Opinião – A guerra das vacinas foi uma ”nova” revolução de 32

”A Revolução Constitucionalista de 1932 ocorreu de julho e outubro daquele ano. Objetivo: derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte”, lembra autor Mario Rosa

12/01/2021 12:10



João Doria teve mérito por vacina
Disputa com Bolsonaro é política
O Brasil não é somente São Paulo
Interesse coletivo deve vir em 1º

O desfecho da “guerra das vacinas” foi o fim da picada. Quer dizer, o ponto de partida. E serve de caso perfeito sobre como a mistura de falta de assunto, histeria e debate público enviezado, ao final, produz o que era de se esperar da soma de todos esses elementos: nada.

Houve ataques contra o governo federal, houve patriotadas (com máscara) do governador de São Paulo, houve o uso indiscriminado da palavra preferida da imprensa e dos políticos –crise– houve de tudo um pouco. Mas nada saiu do script do previsível –é isso o que mais espanta: por que falar que o normal pode acontecer virou quase uma heresia nos dias de hoje? Por que relembrar a história e verificar as premissas objetivas das marolas políticas saíram de moda?

Começando pelo governador João Doria. Seu empenho para viabilizar a vacina brasileira em colaboração com o laboratório chinês Sinovac foi meritório. Sua disputa política com o presidente Jair Bolsonaro, do jogo. Política é isso aí. Mas a simples possibilidade de que seu governo tentasse transformar São Paulo numa ilha e começasse a vacinação apenas no Estado com as ampolas do Instituto Butantã como se fosse um país autônomo, ao invés de colocar esse medicamento à disposição de todo o país e todos os mais de 200 milhões de brasileiros, seria um ato egoísta, preconceituoso e genocida, em relação a todos os que não fossem paulistas. Que mensagem estaria por trás dessa insanidade? Que a vida de um paulista valeria mais que a de um maranhense ou de um cearense? Que São Paulo é um país? E que o Brasil que se dane?

É claro que essa estultice não poderia se concretizar, como de fato não se concretizou. E o bom senso venceu. Mas o que me espanta é que os anúncios da vacinação “autônoma” de São Paulo eram feitos e ninguém ou quase ninguém se espantava. Talvez porque o saco de pancada da estação seja o presidente Bolsonaro. Não tiro o mérito do governador: sua pressão política talvez tenha tornado possível avançar o calendário do início da vacinação.

Mesmo assim, falar numa “vacinação paulista”, como se São Paulo fosse um país e o Brasil outro, era não só uma bravata. Era uma contradição. Afinal, quando explodiu a pandemia o governo paulista correu de joelhos para o Supremo Tribunal Federal para suspender os pagamentos das dívidas e federalizar o problema, não foi? Ou foi corajoso e disse que a dívida de São Paulo era problema só de São Paulo? Não! Disse que era de todo o país e não de um Estado apenas. O mesmo preceito tinha de ser aplicado agora, como foi. Se o problema é do país, a solução também.

Gosto sempre de lembrar da cicatriz que rasga o orgulho da suntuosa capital do pujante estado de São Paulo, quando me recordo da tentação de governadores paulistas que se sentem tão poderosos e sempre podem alimentar, em maior ou menor medida, uma certa compulsão de confrontar historicamente o poder federal. O nome dessa cicatriz se chama Campo de Marte. É um protetorado federal mantido até hoje em plena cidade de São Paulo, insistentemente solicitado que seja devolvido aos paulistas e negligentemente desprezado pelos sucessivos presidentes da República.

Quando surgiu essa cicatriz? Foi resultado da derrota de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932. Getúlio Vargas, esperto que só, carimbou o movimento de “separatista”. O que importa é o final: São Paulo perdeu. E o federalismo venceu. E como crueldade as terras do Campo de Marte estão aí até hoje para lembrar aos ocupantes temporários do extasiante Palácio dos Bandeirantes que governadores de São Paulo podem muito. Mas o Brasil é maior.

Para aqueles que acham que o presidente Bolsonaro não teve o melhor comportamento nessa questão das vacinas, algo que ainda terá de ser visto com o distanciamento da história e a serenidade que só a ausência de paixões políticas irá permitir, a atitude mais apropriada certamente não seria ingressar numa gincana de irracionalidades. O lógico prevaleceu.

O governador Doria lutou para encontrar uma saída para a superação da pandemia. Mas, ao invés do egoísmo e do elitismo, acabou fazendo isso como brasileiro e não como paulista. Depois de ter ajudado a encontrar a solução, compartilhou-a mesmo com seu maior adversário político. Porque nenhuma diferença política pode ser mais importante que o interesse coletivo ou a vida de um semelhante, um irmão ou irmã, não apenas paulista, mas amapaense, baiano, tocantinense, capixaba ou barriga verde.

Mas o lógico também prevaleceu do lado de Bolsonaro: há um único ministério da saúde. E tentar fazer uma vacinação para os paulistas e outra para o “resto” seria inominável. Resultado? Empate. Um a um. Gol de São Paulo, gol do governo federal. Com a vantagem que Doria, no início, nem estava escalado!

Politicamente falando, a “guerra” das vacinas já produziu dois vitoriosos. O governador Doria, sem duvida nenhuma. Mas o outro, sempre negligenciado nas análises políticas afoitas ou enviesadas, foi o próprio presidente da República.

Ora, foi Bolsonaro quem inventou o Doria “salvador da Pátria”. Foi ele que inventou a polarização com o governador paulista. Foi ele que, ao colocar Doria no centro do palco (em que não estava, recorde-se) espertamente tirou os holofotes de Luciano Huck e Sergio Moro, ao menos momentaneamente. Esses, sim, talvez candidatos mais duros de roer.

Então, o governador Doria se tornou o opositor oficial do regime, assim como já foi um dia Ulysses Guimarães. Não é ruim. Mas é preciso saber usar esse espaço. E não é com egoísmos e bairrismos que se chega a lugar nenhum. O governador Doria parece estar escapando da primeira armadilha. Qual? Erre, governador Doria. Erre. É tudo o que o Mito quer.

 

 

 

 

Por Mario Rosa, 55 anos, é jornalista, escritor, autor de cinco livros e consultor de comunicação, especializado em gerenciamento de crises.