Opinião – Feijão transgênico será uma benção

“O início do plantio do feijão transgênico da Embrapa dá uma sinuca de bico nos obscurantistas que se apõem ao avanço da biotecnologia. É claro que eles se manifestarão, dirão que são contra, que isso é um absurdo, aquela conhecida conversa negativa. Mas, quais argumentos agora utilizarão?”, questiona Xico Graziano

28/10/2020 13:55



Não se difere do feijão convencional
Produtividade nas lavouras aumenta

Feijão é item fundamental na alimentação básica: ‘carioquinha’ (na foto) o mais consumido no país

Aleluia. Finalmente, após 15 anos de pesquisa, o feijão transgênico da Embrapa começa a ser cultivado no Brasil. Vai aumentar a produtividade das lavouras com redução do uso de agrotóxicos. Uma verdadeira maravilha da agronomia nacional.

Cerca de 90 toneladas de sementes da cultivar Carioca BRS FC401 RMD estão sendo lançadas ao solo pelos agricultores, exatamente neste momento em que as chuvas voltaram a cair sobre todo o país. Espera-se o plantio de 1.500 hectares nesta safra de verão. É pouco, apenas um cisco, comparado com a área total, de 3 milhões de hectares plantados, esperados na safra 2020/2021. Mas é um começo.

A tecnologia transgênica foi denominada RMD, um acrônimo da “resistência ao mosaico-dourado”. Trata-se, o mosaico-dourado, da mais terrível virose que arrasa, há décadas, as plantações de feijão do país. Transmitida por um inseto –a mosca branca– a doença exige um mínimo de 5 pulverizações de inseticidas para seu controle. Algumas situações graves registram 20 aplicações.

Mesmo assim, o controle obtido é parcial. Historicamente, nas lavouras de feijão infectadas, as perdas causadas pelo mosaico-dourado giram em torno de 40% da produção. No total do Brasil, considerando as 3 safras existentes, estima-se uma perda anual de 300 mil toneladas de feijão. Daria para alimentar perto de 15 milhões de pessoas.

Nos testes de campo realizados pela Embrapa, Unidade Arroz e Feijão, preparatórios para o lançamento comercial, a produtividade média da cultivar Carioca RMD foi 18,3% superior às variedades convencionais. E, nos experimentos realizados em áreas de elevada incidência do mosaico-dourado, a lucratividade do feijão transgênico foi 78% superior. É incrível.

A redução no uso de agrotóxicos nas lavouras de feijão, sem comprometimento da safra colhida, será uma benção, não apenas aos agricultores, na maioria pequenos, como também ao meio ambiente. Menos defensivos químicos, maior produção. O feijão transgênico da Embrapa é um bom caso de “ganha-ganha”.

Para as famílias que o apreciam, nada mudará. O feijão transgênico não se difere do feijão convencional. Tudo é idêntico: a aparência da planta, o formato dos grãos, a composição nutricional e o sabor. Para fins de rotulagem, obrigatória, a Embrapa já disponibilizou o método para a detecção do evento transgênico. Garante, assim, o direito do consumidor.

A crítica contumaz aos organismos geneticamente modificados (OGMs) se assenta em 3 pontos:

  1. Trata-se de uma tecnologia que interessa às grandes empresas multinacionais, para assim exercerem seu controle sobre os agricultores, ferindo a autonomia nacional;
  2. Variedades transgênicas importam apenas ao agronegócio de grande escala, tipicamente relacionado ao mercado externo das commodities;
  3. Lavouras transgênicas apresentam elevado custo de implantação, favorecendo os grandes produtores rurais em detrimento dos agricultores familiares.

O feijão transgênico da Embrapa derruba todos esses senões. Trata-se de: a) uma tecnologia nacional; b) desenvolvida por uma empresa pública; c) para uma lavoura de pequenos agricultores; d) do alimento mais querido do povo brasileiro. Sensacional.

O início do plantio do feijão transgênico da Embrapa dá uma sinuca de bico nos obscurantistas que se apõem ao avanço da biotecnologia. É claro que eles se manifestarão, dirão que são contra, que isso é um absurdo, aquela conhecida conversa negativa. Mas, quais argumentos agora utilizarão? Ou, tão somente, repetirão o mantra de que, sendo OGM, é do mal?

Prevê-se, também, uma oportunista aliança entre os ambientalistas retrógrados e alguns comerciantes da cadeia produtiva do feijão que, interessados em manter seus negócios, com reservas de mercado, dirão que o lançamento é inoportuno. Atenção, jornalistas, fiquem espertos.

Ocorre que o feijão RMD permitirá que produtores de certas regiões, especialmente em Goiás, Minas Gerais, Oeste da Bahia e São Paulo, hoje restritivas devido à elevada incidência do mosaico-dourado, passem a produzir o grão. Haverá maior concorrência no mercado tradicional. Fingindo-se de cordeiros, alguns lobos chiarão.

Faz parte do cenário traçado pelos pesquisadores. O feijão RMD, o transgênico verde-amarelo da Embrapa, chegou para quebrar paradigmas.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano