Opinião – O Macunaíma Hebreu

”Livro conta a história de Samuel Wainer, o dono do jornal que tinha lado”, diz Traumann

20/11/2020 17:57



Em entrevista à Wainer, Getúlio Vargas lhe deu a declaração da década: “Vou voltar, não como líder político, mas como líder de massas”

Muitos anos depois, diante do gravador de uma repórter ainda iniciante, o jornalista Samuel Wainer havia de recordar aquela noite remota em que Getúlio Vargas o levou para conhecer a sua razão de viver:

“Tu te lembras de uma frase que me disseste no dia em que começamos a campanha? Era uma frase sobre jornalismo”, disse Getúlio, logo após a primeira reunião do seu ministério, em fevereiro de 1951. Wainer era o único repórter presente. Todos os jornais boicotaram a reunião.
“A imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder”, responde Wainer.
“Tu reparaste que hoje não veio ninguém cobrir a reunião?”
“O senhor só vai aparecer nos jornais quando houver algo negativo a noticiar. Essa é uma tática normal de oposição, e a mais devastadora.”
“Por que tu não fazes um jornal?”
Ao ser questionado por Wainer se queria saber seus próximos passos, Getúlio disse que não, que fosse conversar com a filha, Alzira—e fosse rápido.
“Em 45 dias dou um jornal ao senhor”, disse o repórter ao presidente.
“Boa noite, Profeta”, encerrou Getúlio.

O diálogo acima está em “Minha Razão de Viver”, a versão edulcorada para a sessão da tarde da biografia de um mais contraditórios, amados e odiados jornalistas da história do Brasil. Como repórter, Samuel Wainer cobriu a França no pós-guerra, o Tribunal de Nuremberg, o nascimento de Israel e histórica campanha eleitoral que levou Getúlio Vargas de volta à Presidência em 1950, dessa vez pelo voto.

Como dono do jornal criado a pedido do presidente, o Última Hora, Wainer foi a testemunha da ascensão e queda de Getúlio, Juscelino Kubitscheck e João Goulart. Criou o único grande veículo de imprensa francamente trabalhista. Tinha lado, como todos os outros. Mas ao contrário dos demais, não tinha vergonha de assumir o seu.

No recém-lançado livro “Samuel Wainer- O Homem que Estava lá”, a repórter Karla Monteiro desconstrói o mito criado pelo próprio Wainer na sua biografia ditada. Consultando documentos inéditos, Monteiro prova que Wainer realmente não nasceu no Brasil, e sim na Bessarábia (à época parte do Império Russo), fato que negou até à morte. Seu local de nascimento era questão vital porque pela Constituição estrangeiros não podem ser donos de veículo de mídia no Brasil até hoje.

Monteiro desmonta ainda outra versão oficial de Wainer, sobre a histórica entrevista com Getúlio Vargas, no carnaval de 1949, na qual o ex-ditador auto exilado no interior do Rio Grande do Sul prometia voltar como “líder das massas”. Ao contrário do que dizia Wainer, a conversa não havia sido um acaso, mas combinada anteriormente pelo jornal com Alzira Vargas.

O Wainer que ressurge no livro de Karla Monteiro é o Macunaíma hebreu na definição magistral de Francisco de Assis Barbosa, se referindo ao heróis sem caráter de Mário de Andrade. Sem caráter? Com certeza. Quem mais enganaria um sócio cego para tomar para si a propriedade da revista Diretrizes? Ou que judeu aceitaria dinheiro da Alemanha nazista para sustentar sua revista quando o Brasil se equilibrava na neutralidade do início da Segunda Guerra?

Com fibra? Com certeza. Que outro dono de jornal suportaria ter sua honra ser achincalhada por anos por fazer o que todos os barões da imprensa sempre fizeram? Monteiro traz um memorial da Comissão Parlamentar de Inquérito que esquadrinhou a vida de Wainer e contabilizou empréstimos de R$ 340 milhões (em valores atualizados) do Banco do Brasil e de milionários para formar a rede de jornais governistas.

O Wainer que emerge da biografia é o charmant capaz de se apaixonar por uma jovem modelo que o visitava na prisão, feito um Ricardo 3.o ao seduzir Lady Anne ao lado do caixão do marido. É o arrivista, que achava possível sair da cadeira de repórter e ser aceito com um dono de jornal, o editor instintivo que colocou Nelson Rodrigues para descrever a vida como ela é dos pecados da alma carioca, o corrupto que achava que sua alma não estava à venda.

A mídia brasileira tem problemas sérios em se olhar no espelho. Prefere os confetes sobre empresários idealistas da liberdade de expressão, ao invés de relatos de como a mídia é parte intrínseca do exercício do poder. Mesmo com este novo livro de Monteiro, ainda se conta nos dedos de uma única mão as biografias sérias sobre empresários de mídia: Chatô, de Fernando Moraes, o primeiro volume de Roberto Marinho – O Poder está no Ar, de Leonêncio Nossa, e a expectativa sobre a biografia de Carlos Lacerda de Mário Magalhães. Repórter detalhista, Wainer cometeu o erro abissal de provocar uma comissão parlamentar de inquérito imaginando que, temendo serem tragados para a investigação, os barões da imprensa o poupariam. O comeram até os ossos.

SERVIÇO

Samuel Wainer – O Homem que estava lá
Companhia das Letras, 576 páginas
Preço: R$ 89,90
E-book: R$ 39,90

 

 

 

 

Por Thomas Traumann, 53 anos, é jornalista, consultor de comunicação e autor do livro “O Pior Emprego do Mundo”, sobre ministros da Fazenda e crises econômicas. Trabalhou nas redações da Folha de S. Paulo, Veja e Época, foi diretor das empresas de comunicação corporativa Llorente&Cuenca e FSB, porta-voz e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff e pesquisador de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp).