Opinião – Brasil estava fora do mapa com Trump, ficará ainda mais de fora com Biden

”Indiferença será marca da relação. Prioridade zero é controlar covid. Polarização dificulta governar”, destaca autor

09/11/2020 12:00



Joe Biden foi vice durante a administração de Barack Obama

Brasil já não era grande coisa para o presidente Donald Trump, mesmo com o presidente Jair Bolsonaro rendendo-lhe vassalagem incondicional, tentando replicar (falta de) modos de governar, e até imitando o estilo pessoal grotesco do americano. Mesmo com Trump, o Brasil já era um ponto fora do mapa.

Caso se confirme o que a marcha (lenta) das apurações das eleições presidenciais nos Estados Unidos está apontando, com o democrata Joe Biden na presidência, a situação, em termos gerais, não vai mudar. O Brasil estava fora do mapa e assim deve continuar. A diferença é que não ganhará, de tempos em tempos, um afago fortuito, daqueles que os tiozões ricos fazem nos filhos do primo pobre do interior quando o visitam na capital, como os que Trump dispensava a Bolsonaro.

Bolsonaro, e sua diplomacia, construíram, tijolo a tijolo, um formidável muro que separou o Brasil da comunidade internacional. Seguiu, canina e irresponsavelmente, a política isolacionista de Trump, e pagará um preço por isso. Esse preço será tão mais alto quanto o governo brasileiro mais se recusar a estabelecer pontes de convivência adulta com um governo democrata em Washington.

Em qualquer hipótese, porém, Biden deverá se manter indiferente ao gigante sul-americano, pelo menos nos primeiros tempos. Não se trata de um “privilégio” brasileiro. A América do Sul nunca recebeu grande atenção de Washington e o Brasil de Bolsonaro só produziu uma versão atualizada e piorada da velha realidade.

Para Biden, a prioridade número um é reverter os desmontes e estragos produzidos por Trump. No campo das relações externas, México e Canadá, portanto, estão em primeiro lugar na lista de países a merecer atenção. Logo em seguida vem a China e, mais atrás, o retorno dos EUA aos órgãos multilaterais, o que também significa uma reaproximação com a Europa.

Do resto que sobrar, nas vizinhanças do continente americano, Nicarágua, na América Central, e Venezuela, na América do Sul, poderão receber um olhar menos distraído, mas não exatamente cordial. O resto, Brasil incluído, será o resto.

Há uma prioridade zero e esta é doméstica. O primeiro e maior desafio de Biden será estancar a atual e descontrolada disseminação da covid-19. A cada dia em que se desenrola a contagem dos votos, mais de 100 mil americanos estão engrossando as estatísticas de infectados. O esforço do novo presidente será reunir apoio para formatar um mega pacote fiscal, destinando abundantes recursos para a área da saúde e para a sustentação de empresas e empregados – visto que lockdowns, ainda que parciais, terão de ser negociados com estados em que o vírus circula sem barreiras.

Embora congressistas republicanos reeleitos não estejam em condições de boicotar ações de combate à pandemia, a polarização evidenciada pelo resultado das urnas, refletida na composição do Senado e da Câmara dos Representantes, indica dificuldades para governar. Ainda mais com Trump não aceitando a derrota e incitando correligionários, fato inédito na história política americana.

Prevê-se que o moderado Biden terá espaço estreito para se movimentar, com republicanos radicais fechando caminhos de um lado –há senadores eleitos considerados mais trumpistas do que Trump–, e a esquerda dos democratas, de outro. Com base nessa polarização, analistas insinuam que Biden já tomará posse como um presidente “lame duck” (pato manco, na tradução literal), sem forças para aprovar grandes mudanças, num ambiente político “ingovernável”.

Suas propostas de elevar o salário mínimo e aumentar a taxação dos mais ricos, para assegurar recursos à Saúde, combate à Covid-19 e estímulos a investimentos em economia verde, talvez não possam ir adiante ou tenham de ficar para a segunda metade do mandato, se a administração nos primeiros dois anos for bem sucedida. Diante da polarização existente, o risco de que pautas-bomba tentem minar o governo não pode ser desprezado.

Esse ambiente contaminado poderia lembrar o do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff que, depois de ganhar a eleição de 2014 por margem mínima, teve sua vitória contestada e, independentemente da incompetência política que demonstrou, foi, na prática, impedida de governar, até ser tirada da presidência. Mas a comparação não faz sentido, não só porque os Estados Unidos não são o Brasil, mas, principalmente, porque Biden não é como Dilma.

Joe Biden é um político experiente, de longo curso, tendência moderada e treinado no ambiente de negociações do Congresso americano. Faz parte das apostas, por exemplo, que Biden venha a convidar republicanos para o ministério, bem como consiga manter diálogo e negociar com o líder republicano no Senado, o trumpista Mitch McConnel. Mas isso será o de menos, nas atuais e complicadíssimas circunstâncias.

 

 

 

 

Por José Paulo Kupfer, 70 anos, é jornalista profissional há 51 anos. Escreve colunas de análise da economia desde 1999 e já foi colunista da Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo. Idealizador do Caderno de Economia do Estadão, lançado em 1989, foi eleito em 2015 “Jornalista Econômico do Ano”, em premiação do Conselho Regional de Economia/SP e Ordem dos Economistas do Brasil. Também é um dos dez “Mais Admirados Jornalistas de Economia”, nas votações promovidas pelo site J&Cia. É graduado em Economia pela Faculdade de Economia da USP.