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Opinião – O Brasil precisa ser o país do ”E” e não do ”OU”

”Brasil tem potencial para se tornar potência em biogás e pede-se pluralidade de fontes por matriz energética mais limpa”, destaca autores

A pandemia de covid-19, que custou e ainda custa uma quantidade enorme de vidas, tem trazido reflexões importantes sobre a preservação do planeta e uma visão mais sustentável e ambientalmente limpa para o desenvolvimento econômico.

Dentro desse escopo, as discussões sobre a transição energética e a eletrificação da economia têm se intensificado, com repercussões em vários segmentos da economia.

Por um lado, o advento da pandemia levou a preocupações em acelerar a transição de abandono de fontes fósseis nas matrizes energéticas. Mas de outro, uma preocupação em gerar emprego e renda dado o significativo impacto na atividade econômica global.

Neste momento de reflexão e de transformações é fundamental que as discussões sobre o pós-pandemia possam ter uma conotação de “E” e não de “OU” de maneira a evitar polarização de debates e clima de nós versus eles. Coisa muito comum no Brasil nos últimos anos. O momento impõe uma ampla reflexão sobre a maneira como produzimos e usufruímos das coisas e a sustentabilidade dos processos produtivos. E essa ampla reflexão deve observar uma maior gama de exemplos mundiais e, em particular, um olhar cuidadoso para as regiões que concentram boa parte da população global e o seu crescimento nos próximos anos e séculos. Estamos falando, em particular, da Ásia e África.

Com relação ao acesso à eletricidade, atualmente 800 milhões de pessoas ainda não têm luz elétrica do total de 7,8 bilhões de habitantes do planeta. No caso da cocção de alimentos por fontes limpas como o GLP e o gás natural, o número é ainda maior. São 2,7 bilhões de pessoas no planeta, todas na Ásia e na África subsaariana, que utilizam carvão ou lenha para cozinhar alimentos, o que causa anualmente a morte de 4,2 milhões de pessoas em função da poluição interna de lares.

O momento é oportuno e pela 1ª vez desde a revolução industrial inglesa, o foco energético é multi-variado. Se o século 19 foi o do carvão, o 20 do petróleo, o 21 é o da pluralidade de fontes e intensidade de investimentos tecnológicos disruptivos em prol de uma matriz energética mais limpa e sustentável, universalizando o acesso à energia.

Dentro deste tema, fala-se muito da transição para uma matriz 100% renovável. Do ponto de vista de tendências, o debate se encaminha para uma discussão de quando e não mais de se. E para tanto, a evolução nas soluções de baterias, de back up, para a expansão de renováveis é fundamental e ocorre no mundo inteiro.

Essa importante discussão sempre precisa caminhar paripassu com a busca por uma tarifa adequada para o consumidor. Porque o nível de renda dos países da OCDE em relação a países emergentes como o Brasil alcança disparidades enormes. A renda per capita do Brasil, por exemplo, é 40 vezes inferior à renda média dos países da OCDE.

Recentemente, o caso dos blackouts na Califórnia tem chamado a atenção dos planejadores em função da busca de uma matriz 100% renovável. E aqui não buscamos criticar o modelo com tom pejorativo. Mas só trazer uma reflexão que foi introduzida recentemente em trabalho seminal do International Gas Union sobre a transição energética e as soluções estado da arte para o processo.

No caso da Califórnia, a tarifa de energia elétrica em condições normais é de US$ 50/MWh. Porém analisando um cenário de matriz 80% renovável com backup de baterias (de Íon-Lítio), a evolução da intermitência e a necessidade de prover back up para desligamentos que possam durar mais do que 4 horas (atualmente 60% dos casos é inferior a 4 horas, porém com maior penetração de renováveis não convencionais, as estimativas mudam) sugerem preços de US$ 400/MWh –que foram alcançados recentemente em função de adversidade climática– e alcançariam US$ 1.600/MWh no cenário de uma matriz 100% renovável com backup por baterias.

E por que isso? Porque mesmo com a evolução tecnológica reduzindo o custo e aumentando a eficiência de baterias, as mais eficientes ainda não conseguem sustentar uma rede por período superior a 4 horas em um dia, com custos crescendo exponencialmente se o número de horas for de 6 ou 8 horas em um dia. A vida útil de uma bateria é de 10 a 12 anos e possui custos de descarte e considerações ambientais não desprezíveis.

O gás natural –a mais limpa das fontes fósseis– cumpre o papel de backup com custo baixo e maior eficiência. Uma planta a ciclo aberto de despacho rápido atinge o pico de capacidade em até 10 minutos e pode ser utilizada como bateria do sistema elétrico 24h/7 dias por muitos anos e com vida útil superior a 20-25 anos, desde que cumprindo cronograma de manutenções.

Em função disso, uma lista significativa de países tem adotado uma visão complementar entre a expansão termelétrica a gás natural (flexível e inflexível) e a expansão renovável, com a lógica que chamamos de “E” e não de “OU”. Em razão disso, projeta-se que o pico de demanda energética do carvão ocorrerá até 2026, mas do gás natural não antes de 2034, com crescimento do seu uso nas diversas modalidades até 2035 (IEA).

O gás natural pode ser uma importante fonte de redução de emissão de partículas na atmosfera, além de gases de efeito estufa (GEE). Pensando em mobilidade, a substituição de frota de veículos a diesel –tanto leves quanto pesados– pelo gás natural (comprimido ou, para maior escala, liquefeito) reduz significativamente a poluição da atmosfera e aumenta a qualidade do ar. A poluição externa (atmosfera) causa 3,7 milhões de mortes por ano. A interna, 4,2 milhões. Portanto debate mais do que oportuno e necessário.

Olhando para o Brasil, achamos que o gás natural pode assumir um protagonismo na matriz energética. E quando falamos de gás estamos nos referindo a todas suas vertentes, incluindo o biogás, cuja produção atual está concentrada na Europa (60%), mas que o Brasil possui a oportunidade de ser o maior país do mundo em produção desse gás verde. É o nosso pré-sal caipira. No mundo, 73% de sua produção está associada à agropecuária. E o Brasil neste campo alimenta mais de 1,5 bilhão de pessoas no planeta.

Portanto, em clima pró-Brasil, de “E” e não “OU”, e levando em consideração que o Brasil continuará sua expansão renovável com muita propriedade e competência, esperamos que o gás natural possa cumprir um papel relevante na nossa transição energética. Com isso, o país poderá retomar uma trajetória de crescimento econômico sem preocupação com suprimento de energia. É sempre bom lembrar que o Brasil já tem 80% de sua matriz baseada em fontes limpas e renováveis. Porém, para poder gerenciar melhor o nível dos reservatórios e dar resiliência e garantia de abastecimento com a expansão da energia eólica e solar, precisamos de usinas térmicas a gás natural flexíveis e inflexíveis. Sem isso, corremos o risco de ter blackouts, em particular no Nordeste, e de ter um custo sistêmico de backup similar ao estudo da Califórnia. Só que o consumidor brasileiro não consegue aguentar aumentos tarifários. E para enfrentar esse problema e outros que possam conduzir o Brasil a ser um protagonista no mundo pós-pandemia, temos de deixar de ser o pais do “OU” e adotarmos definitivamente o “E”.

 

 

 

 

Por Adriano Pires, 62 anos, é sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). Doutor em Economia Industrial pela Universidade Paris XIII (1987), Mestre em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ (1983) e Economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980). Atua há mais de 30 anos na área de energia.

 

Por Bruno Pascon, 38 anos, é sócio-fundador e diretor da CBIE Advisory. Bacharel em Administração de Empresas pela Eaesp-FGV (2005), iniciou sua carreira na Caixa Econômica Federal na área de liquidação e custódia de títulos públicos e privados (2004). Foi analista sênior de relações com investidores da AES Eletropaulo e AES Tietê (2005-2007). De 2007 a 2019 atuou como analista responsável pela cobertura dos setores elétrico e de óleo & gás para a América Latina em diversos bancos de investimento (Citigroup, Barclays Capital e Goldman Sachs).

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