Opinião – Com o novo nome do STF, restou jogar o Mito contra o Mito

“O Pelé de hoje usaria toga, em vez de balançar as redes. O perfil do desembargador Kassio Nunes Marques, pelo estrepitoso silêncio de sua biografia pública, fala por si. E fala bem. Ele não balança as redes!”, diz Mario Rosa

12/10/2020 13:18



”Perfil de Kassio Marques fala por si
Tem história, marcada por posicionamentos”

Pelé atuando na seleção brasileira anos 70 serviu de comparativo para o autor

Sejamos bem diretos: como a turma que quer manter o Judiciário mais parecido com um hospício não tem nada o que dizer contra a indicação do desembargador Kassio Marques para uma vaga ao Supremo Tribunal Federal, restou então atacar o Mito pela iniciativa. E qual a crítica? O Mito não estaria sendo o Mito! Ora, justamente os que odeiam o Mito porque ele está botando ordem no hospício levantam a fraudulenta e, por que não dizer, esquizofrênica crítica de que o Mito deveria fazer isso ou aquilo.

Senhoras e senhores mentecaptos, o que queriam mesmo era colocar fogo no circo. Quer dizer, no Supremo. E o Mito não é doido não. Nem vocês estão preocupados com ele.

O novo indicado, que poderia ou não sobreviver naquelas primeiras horas ao processo de trucidamento político, já tem de cara a maior de todas as virtudes de um magistrado nos dias de hoje: o perfil! Ninguém nunca tinha ouvido falar dele até a indicação. Não é pouca coisa, nos tempos estranhos em que vivemos e que o Mito vem ajudando a colocar em ordem.

Tempos em que magistrados se tornaram celebridades e jogadores de futebol, completos desconhecidos. Não era pra ser o contrário? Claro que sim! E a volta à normalidade é fundamental e começa por juízes que apareçam… nos autos! O Pelé de hoje usaria toga, em vez de balançar as redes. O perfil do desembargador Kassio Marques, pelo estrepitoso silêncio de sua biografia pública, fala por si. E fala bem. Ele não balança as redes!

A turma que pretende manter o levante da enfermaria e os pacientes do hospício em eterno estado de motim apontam o dedo para outro “grave” defeito do indicado: ele seria um nome do “Centrão”, essa entidade malévola, o sindicato dos políticos profissionais, o belzebu de Brasília. Doidinhos e doidinhas, menos né? O desembargador foi indicado pelo governo Dilma, é amigo do governador petista Wellington Dias –o que poderia ser usado para carimbá-lo também como “petista”. Mas o mais importante nessa superficial, artificial e colateral polêmica é que alguém que é acusado de ser ao mesmo tempo um fantoche da direita e da esquerda é porque provavelmente não é de ninguém.

E mais: o indicado deve ser avaliado por sua produção como magistrado. E essa é outra vantagem da indicação. E falo aqui não da criatura, da pessoa, mas do perfil. Ele tem história. Teve de se posicionar sobre uma miríade de temas. Melhor candidato do que um com tal perfil? Alguém que pode ser objetivamente escrutinado? A grande e dolorosa realidade é que a escolha do novo ministro do STF –seja quem for– faz parte de algo muito maior, neste momento da história brasileira. E muito mais importante do que o nome a ser efetivado: se o Brasil deu um salto civilizatório ao combater o abuso de poder da corrupção sistêmica, cujo símbolo máximo foi a Lava Jato, o combate ao abuso do poder dos agentes do Estado não foi e nem é menos importante.

Existe uma e apenas uma única pauta realmente relevante do ponto de vista histórico e institucional nos nossos tempos: como conciliar o imprescindível combate à corrupção sem descambar para o execrável excesso e desmando na aplicação do poder de coerção. Não existe contradição –e é essa a questão que a enfermaria do hospício insiste em querer misturar– entre combater o abuso de poder da corrupção sistêmica e o abuso de poder dos que combatem a corrupção sistêmica. Os dois têm que ser combatidos. Por quê? Porque são abusos de poder. E o perfil do indicado para o STF? Fala por si: não esteve nas manchetes, não deu entrevistas, não é famoso. Ou seja, não participou de justiçamentos midiático-judiciais. O hospício precisa voltar a ser dirigido pelos médicos e não pelos pacientes.

Mito, os doidos não são da sua turma. E nunca vão ser. “Mitotril” neles!

 

 

 

 

Por Mario Rosa, 55 anos, é jornalista, escritor, autor de cinco livros e consultor de comunicação, especializado em gerenciamento de crises.