Opinião – Eleições tiveram saldos positivos, mas mostram dificuldades em romper alguns estigmas da política

Por Roberto Livianu

20/11/2020 18:22



Houve aumento de candidatos trans
Sistema ainda é pouco transparente

Sede do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em Brasília

Cento e quarenta pessoas foram presas por crimes eleitorais no dia das eleições em todo o Brasil, a maioria delas por crime de boca de urna. Outras tantas pela prática do crime de compra de votos, inclusive com a apreensão de cédulas que seriam utilizadas para as práticas delituosas.

Nestas eleições 2020, o povo fez do mineiro José Braz, de 95 anos, o prefeito mais idoso do país. A partir de 1º de janeiro ele vai comandar o município de Muriaé (MG), a 314 quilômetros de Belo Horizonte. Ele já havia ocupado o cargo na cidade em outros dois mandatos, entre 2005 e 2012. Agora teve 42,80% dos votos. Ele foi dos 71 candidatos a prefeito acima de 80 anos no pleito de 15 de novembro.

No mesmo estado de Minas Gerais, na capital, escolheu para a Câmara de Vereadores sua primeira candidata trans, a professora Duda Salabert (PDT), e ainda com uma votação recorde ―a vereadora mais votada da história da capital mineira.

Em 2018, quando havia disputado a eleição para o Senado, ela já havia obtido mais de 350.000 votos. Em 2020, triplicou o número de candidaturas trans no Brasil e, ao menos em três capitais brasileiras, foram eleitas com boas votações no Legislativo municipal.

Em São Paulo, Erika Hilton foi eleita a primeira mulher trans da Câmara Municipal, enquanto Thammy Miranda, o primeiro homem trans. Já em Aracaju, a também educadora Linda Brasil foi eleita com o maior número de votos da história da capital sergipana.

As escolhas de Duda, Erika e Thammy romperam barreiras e derrubaram mitos, trazendo os bons novos ventos da diversidade na representação política, dando plenitude ao conceito de democracia.

Mas, pouco ou quase nada mudou nestas eleições no mundo das práticas partidárias opacas, sem democracia intrapartidária nem ética, com líderes se eternizam no poder, dificultando o processo de renovação política e restringindo as alternativas para o eleitor, em que as candidaturas independentes, utilizadas em 90% dos países ocidentais democráticos não são admitidas no Brasil.

Este mundo sem transparência possui mistérios insondáveis, que sempre rondam as eleições. Como explicar, por exemplo, que a figura do jovem e de boa aparência 1.o Tenente do Exército, Breno Freire, do alto de sua poderosa posição de titular de um patrimônio digital de 679.000 seguidores no Instagram, candidato a vereador em São Paulo pelo rico partido PSL sob o número 17707, tenha alcançado a pífia votação de míseros 404 votos? Sem considerar o mundo real, menos de 0,6% de seus seguidores o teria apoiado (0,59%)?

Qual seria a explicação para os quatro votos da candidatura a vereadora em Carapicuíba, de “Patrícia Espelunca do Chefe”, pelo PTB, de Russomanno? Ela teria recebido a respectiva cota devida às mulheres, do fundo eleitoral?

Neste cenário brasileiro de um ecossistema partidário apodrecido e sem credibilidade social, seria possível florescerem novas e saudáveis lideranças políticas, dispostas a modificar significativamente nosso cenário político, gerando profundas transformações sociais rumo à integridade e à supremacia do interesse público?

 

 

 

 

Por Roberto Livianu, 52, é procurador de Justiça, atuando na área criminal, e doutor em direito pela USP. Idealizou e preside o Instituto Não Aceito Corrupção. Integra a bancada do Linha Direta com a Justiça, da Rádio Bandeirantes, é articulista da Folha de S. Paulo e do Estado de S.Paulo e é colunista da Rádio Justiça, do STF.