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Análise – Um inimigo do povo

Dramaturgo Norueguês Henrik Ibsen nasceu em 1828 e morreu em 1906: Autor projeta análises de Stockmann. Médico é personagem de Henrik Ibsen

Em algum momento, já escrevi nesta coluna sobre um livro do norueguês Henrik Ibsen, “Um inimigo do povo”, na realidade uma insurgência contra a hipocrisia e a unanimidade. Muito atacado pelas elites intelectuais do século 19, o escritor foi defendido de forma pungente por um jovem, à época com 18 anos, James Joyce, que muitos consideram ter escrito o maior livro literário da humanidade, “Ulisses”. Disse o irlandês:

“Polêmico, ele tem sido considerado um reformador social e religioso, um amante semítico da justiça e um grande dramaturgo. Por outro lado, tem sido acusado de ser um intruso entre os grandes dramaturgos, um artista incompleto, um místico incompreensível e, nas palavras eloquentes de um crítico inglês, um ‘cão que focinho na lama’. Através da perplexidade dos críticos, o grande talento deste homem vem à tona, dia após dia, e ele surge como um herói em meio aos mesquinhos julgamentos mundanos.”

O livro traz a história do Dr. Thomas Stockmann, médico de uma pequena cidade que tem numa estação balneária, por ele mesmo concebida, uma expectativa de crescimento econômico e de prosperidade para seus habitantes. No entanto, ele descobre, e atesta isso cientificamente, que o manancial que abastece essas águas, na realidade, é putrefato porque a canalização foi feita de maneira errônea sob locais insalubres.

Como tem o hábito de receber pessoas em sua casa, antes de enviar o relatório a seu irmão, que é o prefeito da currutela e à diretoria do dito local de banho, de que, aliás, é o médico, quando recebe o relatório conclusivo da poluição, lá encontram-se 2 jornalistas. Eles se mostram logo interessados em divulgar o resultado e alertar a população sobre o transtorno. Em seguida, chega o impressor do jornal, que também é presidente de uma espécie de associação de pequenos proprietários interessados que a coisa prospere e, de mesma forma, se propõe a buscar simpatizantes da causa do salvacionismo do balneário. Pede Stockmann que eles aguardem, pois quer, antes, comunicar a quem pode resolver o problema.

Independentemente de sua vontade, a notícia se alastra e o imbróglio pode ser resumido da seguinte forma: o prefeito suborna os jornalistas e o impressor, porque diz que a cidade não tem dinheiro para gastar na obra e, de um momento para outro, aquele que era para ser considerado um herói se transmuta em adversário da coletividade. Numa reunião surreal, são proferidas palavras que acabaram sendo consagradas entre as mais belas já saídas das penas de um literato.

Vendo as censuras totalmente desarrazoadas contra o procurador-geral da República em seu enfrentamento à fascista operação Lava Jato, imaginei uma resposta do Dr. Stockmann (Aras) aos seus críticos. Naturalmente que as transcrições são aproximadas, mas bastante elucidativas. A única exceção é o trecho do periodicista Hovestad, que diz:

“Nós, jornalistas, senhorita, não valemos grande coisa”.

Diz um:

“Aras é o único operador da política brasileira capaz de confundir os lados no jogo da corrosão democrática: sob a promessa de destruir a Lava Jato, consegue fazer a mediação entre Bolsonaro, centrão, partidos de esquerda e ministros antilavajatistas do STF.”

Stockmann:

“Repito, não me convém perder tempo com essa pobre manada de fôlego curto, que nada tem a ver com o grande movimento da vida. Para eles, não é possível o sonho, nem o progresso. Penso no pequeno grupo dos indivíduos que estão sempre na linha de frente, longe da mesmice da maioria, lutando por novas verdades, demasiado novas para que a maioria as compreenda e as admita.”

Outro:

“Aras, porém, pode não ter calculado bem um efeito colateral de sua truculência. A perseguição à Lava Jato poderá levar Moro a disputar com o ex-chefe a narrativa do combate à corrupção, acirrando a concorrência no campo da direita nas eleições de 2022.”

Stockmann:

“Pois tudo que quero dizer é que a unanimidade [será que Nelson Rodrigues deu uma bebericada aqui?], a massa – enfim, essa satânica e compacta maioria –, é ela, ouçam com atenção, quem envenena as fontes de nossa vida e empesta o solo em que nos movemos”.

Mais um:

“A questão aí é qual o jogo real de Aras, devoto da cartilha do presidente da República que o escolheu fora da tradicional lista tríplice da classe.”

Stockmann:

“Sejam razoáveis! Será que não poderão ouvir uma verdade, pelo menos uma vez na vida, sem que isso vos enfureça?”

Vejam a platitude:

“Augusto Aras poderia dar uma contribuição importante para serenar os ânimos. Bastaria anunciar publicamente que se recusa a admitir ou aceitar qualquer indicação para o Supremo Tribunal Federal. E, a partir daí, permitir que não se veja em suas atitudes parte de uma campanha para chegar à Corte Suprema.”

Stockmann:

“Somente o pensamento livre, as ideias novas, a capacidade de um pensar diferente do outro, o contraditório, podem contribuir para o progresso material e moral da população.”

Por fim, uma manchete do jornal O Globo, “Senadores pedem investigação de Aras a conselho do MP”:

“Na peça, foram citados episódios polêmicos envolvendo o PGR, como ofensas a colegas em uma reunião virtual do Conselho Superior do Ministério Público, críticas à Lava-Jato e atitudes que tomou para acessar dados sigilosos da operação.”

Stockmann:

“Tudo que eu queria dizer é que me assusta a enorme irresponsabilidade das pessoas que detêm o poder em nossa comunidade. Eu os detesto. Não os suporto! São como cabras que invadem um jardim recém-plantado. Tudo o que sabem fazer é destruir.”

Não desanime, procurador-geral, reflita nas palavras que encerram a peça em 5 atos:

“Ouçam com atenção o que lhes vou dizer: O homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só.”

 

 

 

 

Por Demóstenes Torres, 59 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado. Escreve sempre às quartas-feiras.

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