Opinião – O bate-boca da vacina é uma genial anestesia política

“Você acha sinceramente que, se a China ou qualquer outro lugar desenvolver uma vacina que cure a pandemia, o Mito vai ser louco de provocar um genocídio só para não dar o braço a torcer para o governador João Doria?”, questiona Mario Rosa

04/11/2020 13:02



Bolsonaro e Doria estão em guerra
Atritos não produzem efeito imediato
Política: é de praxe escolher adversário

Ah, não! O bajulador-geral da República inventou um lado genial (?) na controvérsia (?) entre o Mito e o governador João Doria sobre a vacina chinesa para imunizar o coronavírus? Não existe mais limite para a sabujice não?

Prezado leitor, prezada leitora, o limite que não existe é para a miopia na leitura dos fatos políticos. Quando um presidente da República (qualquer um) e um governador de São Paulo (qualquer um) resolvem polarizar em torno de um tema (qualquer um), o que menos importa é o tema, ora bolas! Importante mesmo é o movimento de ambos, o jogo, a coreografia. E esse detalhezinho –fundamental– ficou perdido no meio do detalhezinho acessório, a “vacina”.

Pegue o copo aí: vamos desenhar?

Querido, Querida, como dizia a saudosa Presidenta, você acha sinceramente que, se a China ou qualquer outro lugar desenvolver uma vacina que cure a pandemia, o Mito vai ser louco de provocar um genocídio só para não dar o braço a torcer para o governador João Doria? E, de outro lado, o “fofo” do governador se estivesse do outro lado –“descentralizador e pouco vaidoso” como ele é –iria permitir que um ministro da Saúde seu levantasse a bola para um adversário político? Nos poupem né? Na prática, o bate-boca de ambos não produz nenhum efeito objetivo imediato –além de manchetes e super exposição da dupla. Afinal, nenhuma vacina foi ainda reconhecida oficialmente como a cura para o coronavírus.

Enquanto isso, bem, enquanto isso… Vamos olhar um pouco melhor a jogada? Na política, tão importante quanto escolher os aliados –diria mais, até mais importante– é escolher o adversário. E ao injetar no sistema político a dose de anti-Doria, o Mito escolheu deliberadamente com quem polarizar. Isso tem duas consequências práticas, que vão muito além da pandemia.

A primeira é que uma polarização da “direita” esmaga o espaço da esquerda. E, de certa forma, coloca o bolsonarismo versus o tucanato no velho jogo do PT/PSDB. Com o PT fora, no caso. E o PSDB entra com toda a herança da Lava Jato, da velha política, etc, etc. É uma especie de PT, só que com maquiagem. Perfeito para virar saco de pancada da “cruzada” mitológica.

Em segundo lugar, Doria forte talvez, digo talvez, é mais do mesmo. Sérgio Moro não. Talvez isso fosse novidade. E tudo que políticos odeiam é disputar com o desconhecido. Então, “nomear” Doria como o “adversário oficial do regime” não é nenhum ato tresloucado. É cálculo. Se vai dar certo ou não, bem, pergunte a Deus ou ao ex-presidente Fernando Henrique, não necessariamente nesta ordem. Mas o bate-boca da vacina, por esse ângulo, é uma injeção de anestesia no sistema político, pois antecipa ou busca antecipar uma polarização entre o Mito e o seu inimigo favorito. PT e PSDB não brincaram disso durante 20 anos? O Mito, com todo o respeito, está fazendo igual à China: se você não consegue fazer melhor, copie.

E o governador Doria? Pra ele é ótimo também. Ser ungido adversário oficial do regime é uma comenda e tanto! Lula já a ostentou.

Collor ganhou a presidência por isso. Ulysses Guimarães era a oposição dentro de “certos limites”. Todos perderam enquanto foi necessário e ganharam quando foi possível. Dória ocupa um lugar que poderia ser de Moro ou de alguém da esquerda. Bom pra ele, bom por Mito. E a vacina? Ora, um detalhe. Quando ficar pronta e comprovada, seja qual for, vai ser utilizada. Mesmo a “vacina chinesa do Doria”. E isso não pode mostrar que o Mito coloca a saúde dos brasileiros acima das diferenças políticas? É ruim no final da história? E isso vai render prestígio para Dpria e sua vacina chinesa. Não é bom pra ele? E os outros?

Enquanto isso, ficam vendo o jogo. Das arquibancadas.

 

 

 

 

Por Mario Rosa, 55 anos, é jornalista, escritor, autor de cinco livros e consultor de comunicação, especializado em gerenciamento de crises.