Opinião – Comida assassina?

”Em quem acreditar na polêmica sobre agrotóxicos? A respostas está no conhecimento científico”, escreve Xico Graziano

06/11/2020 16:17



Uma lição para a Anitta:
Agrotóxicos não são vilões

O que leva a cantora Anitta, uma pessoa famosa, supostamente inteligente, a dizer que o alimento do Brasil é uma porta para a morte? Intriga-me a questão.

A 1ª razão reside, eu sei, no temor da contaminação por pesticidas, os terríveis agrotóxicos. Sabidamente formou-se uma opinião no seio privilegiado da sociedade de que os produtores rurais utilizam em demasia os pesticidas nas lavouras. Daí sobrariam resíduos nos alimentos.

Será isso, todavia, verdade?

A fonte de informação de maior credibilidade vem do Para (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos), executado regularmente pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ligada ao Ministério da Saúde.

No último levantamento publicado, realizado com 4.616 amostras, recolhidas de dezenas de alimentos in natura, a Anvisa calculou que havia “potencial risco agudo” à saúde apenas em 0,89% das amostras. Conclusão: é comprovadamente falso que nossos alimentos sejam prejudiciais à saúde.

Por que, então, a Anitta acha que eles são (quase) assassinos?

Uma explicação pode ser o fato de que, em 51% das amostras, detectou-se, efetivamente, resíduos de defensivos químicos. O que se desconhece, porém, é que o nível encontrado situava-se abaixo do valor considerado, pela norma internacional, como limite máximo permitido (LMR). Ou seja, existe resíduo, mas é inofensivo ao organismo humano.

Como assim, inofensivo?

Acontece que os resíduos químicos, quando em baixíssima concentração, são metabolizados e excretados pelo corpo humano.
Mas, e o efeito acumulativo?

A Anvisa determinou, com base na metodologia científica conhecida, o chamado “potencial risco crônico”. Sabem quanto deu? Exatamente ZERO.

Diariamente nós ingerimos resíduos de ingredientes químicos de tudo quanto é tipo, sejam aditivos presentes nos alimentos processados, sejam elementos encontrados nas bebidas, incluindo água mineral. Podem conferir no rótulo: sulfatos, bromatos, nitratos, metais pesados fazem parte da nossa dieta. Mas, nas quantidades detectadas, não causam qualquer problema de saúde.
Aliás, foi o alquimista Paracelso quem disse, há 500 anos, que a diferença entre o veneno e o remédio é …a DOSE.

Falando em remédio, eu, você e a Anitta, com certeza, costumamos utilizá-los normalmente. Os medicamentos químicos defendem a saúde, mas podem causar malefícios se utilizados erradamente.

A prova é que, segundo os dados do Sinitox (Sistema Nacional de Intoxicações), gerenciado pelo Ministério da Saúde, os medicamentos humanos são responsáveis por 29,1% das intoxicações verificadas entre 1985 a 2016. Em 2º lugar vêm os bichos peçonhentos (26,5%), em terceiro os produtos domissanitários (9,8%).

E os produtos fitossanitários? Aparecem em 6º lugar, com 6,1% das intoxicações. Estas decorrem de contato físico, ingestão ou inalação do produto, problema verificado na aplicação em campo das lavouras. É um problema.

E os novos agrotóxicos liberados pelo Ministério da Agricultura?

A legislação brasileira, semelhante à mundial, exige que novos agrotóxicos, para serem registrados, tenham toxicidade menor que os já existentes no mercado. Uma prova de melhoria constante.

Novos agrotóxicos significa mais veneno na comida?

Não, funciona ao contrário. As mais recentes formulações de pesticidas, além de menos tóxicos, são sempre mais seletivas às pragas e mais eficientes no controle. Significa que os agricultores substituirão os antigos produtos pelos novos, reduzindo a dose média aplicada por hectare de lavoura.

Pensem bem: alguma mercadoria nova é pior que a velha? Telefones celulares? Televisão? Cosméticos? Aviões? Roupas? Por que agrotóxicos novos o seriam?

Por fim, preste atenção nisso: o Centro de Toxicologia da Unicamp, um dos mais qualificados do país, não registra, em 3 décadas de atendimento, danos consistentes à saúde causados por resíduos de agrotóxicos presentes nos alimentos.

Suponho que a Anitta leia este meu artigo. Pode ser você também. A pergunta fatal que me faria é essa:

Por que, então, algumas pessoas acham que estão sendo envenenadas pelos agrotóxicos?

Juro que não sei responder a essa pergunta.

Existem os fatos e os mitos. Fatos são referenciados por informação técnica-científica; mitos se criam à margem da racionalidade. São percepções de consumidores, interesse comercial disfarçado, crendices populares, achismos e, no caso do agro, jogo político.

Há um pensamento de esquerda que se acostumou a denegrir o agronegócio e a sublimar a agricultura familiar. É muito curioso, paradoxal. Certa elite, progressista, libertária, assume uma ideologia retrógrada em defesa da pequena produção camponesa, gritando contra a agricultura tecnológica, de grande escala. Querem o alimento orgânico, artesanal. Valorizam a produção local.

E dá, assim acontecendo, para saciar a fome das multidões?

Perguntem para a Anitta.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano.