Opinião – Uma rosa em minha mão

”Muitos jovens juristas de hoje são ‘vassouras do salão da sociedade’ e, talvez, jamais virão a compreender o início da “Rosa”, diz Demóstenes Torres

02/10/2020 12:24



1ª vez: Mãe solteira deu filho à família
Criança era fruto de uma mãe solteira
2ª vez: Mãe obrigada a dar o filho
Depois, este filho a desprezava

Houve uma época em que vivíamos em frente à televisão. Uma das maiores diversões do brasileiro era assistir novelas. Acabava uma e estávamos lá, prontos, para ver a outra. Foi assim que, em 1974, logo após o término de “O Semideus”, começou “Fogo Sobre Terra”. Eu tinha 13 anos e sempre gostei muito de música, a ponto de, aos domingos, ficar ouvindo no rádio o “Projeto Minerva”, obra do Ministério da Educação em conjunto com fundações de ensino, destinada à formação de adultos. Era transmitida, em rede nacional, visando à preparação de alunos para os exames supletivos de Capacitação Ginasial e Madureza Ginasial.

Era uma tentativa pioneira de ensino à distância como uma solução a curto prazo para os problemas do desenvolvimento do país, que tinha como cenário um período de crescimento econômico e queria ter mão de obra qualificada. Foi um retumbante fracasso, pois 77% dos inscritos não conseguiram obter o diploma. No primeiro dia da semana, o programa começava com esta vinheta: “Domingo pelo Minerva, é música popular”. E lá vinha a história de compositores, cantores, instrumentistas e arranjadores, acompanhada de trilha sonora inigualável. Deleite puro.

Quando se anunciou que um dos diretores da novela, escrita por Janete Clair, seria o “Poetinha”, Vinicius de Moraes, se aguardou canções soberbas. E assim se deu; metade delas era composta por ele e Toquinho, e a outra por Ruy Mauriti e seus parceiros.

Teve um elenco estrelar: Juca de Oliveira, Regina Duarte, Dina Sfat, Jardel Filho, Neuza Amaral, Jayme Barcellos e Fúlvio Stefanini nos papéis principais. Sofreu censura ferrenha e intervenção por parte da ditadura militar. Escrita em 1973, a trama foi liberada para exibição apenas no ano seguinte. Lançada na época em que o governo planejava a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, os censores temiam que a novela gerasse uma revolta popular contra a construção da obra, pois a trama, história de dois irmãos separados aos 3 anos de idade pela morte dos pais num acidente de avião, era uma disputa entre eles. Foram criados em ambientes distintos e lutavam pela mesma mulher e pelo destino da cidadezinha onde o rude cresceu e que o sofisticado queria destruir para se fazer justamente uma hidrelétrica.

A mais bonita das canções era “Uma Rosa Em Minha Mão”. Toquinho compôs uma melodia, Vinícius escreveu a letra. A canção virou trilha da personagem Chica Martins, a disputada pelos irmãos, que cresceu sonhando em ficar rica e se mudar para a cidade grande: “Quem me dera encontrar/Ter meu céu, ter meu mar/Ter meu chão/Ver meu campo florir/E uma rosa se abrir na minha mão”.

A melodia dessa música foi usada, depois da morte de Vinicius, por Toquinho, para construir, juntamente com os italianos Maurizio Fabrizio e Guido Moura, o “Acquarello”, que rapidamente se tornou um fenômeno mundial. Vertida para o português, “Aquarela” se tornou o maior sucesso da carreira do parceiro do poeta.

Em duas ocasiões, vi a força do destino fazer com que essa rosa se abrisse em minha mão. Uma delas aconteceu dentro da minha própria casa; milhares de pessoas no Brasil foram morar em lares que não eram os seus porque sua sorte, naquele momento, lhe era mesquinha.

Não me lembro se em 1965 ou 1966, minha irmã, Bia, que era funcionária pública, voltou do serviço com uma novidade. Em frente ao Posto de Saúde (assim se chamava naquela época), na Rua 4, no Centro de Goiânia, uma mulher a abordou, no ponto de ônibus, e perguntou-lhe se poderia segurar seu filho um pouco enquanto ela fosse “lá dentro” buscar um remédio. Ela disse que sim e aguardou por mais de 1 hora o retorno da mãe da criança. Aí resolveu olhar em volta do local e no interior da unidade médica. Nada encontrou. Ficou apavorada e decidiu ir para casa, levando-a nos braços.

Minha mãe, com uma bondade infinita no coração, logo se encantou com o menino. Eu, que tinha 4 ou 5 anos, e meu irmão mais novo aguardávamos com curiosidade onde aquilo iria dar. Meu pai examinou o visitante, que trajava camiseta, sandália franciscana e short de algodão e verificou que ele tinha algo num bolso traseiro. Era uma certidão de nascimento. “Ela é mãe solteira, Bia; te deu essa criança”, concluiu. Meu irmão mais velho, que era estudante de Direito à época, pediu um pouco de paciência a todos para que ele pudesse no dia seguinte fazer uma busca em hospitais, no próprio Posto de Saúde, delegacias, necrotério, a fim de encontrar uma pista da desditosa e evitar qualquer espécie de acusação de sequestro.

Não encontrando nada, a família se reuniu novamente para decidir o destino de “Xandeco”, apelido que meu pai já lhe pusera. E não era qualquer família, meus genitores eram pais de 12 filhos, 2 morreram crianças por doenças típicas da época, sarampo e difteria (não existiam, ainda, as vacinas). Algum dos meus irmãos mais velhos ponderou que criar uma criança estranha poderia trazer dificuldades. Seu Avelomar, chefe da família, cortou logo o assunto: “Onde comem 10, comem 11”. Dona Luzia bateu o martelo: “Se Deus mandou ele pra mim, é um presente. Vai ficar comigo”.

Ele se tornou um modelo de dedicação, obediência e bem querer. Muito apegado a minha mãe, era, de longe, o filho que ela mais gostava (os pais dizem que não, mas em famílias grandes, sempre há um predileto). Quando inteirou 18 anos, encasquetou de conhecer a mãe verdadeira. Escrevia cartas para programas de rádio e televisão. Ficamos sabendo porque meu pai ouvia e assistia a vários deles. Foi uma fase difícil. Apanhávamos a velha senhora pelos cantos choramingando, até que ele finalmente encontrou o que buscava. Desse minuto em diante, tudo para ele passou a ser a excepcional Dona Luzia.

A adoção à brasileira ou os “filhos de criação” era uma resposta daqueles generosos, que, em meio às maiores dificuldades, encontravam a obstinação necessária para exercer e entregar seu amor.

A segunda vez que essa flor se abriu na minha mão foi num sentido oposto. Eu era Promotor de Justiça de primeira entrância e claro que conhecia o destino de várias mulheres desvirginadas antes do casamento e que acabavam abastecendo os bordéis, postas para fora de suas casas por seus pais, num claro retrato da servidão humana.

Isso quando não redundava em crime de sangue, pois familiares se dispunham a reparar a honra da ofendida a ferro e fogo. Caso público é o do irmão da operária Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, no interior de Minas Gerais, que matou o namorado dela. Primeiro, ela foi para Belo Horizonte cantar boleros; posteriormente, para o Rio de Janeiro e, com o nome de Clara Nunes, se tornou uma das mais exímias cantoras do país: a primeira mulher a vender mais de 100 mil cópias de um único disco.

Contaram-me, na cidadezinha em que eu vivia, a história de uma mulher, ainda mais aterrorizante. Ela “se perdera” (como os locais diziam) e ficou grávida. Sofrendo as humilhações mais indizíveis, atravessou a gestação e, no parto, o pai dela recolheu o recém-nascido e o “deu” para alguém “criá-lo” numa fazenda. Com urros operísticos, a mãe viu seu pequenino ir embora.

Conheci-a, casada e mãe de outros 3 filhos. Nada me impressionou mais, por muitos anos, que seus olhos. Tinha o olhar mais triste do mundo, um cenho franzido que não admitia qualquer manifestação de alegria. Era visível sua irrecuperável depressão. Para piorar, o filho lhe retirado a desprezava. Considerava-a uma vagabunda. Eu, sozinho, faço uma festa, pois respondia aos meus gracejos monossilabicamente. Não estava para conversas. Era amada pelo marido e pelos demais filhos, mas não pelo que lhe interessava, até que Deus a “carregou feito um pacote no seu manto”.

Muitos jovens juristas de hoje são “vassouras do salão da sociedade” e, talvez, jamais virão a compreender o início da “Rosa” que, propositalmente pus no fim: “Procurei um lugar/Com meu céu e meu mar/Não achei/Procurei o meu par/Só desgosto e pesar/Encontrei”. Que a terra nos seja leve.

 

 

 

 

Por Demóstenes Torres, 59 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.