Opinião – Fruticultura sustentável do Nordeste

“O uso de agrotóxicos seletivos (…) não afeta as abelhas polinizadoras. Cultura é realidade no Nordeste do Brasil e agronomia e ecologia se unem”, diz Graziano Melão não vinga sem o trabalho das abelhas polinizadoras. E nenhuma lavoura protege mais o solo que a banana. Na fruticultura irrigada do Nordeste, alta tecnologia está se unindo …

01/10/2020 00:17



“O uso de agrotóxicos seletivos (…) não afeta as abelhas polinizadoras. Cultura é realidade no Nordeste do Brasil e agronomia e ecologia se unem”, diz Graziano

Melão não vinga sem o trabalho das abelhas polinizadoras. E nenhuma lavoura protege mais o solo que a banana. Na fruticultura irrigada do Nordeste, alta tecnologia está se unindo à proteção ambiental.

Este ensinamento recolhi da visita que realizei, semana passada, a dois exemplares produtores de frutas do Ceará. Ambos são líderes em seus ramos de negócio. Ambos também investem aceleradamente na agricultura biológica. É surpreendente.

Vamos primeiro ao caso do melão. A Agrícola Famosa é a maior produtora dessa fruta, não apenas do Brasil, mas do mundo. Colhe ao redor de 1 milhão de melões por dia. Cerca de 65% da colheita se destina ao mercado externo, principalmente Europa (Inglaterra e Alemanha), Argentina e Chile. Em outubro iniciará as vendas para a China.

Implantada há 25 anos, as fazendas da Agrícola se expandem perto do litoral, na divisa entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Aproveitam ali, no bioma típico de caatinga, uma mancha de terra fértil, com dois aquíferos acessíveis através de poços profundos.

Água, não necessariamente chuva. Reside na irrigação o segredo da fruticultura em regiões áridas. Todos os 8 mil hectares cultivados com melão da Agrícola Famosa são molhados, apenas na leira de plantio, por canos enterrados, de onde saem os invisíveis gotejadores controlados por pressão. Perda zero.

Métodos culturais e biológicos complementam o controle químico de pragas
As linhas de plantio são cobertas com plásticos finos, para impedir o crescimento de ervas daninhas, evitando uso de herbicidas

A instalação das lavouras segue ritmo semanal, frenético, pois o melão tem ciclo curto. Parece uma horta gigante. Após plantado, em 60 dias chega a colheita. As mudas recebem 8 toneladas de matéria orgânica por hectare, um rico composto produzido pela própria fazenda. Na fertirrigação se complementa a nutrição mineral das plantas.

Quando chega a florada entram em ação as abelhas melíferas. Sem elas, visitando as amarelas florzinhas atrás do pólen, o melão simplesmente não frutifica. O exército alado da Agrícola Famosa é constituído –pasmem– por 6 mil colmeias, distribuídas na bordadura da caatinga na base de quatro caixas por hectare de fruta.

Considerando-se 50 mil insetos por colmeia, somam 300 milhões de abelhas que acordam de madrugada e encerram seu expediente por volta das 9 horas da manhã. Ocorre que o sol forte leva ao fechamento das flores do melão, hábito vegetal típico das cucurbitáceas, que inclui abóboras e melancias.

Essa rotina dos agentes polinizadores é determinante no sistema de controle de pragas. A pulverização de inseticidas químicos ocorre ao final do dia e à noite pois, senão, mataria as operárias-abelhas. Em média, aplica-se semanalmente uma pulverização com fungicidas (contra os fungos oídio e míldio) e duas com inseticidas, objetivando-se controlar, principalmente, as terríveis larva minadora e mosca branca. Significam entre 15 a 18 pulverizações de defensivos químicos no ciclo de produção.

O uso de agrotóxicos seletivos, indicados pelos engenheiros agrônomos, não afeta as abelhas polinizadoras. Métodos culturais e biológicos complementam o controle químico de pragas. As linhas de plantio são cobertas com plásticos finos, para impedir o crescimento de ervas daninhas, evitando uso de herbicidas. E as plantículas de melão, nas primeiras semanas de vida, são protegidas por uma tela suspensa que impede o ataque de insetos. Ajudam também a segurar a evapotranspiração.

No controle biológico de pragas, a Agrícola Famosa conta com o apoio de uma startup cujos laboratórios –uma verdadeira biofábrica– instalados dentro da fazenda. Eles produzem os agentes vivos protetores de sua lavoura de melões. Entre eles, se destacam os seguintes organismos úteis:

a) Bacillus subtilis, utilizado contra doenças fúngicas;

b) Bacillus thuringiensis e o parasitoide Trichogramma galloi, utilizados contra lagartas;

c) Cromobacterium subtsugae e Beauveria bassiana, para controle de mosca branca e ácaros;

d) Saccharopolyspora spinosa e Neocrhysocaris formosa, contra a larva minadora.

Para melhoria do solo, enraizamento e consequente vigor dos meloeiros é ainda utilizado o Azospirillum brasilense; já o Trichoderma se aplica contra doenças de solo e controle de nematoides. Não se trata de conversa para enganar freguês: a agricultura com práticas biológicas é uma realidade visível, indicando um caminho para o futuro.

Para terminar minha visita, fui conferir a criação de gado da Agrícola Famosa. Sim, isso mesmo. É incrível. Eles praticam a economia circular: os melões pequenos e tortuosos, fora de padrão, descartados pelo mercado, viram ração no cocho dos animais: proteína, calorias e nutrientes, que seriam jogados fora, alimentam e engordam 4 mil bovinos. Melão vira carne.

Assim se entende, facilmente, porque a produção da Agrícola Famosa recebe duas certificações rigorosas: a do Globalgap, que estabelece regras de boas práticas agrícolas e a da RainForest Alliance, que exige manejo ecológico da lavoura e seu entorno. Sem tais certificações de qualidade, as frutas não entram no mercado europeu.

Para finalizar, o emprego. As lavouras e demais atividades da Agrícola Famosa contratam atualmente cerca de 8 mil pessoas, durante a maior parte do ano. Milhares de famílias residentes nos municípios de Tibau (RN) e Icapuí (CE) vivem e progridem graças à fruticultura irrigada. Reclamações trabalhistas: poucas, entre 3 a 4 por ano. Profissionalismo total.

Passei 6 horas conhecendo, e espiculando, como um auditor, a Agrícola Famosa. Visitei as estufas onde germinam as sementes e se preparam as mudas. Vi onde se elabora a compostagem e caminhei sobre as pilhas de material reciclado. Conheci o sistema de irrigação e li os relatórios sobre salinização e recarga dos aquíferos. Acompanhei a colheita de um talhão e subi no packing house até ver as frutas serem embaladas e seguirem para os contêineres. Escrevo sobre o que testemunhei.

A convivência dos melões com as abelhas simboliza o maior aprendizado técnico que recolhi em minha viagem. Uma prova concreta de que a fruticultura sustentável já uma realidade no Nordeste do Brasil. A expansão das biofábricas irá coroar esse modelo único de fruticultura tropical.

Feliz casamento da agronomia com a ecologia.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano