumento mais recente na poupança. Os depósitos nesta modalidade em maio superaram os saques em R$ 37,2 bilhões, resultado que representa o maior ingresso líquido de recursos desde o início da série histórica, em 1995.

Com a inflação em níveis tão baixos, podendo chegar a 1,5% no acumulado deste ano, o Banco Central poderá reduzir ainda mais os juros, que podem chegar a 2,0% ao final do ano. Na última reunião do Copom, a Selic já sofreu um corte mais intenso do que nas reuniões anteriores, e alcançou o menor nível histórico, 3,0%. Os juros mais baixos ajudam a carregar a dívida pública e estimulam o crédito.

O fomento ao crédito deve encorajar a demanda reprimida com a crise, fazendo com que ela cresça de forma mais rápida e sem pressionar a inflação. E o aumento responsável da dívida pública é fundamental para garantir a sustentabilidade da recuperação da atividade econômica no médio e longo prazos.

Em relação ao setor externo, os números mais recentes mostram que a economia americana perdeu 22,1 milhões de empregos de março a abril, mas já conseguiu reabrir 2,5 milhões de postos em maio. Com o início de recuperação no mercado de trabalho nos Estados Unidos, os juros caindo mais no Brasil e o aumento responsável da dívida pública, as expectativas são de que o dólar continue se depreciando. Esse movimento deverá incentivar as importações de bens de capital e insumos no Brasil, essencial para a competitividade da indústria local. Além disso, essa tendência da moeda americana deverá prolongar a permanência da inflação em níveis mais baixos.

Com esses efeitos no setor externo e ainda na economia doméstica, pode-se esperar uma recuperação no Brasil a partir do 4º trimestre.

As recentes emissões de títulos no país de empresas brasileiras abriram o mercado nacional e podem representar volumes mais fortes de entrada de capital, colaborando para valorização do real. Os bancos centrais dos principais países estão estimulando suas economias com liquidez e taxas de juros baixas. Esses recursos deverão buscar ativos e oportunidades de investimentos também em outros países. Desse modo, as economias solventes em dólar, como a do Brasil, tornam-se atrativas para alocação de recursos.

Entretanto, passada a crise, é o momento crucial para a responsabilidade fiscal, que deve ser prioridade máxima. Caso contrário, as expectativas dos agentes vão patinar e poderão surgir dilemas para limitar o afluxo de moedas estrangeiras.

O auxílio emergencial do governo também está ajudando na restauração econômica, já que mantêm algum poder de compra da população. Contudo, o aumento das despesas nas contas públicas naturalmente injetarão cautela nos próximos desembolsos.

Mais um motivo para responsabilidade fiscal, pois, após a pandemia, os preços públicos que estão sendo suprimidos no momento voltarão a seus patamares normais. A tendência é que a inflação alcance cerca de 3,0% no próximo ano.

O fundamental é que o Brasil retome sua política fiscal mais restritiva tão logo possível. O aumento dos gastos com a pandemia precisa ser um fenômeno estritamente temporário, para que no pós-pandemia a economia possa sair mais rápido da crise.

 

 

 

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes, 72 anos, é economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi presidente do Conselho de Administração do BNDES e diretor do BNDES de 2017 a 2019, diretor do Banco Central (1986-1988) e da Petrobras (1990-1992).

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