Opinião – O triste fim de um candidato sincero

”Campanhas privilegiam marketing. Programa genérico traz mais votos”, afirma Brito

19/10/2020 13:57



Discurso do candidato sincero não foi reproduzido em nenhum dos 5.570 municípios

”Bom dia, amigas e amigos.

Sou candidato, quero e preciso do voto de todos.

E para ajudar na decisão de vocês, antecipo aqui algumas coisas que penso, algumas coisas que gostaria de fazer se eleito.

Primeiro, eu acredito na política. Apesar da moda contra, a política segue sendo a única forma, na minha opinião, de mediar os conflitos naturais em nossa cidade, promover o diálogo e construir acordos e soluções. Então, o primeiro papel do prefeito tem que ser conversar e conversar muito com a população, claro, mas também com os vereadores, com os outros poderes. Acho que dá para fazer isso sem cair na corrupção que todos detestamos.

Segundo, eu não acredito em soluções simples. Sabem por que? Porque os problemas da cidade são muito antigos e complicados. E porque não existem recursos para fazer tudo ao mesmo tempo –prestigiar o funcionalismo, avançar na infraestrutura e, mais importante que tudo, melhorar saúde, educação, segurança.

Eu disse melhorar e não chegar ao ideal porque nenhum problema será resolvido em menos de três ou quatro diferentes mandatos, muito a fazer em pouco tempo e sem recursos.

Terceiro, e fundamental: as soluções além de não serem simples necessariamente vão custar algo para alguém. Se a população, por exemplo, não quiser corte nas despesas e nos privilégios de alguns funcionários, precisa concordar com aumento de impostos. Se não quiser aumento de impostos nem corte de despesas, precisa examinar a possibilidade de concessões e privatizações. E se não quiser nada disso, tem que concordar que só ser eficiente na arrecadação e na gestão não basta.

Um famoso político inglês, em tempos de guerra, falou em sangue, sofrimento, suor e lágrimas. Não vamos ser dramáticos, mas a nossa guerra contra o atraso, a miséria, a pobreza da prefeitura e, pior, a dos moradores vai exigir, ao menos, muito suor e algum sofrimento.

Gostaria que vocês aceitassem meu convite, apoiassem essa proposta. Mas prefiro que saibam antes de votar o que terão de ouvir de mim ou de qualquer candidato quando for eleito e cair na realidade. Pesquisem um pouco –quem promete soluções simples geralmente é o mesmo pessoal que eleito denuncia “herança maldita” , diz que “está de mãos amarradas”, “infelizmente não posso fazer mais”.

Então, eu estou simplesmente dizendo durante a campanha para não precisar dizer depois de eleito.”

Nota complementar: o texto acima não foi ao ar em nenhum programa de propaganda eleitoral dos 5.570 municípios brasileiros. O candidato, autor do discurso, foi denunciado como “suicida político” pela equipe de marketing do seu programa, acusado de traidor pelos candidatos a vereador e, a pedido do partido, teve cancelado seu registro para disputar as eleições.

O novo candidato, para economizar tempo, decidiu praticar a utilização de “acervo doutrinário comum” –moda entre altas autoridades do país– e autorizou o pessoal de marketing a fazer um “melhores momentos” de propostas que sejam simples, gerem otimismo e garantam votos. As primeiras pesquisas indicam que a estratégia está dando certo, a exemplo do que acontece em boa parte das principais cidades brasileiras.

 

 

 

 

Por Antônio Britto Filho, 68 anos, é jornalista, executivo e político brasileiro. Foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Estado do Rio Grande do Sul.