Opinião – Queimada na Amazônia não é o verdadeiro problema

Vista aérea de trecho da floresta amazônica, no Pará: ”pressão populacional é ameaça. Erros passados tornam margem menor”, diz autor ”A Amazônia é nossa e nós vamos desenvolvê-la, afinal de contas lá existem mais de 20 milhões de brasileiros que não podem ficar desamparados”, disse Bolsonaro em pronunciamento semana passada. O presidente, para variar, repete …

23/09/2020 12:50



Vista aérea de trecho da floresta amazônica, no Pará: ”pressão populacional é ameaça. Erros passados tornam margem menor”, diz autor

”A Amazônia é nossa e nós vamos desenvolvê-la, afinal de contas lá existem mais de 20 milhões de brasileiros que não podem ficar desamparados”, disse Bolsonaro em pronunciamento semana passada.

O presidente, para variar, repete uma visão antiga e equivocada, que ecoa o “integrar para não entregar” da ditadura militar. Um lema que deu origem a projetos como a Transamazônica, a Zona Franca de Manaus e a regularização de terras ocupadas, selando o destino da floresta, como veremos.

Mas, o leitor deve se perguntar, que mal há em querer desenvolver a região? Afinal, como escreveu o jornalista Leandro Narloch em artigo no Wall Street Journal, os índios e demais habitantes também deveriam ter direito à prosperidade dos smartphones e SUVs. Parece sensato, não?

Não. O erro fundamental sobre a Amazônia decorre do desconhecimento do chamado princípio da atratividade, proposto por Jay Forrester, um dos ícones do pensamento sistêmico do século passado.

O que diz o princípio? Toda cidade ou região tem fatores de atração e de repulsão que mudam com o tempo e, no seu conjunto, produzem uma espécie de grau de atratividade do local.

Se a floresta podia ser em algum grau inóspita, com o empurrãozinho de medidas erradas ela passou a oferecer perspectiva de renda e de acesso, mesmo que irregular, a terras. A coisa ficou ainda mais atrativa ao se colocar na equação a incapacidade do Estado brasileiro, na prática, de lidar com a extrema velocidade das redes de atividades ilegais, como o contrabando de mercúrio, o garimpo e o próprio desmatamento.

Os 23 milhões de habitantes da Amazônia de hoje eram 16 milhões em 1990 e 7 milhões na década de 1970. É um lugar mais pobre, na média, que o Brasil, mas nunca deixou de atrair gente que precisa, desesperadamente, sobreviver. Desde meados do século passado, a população na região vem crescendo mais rápido do que a média do país e a migração de outras regiões tem sido essencial nessa dinâmica.

Mais gente, por sua vez, demandou cada vez mais comida, mais material de construção, mais estradas para transporte de mercadorias. Mais gente tombando ou queimando árvore significou também a possibilidade de produzir para fora do território –a pecuária, a soja, o ouro e outros recursos rapidamente se integraram a diversos mercados dentro e fora do país. Finalmente, mais gente que veio de fora e achou sua subsistência sinalizou sucesso e reforçou ainda mais o ímã populacional. Princípio de atratividade na veia.

O governo Bolsonaro também vem dando sua forcinha. Como reconheceu o vice-presidente Hamilton Mourão em entrevista ao Poder em Foco, a expectativa de reconhecimento de terras sem documentação pode ter colaborado para o aumento recente do desmatamento.

O verdadeiro problema é, em resumo, a crescente pressão demográfica sobre os recursos amazônicos. Queimada é só sintoma. A resultante é clara: a floresta vem ficando, ano a ano, cada vez mais pelada. Já desmatamos algo como 20% dela e um pouco mais de desaforo ambiental já pode ser o suficiente para desencadear um processo sem volta nos próximos anos.

SUVS

Entenda bem: a floresta devolve para a atmosfera a umidade que dela recebe. Com cada vez menos árvores, a umidade começa a não voltar plenamente e o ciclo se quebra. O aquecimento global ainda acelera esse processo de ruptura. Estamos literalmente brincando com fogo.

Com o equivocado diagnóstico do problema e com políticas inadequadas, tudo caminha para que o mar verde se transforme em savana em uma ou duas décadas, com consequências terríveis para o clima e a agricultura do país.  Orgulhosos de nossa soberania, seremos párias em um mundo que está entrando em ponto de fervura.

Infelizmente, o que fizemos de errado no passado estrangula o espaço do que dá para fazer agora. Veja-se, por exemplo, que, replicando a mesma visão equivocada sobre a região, o Congresso prorrogou há pouco tempo os incentivos da Zona Franca de Manaus até o longínquo ano de 2073.

Não me entenda mal: a população da Amazônia precisa de políticas públicas para ter um mínimo de bem-estar. Projetos de biotecnologia, entre outros, são importantes, mas tendem a ter um impacto pequeno a essa altura do campeonato. É necessário também redesenhar os mecanismos de atuação do Estado, especialmente no combate às redes criminosas.

Mas é preciso, acima de tudo, compreender o princípio da atratividade e fortelecer o ímã de outras regiões para evitar que continuem empurrando migrantes para o norte do país. E a última coisa que você deveria querer em uma nação com milhões de desempregados (e 52 milhões vivendo na pobreza) é ver gente na Amazônia exibindo reluzentes SUVs.

No frigir dos ovos, um dos melhores indicadores de sucesso deveria ser, paradoxalmente, a queda ou estabilização do número de habitantes na região. No caminho em que estamos, as pessoas acabarão saindo à força e muito mais pobres. Em menos tempo do que se imagina.

 

 

 

 

Por Hamilton Carvalho, 48 anos, estuda problemas sociais complexos. É auditor tributário no estado de São Paulo, doutor e mestre em Administração pela FEA-USP, ex-diretor da Associação Internacional de Marketing Social, membro da System Dynamics Society e da Behavioral Science & Policy Association. É filiado à Rede Sustentabilidade.