Opinião – O carro na frente dos bois

”Ao se colocar na posição de torcedor e não de policy maker o Banco Central parece ser irrealista”, pontua Freitas Gomes

12/11/2020 15:23



Comenta argumentação do BC
Banco manteve selic em 2% ao ano

Em sua última reunião, ocorrida na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária) reafirmou a importância de continuar com a política monetária expansionista. O Comitê novamente enfatizou o forward guidance, admitindo a possibilidade de baixar mais as taxas de juros, considerando a ociosidade que ainda predomina na fase de recuperação da economia. A decisão meteu o Banco Central em uma enrascada, usando o guidance para sua posição de não atuar sobre a Selic.

forward guidance é uma técnica usada por Bancos Centrais nas políticas monetárias, cuja finalidade é sinalizar previamente a trajetória da taxa de juros em períodos futuros, para, assim, influenciar as expectativas do mercado quanto aos níveis da taxa de juros à frente. A intenção é guiar a economia de forma que essa expectativa seja atendida.

Desde o início de 2019 os juros reais para os investidores mantiveram trajetória de queda, e chegaram ao quadrante negativo ainda no início da pandemia. Como reflexo da crise na saúde, a maior parte da população concentrou a renda nos gastos com bens essenciais, principalmente alimentação. Antes desse período turbulento, a inflação estava controlada e com expectativas dentro da meta, fazendo com que o Banco Central se sentisse confortável em reduzir a Selic para o menor nível histórico, e com isso o país passasse a ter taxas reais negativas.

Esse contexto de juros reais negativos deve continuar por algum tempo, a não ser que a política fiscal demore mais para ser redirecionada ao contracionismo. E é a PEC Emergencial que vai trilhar esse caminho. Mas o Copom colocou o carro na frente dos bois, como se fala em Minas Gerais, mantendo os juros na tentativa de incentivar o Congresso a aprovar o ajuste fiscal.

Embora o consenso do mercado fosse de manutenção da Selic, o movimento mais adequado seria sinalizar que a queda dos juros hoje está abandonada devido às pressões inflacionárias, e indicar expectativas de a Selic poderá ser reduzida no futuro, assim que se acerte o corte de gastos à frente, como na PEC Emergencial. Em suma, a mensagem deveria ser apenas quando o ajuste fiscal estiver no caminho a Selic poderá cair novamente.

A trajetória negativa de rendimentos futuros para o investidor está incentivando a demanda por ativos reais, como também estimulando a fuga de recursos para compra de dólares, como mostra o quadro abaixo, dada a perspectiva de ainda mais depreciação.

Os bancos centrais devem ser sempre os últimos bastiões da realidade entre os agentes econômicos. O Brasil que já teve políticas sucessivas de confiscos da antiga correção monetária, e não pode repetir erros de colocar mais lenha na fogueira da inflação.

O acirramento da desvalorização do câmbio e o aumento da demanda estão promovendo choques mais disseminados nos preços, fazendo com que o mercado questione a decisão de manter os juros em nível tão baixo. Apesar do movimento de alta em diferentes componentes dos índices de preços, ainda não há sinais de hiperinflação. Mas pode ser disparada, se não houver firmeza na condução da política fiscal, e o Copom precisa levar esse fato a sério.

Por um lado, a redução do auxílio emergencial vai injetar cautela nos consumidores, o que deve desacelerar o nível de consumo. Essa desaceleração na demanda implicará preços mais comportados e ajudará a reduzir a velocidade do avanço inflacionário. Entretanto, os serviços, que ainda não se reestabeleceram totalmente da crise, devem reajustar preços conforme aumentar a procura e, com isso, pressionar a inflação.

Fatores internacionais também podem levar a um aumento inflacionário. Com alguns países europeus passando por um novo ciclo de lockdown, a economia internacional deve voltar a desacelerar com renovação das incertezas. Nesse movimento e em uma dinâmica fiscal também incerta internamente, o dólar deve ganhar cada vez mais força, fazendo com que subam os preços dos importados no Brasil, o que influenciará os preços internos.

A maior procura por bens de necessidade básica provocou esse choque inflacionário, baseado na renda extra disponibilizada pelo governo. A redução do auxílio emergencial vai arrefecer esse movimento. Quanto ao ajuste entre oferta e demanda, ocorrerá conforme a economia se recupera e os setores retornam aos níveis de atividade pré-crise. Até que ambos os fatores sejam normalizados, a população temporariamente conviverá com um nível inflacionário mais elevado.

Esse ano o governo conseguiu executar a política econômica para evitar que o pior acontecesse, como mostram diferentes indicadores correntes e antecedentes sobre consumo, produção e vendas. Mas agora temos de caminhar novamente com as políticas de antes da pandemia, que estavam no caminho correto diante dos desafios, principalmente a fiscal.

Todavia o Copom colocou o carro na frente dos bois, podia ter afirmado que se as reformas fossem aprovadas os juros poderiam baixar, mas não manter os juros baixos e ficar na torcida pela aprovação. Ao se colocar na posição de torcedor e não de policy maker o Banco Central parece ser irrealista. Taxas de juros tão baixas no curto prazo estimulam as especulações contra ele mesmo, o Banco Central.

Agora, ou refaz o forward guidance, ou tenta a sorte que o Congresso aprove rapidamente o ajuste fiscal.

 

 

 

 

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes, 72 anos, é economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi presidente do Conselho de Administração do BNDES e diretor do BNDES de 2017 a 2019, diretor do Banco Central (1986-1988) e da Petrobras (1990-1992).