Opinião – Centrão, centrinho e os profissionais

Congresso Nacional: no fim de janeiro, negociações vão se intensificar

18/01/2021 16:31



Eleições no Congresso começaram
Com articulações às claras ou não

Árvore de Natal e iluminação do GDF, na Esplanada dos Ministérios. Sérgio Lima/Poder360 19.12.2020

Nas disputas apertadas, as eleições para as mesas das duas Casas do Congresso são sempre decididas nos instantes finais. Neste ano, as disputas na Câmara e no Senado estão em aberto e assim ficarão até o último momento. Mas enquanto isso é preciso estar atento para duas coisas. A primeira: o MDB só perderá a eleição para a presidência do Senado se assim o desejar. A segunda, é que ao cair no canto de sereia de Rodrigo Maia, o PT acabará igual a Jonas: engolido pela baleia e vomitado na praia.

O Psol farejou que abraçar a proposta de Rodrigo Maia é correr o risco desnecessário de sair com a reputação e a identidade arranhadas. O PT não liga mais para isso. Faz tempo, deu baixa e mandou às favas determinados arroubos e pudores. O Psol quer ser o PT de ontem, puro, imaculado e cheio de moral. É improvável que não tenha candidato para bater chapa contra Baleia Rossi e Arthur Lira. Pensa em 2022, embevecido pela performance de Boulos em São Paulo e as perspectivas de ampliar a presença na Câmara dos Deputados e no repasse do fundo partidário, os quais andam de mãos dadas.

Maia articulou seu Centrinho para bater chapa com o Centrão, a quem deve suas 3 eleições para a presidência da Câmara e os 5 anos consecutivos de comando da Casa. O Centrão é governo por excelência, tem 35 anos de tradição e uma invejável capacidade de sobrevivência. A última vez que ressurgiu das cinzas foi na Lava Jato. O Centrinho de Maia, com Luciano Huck de paraninfo, junta siglas de esquerda como o PT e o PC do B, as viúvas de Bolsonaro abrigadas na sombrinha do PSL e mais a Rede de Marina Silva, o PDT de Ciro Gomes, parte do PSDB de João Doria e o PSB do prefeito de Recife, João Campos.

O Centrinho tem uma banda de música boa de barulho, simpatia da mídia e bombardeia a reputação do adversário Arthur Lira, mas, como lembrou há dias um integrante do Psol, faz de conta que seu candidato não tem telhado de vidro. Wagner Rossi, pai de Baleia e amigo de Michel Temer há 60 anos, perdeu a cadeira de ministro da Agricultura no governo Dilma Rousseff em 2011, depois de a revista Veja informar ao distinto público que um lobista chamado Júlio Fróes dava expediente dentro da Comissão de Licitações do ministério. Nitroglicerina pura para os que torcem o nariz para a candidatura de Baleia.

Na maioria das vezes, candidatos que fazem campanha para a presidência da Câmara falando para a opinião pública, e não para os deputados, acabam derrotados. Os casos mais marcantes são a vitória de Severino Cavalcanti contra o petista Luiz Eduardo Greenhalgh e a derrota de Odacir Klein, amigo de Itamar Franco, para Inocêncio Oliveira. Um experiente político com quase 3 décadas de Congresso fez as contas e concluiu que Rossi tem potencial para colher de 160 a 180 votos. A menos que o imponderável faça uma surpresa, este é o provável teto, com o Psol e seus 10 deputados, arrastando apoios e tirando de Rossi alguns votos da esquerda.

No Senado o jogo é, digamos, um pouco mais sofisticado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, lançou Rodrigo Pacheco (MG) e trabalha para manter o comando da Casa nas mãos do DEM, que tem 5 senadores. Ganhou o apoio dos 11 senadores do PSD de Gilberto Kassab. Em seguida, o Pros de Fernando Collor anunciou que embarcaria no barco de Pacheco, acrescentando mais 3 votos. O PP deve dar mais 7, totalizando 21 para a largada.

Este é o jogo visto na superfície. Mas há outro sendo jogado nos bastidores pelo MDB, que tem 13 cadeiras e trabalha para conseguir mais duas: os senadores Rose de Freitas (ES) e Veneziano Vital do Rêgo (PB), irmão do ministro do TCU Vital do Rêgo Filho, ex-senador e ex-líder do MDB. Rose é filiada ao Podemos e Veneziano está sem partido.

Na política nada acontece por acaso. Os profissionais do MDB no Senado estão na muda, assim como os do PSDB e do PT. Nos bastidores conversam muito para juntar debaixo do mesmo guarda-chuva 34 votos (MDB, PT, PSDB, Rede, PSB, PDT e Cidadania). Se vierem os descontentes do Podemos liderados por Álvaro Dias, serão mais 10 votos. Uma aliança de 44 votos, 3 a mais do que os 41 necessários para a vitória. É nessas horas que o pragmatismo pode ser decisivo.

Claro que essa matemática não é tão simples e depende de negociações nas quais nem sempre 2 mais 2 é igual a 4. Envolve cargos na mesa, presidência de comissões temáticas e outras coisas menos visíveis, porém igualmente ambicionadas numa Casa com orçamento anual de R$ 18 bilhões. A disputa esquentará para valer a partir do dia 25 de janeiro, faltando uma semana para a eleição das duas mesas. Tanto no MDB como no PSDB a experiência e a habilidade de negociar de José Serra, Tasso Jereissati, Renan Calheiros e Fernando Bezerra Coelho não podem ser ignoradas. São um ativo valioso, ainda mais quando o objetivo é comum.

Há 2 anos o MDB foi derrotado por Davi Alcolumbre num cenário bastante diferente do atual. O governo acabara de ser eleito, chegava forte e Renan Calheiros, então candidato do partido, errou ao subestimar o adversário apoiado por Bolsonaro. Hoje o cenário é outro e antigos aliados do governo cederam lugar a novos.

O Planalto não perde nada com o MDB vitorioso no Senado. Dois dos seus principais líderes, Eduardo Gomes e Fernando Bezerra Coelho, são do partido. Por várias vezes o MDB soube vencer e comandar a Casa com políticos pouco conhecidos nacionalmente como José Fragelli, Ramez Tebet ou Garibaldi Alves.

Davi Alcolumbre amargou duas derrotas seguidas em dezembro, uma em Brasília outra em casa: o STF negou a reeleição e seu irmão perdeu a prefeitura de Macapá. Uma derrota a mais na sequência seria o pior dos pesadelos, não apenas pelo fracasso em si, mas especialmente pelo tamanho da conta que será espetada nas suas costas. Não é por acaso que Bolsonaro pouco fala do Senado e foca na eleição da Câmara. Está esperando a última semana de janeiro chegar.

 

 

 

 

Por Marcelo Tognozzi é jornalista e consultor independente há 20 anos. Fez MBA em gerenciamento de campanha políticas na Graduate School Of Political Management – The George Washington University e pós-graduação em Inteligência Econômica na Universidad de Comillas, em Madrid.