Opinião – A Brasília das certezas e o Brasil das dúvidas

Para quem sempre foi acusado de negacionista, Bolsonaro mostra o contrário: acredita que a vacina centrão imuniza contra a realidade

12/02/2021 15:52



Bolsonaro faz aliança com Centrão
Não resultará em popularidade

Sessão solene de abertura dos trabalhos do Congresso Naciona, em 2021. Sergio Lima. 03.02.2021

Foi divertido acompanhar esta semana, depois da escolha das mesas diretoras do Senado e da Câmara de Deputados, as profecias políticas e os julgamentos “definitivos” sobre a eleição de 2022.

O petismo decreta, enquanto faz acordos com os candidatos apoiados por Bolsonaro no Congresso Nacional, que o autoritarismo e a falta de respostas do governo no campo social vão levá-lo ladeira abaixo nas intenções de voto e, assim, 2022 será uma oportunidade concreta para que Dom Sebastião retorne com as mesmas políticas e práticas condenadas há bem pouco.

Na visão “petista raiz” o fracasso de Bolsonaro abre espaço para a proposta de uma “revolução social”, termo utilizado pelo sempre articulado José Dirceu, em sua coluna no Poder360 esta semana. Consequência: o PT não aceita a ideia de uma frente de oposição com a participação do chamado centro democrático. Argumenta que não basta ambos serem contra Bolsonaro, precisariam ter as mesmas posições dos petistas sobre o papel do Estado, políticas públicas e aí por diante.

O Brasil bolsonarista, com o peito inflado pelas festas nos plenários e salões pagodeiros da capital, tem ainda mais certezas: considera definitivo um enorme bloco de apoio ao governo, capaz de ao mesmo tempo evitar o impeachment, aprovar reformas, fazer o emprego e o crescimento voltarem e, claro, garantir a reeleição. Para quem sempre foi acusado de negacionismo, o bolsonarismo mostra o contrário: acredita que a vacina centrão imuniza contra a realidade.

Menos animado, um terceiro segmento político, o chamado centro democrático, busca suas certezas na depressão. Sonhou com a obra final de um super Rodrigo Maia, capaz de unir o centro sem o centrão, derrotar ou conquistar o baixo clero sem verbas e, pronto, montar o grande palanque para 2022. Se não conseguiu e, ao contrário, viu o PSDB não apoiar o PSDB, o MDB romper com o MDB e o DEM mostrar-se tão sólido quanto uma moqueca, então o desastre está feito, o mundo acabado e não existem mais chances em 2022 para uma terceira via, salvo para os pouquíssimos que imaginam um Doria confiável e consistente.

Essas três visões sobre o futuro eleitoral tem algo em comum: mais certezas que dúvidas, logo no Brasil… E, pior, a maioria das certezas confunde-se com desejos.

O PT, por exemplo, tem razão quando aponta para a crise social como o fator central da vida brasileira e critério fundamental para a decisão sobre o voto dentro de 20 meses. Mas de onde sai a pretensão que a resposta Lula-Dilma seja a única sensível ou correta para enfrentar essa inaceitável desigualdade? E como buscar votos sem admitir primeiro, clara e publicamente, os gravíssimos erros que cometeu em três governos e meio? Ou, ainda, como propor futuro se o partido segue recluso no passado, dele e de um Brasil que mudou muito?

Governistas estão certos quando festejam seu desempenho. Fosse qualquer outro o autor de metade dos erros e omissões de Bolsonaro e estaria com menos 100% de popularidade. Esta resiliência, porém, se une os já convertidos, não ajuda a reconquistar a maioria dos brasileiros, agora que o discurso de 2018 foi desmentido por dois anos de governo. (Irônico que a festa bolsonarista tenha ocorrido na mesma semana em que era cremada a Operação Lava Jato). Pior: não há como imaginar que o imunizante centrão vá alterar o metabolismo político simplório e populista de Bolsonaro dando-lhe nos próximos meses poderes para abrir espaço fiscalmente responsável, adotar políticas eficientes e imediatas de geração de emprego e renda, sem enfrentar pautas delicadas como combate a privilégios e a corporações, redução de subsídios e favores, tudo que o centrão, justiça se faça, ama com coerência há muitos governos.

Um exemplo do desafio veio 24 horas depois da escolha das novas mesas legislativas quando o Poder360, com suas sempre esclarecedoras pesquisas, mostrou que segue caindo a popularidade do governo porque no país real, aquele onde vive e sofre a população, não há motivos para comemoração alguma.

E os desolados centristas? Há um enorme espaço na sociedade brasileira, igual ao número de brasileiros que não sendo lulistas não querem ser bolsonaristas ou o contrário. De Ciro a Huck, de Maia/Doria a Dino sobrevivem hipóteses políticas que não conseguem se transformar, até agora, em projetos políticos consistentes.

A causa não é a derrota no parlamento ou a crise de seus partidos. O centro, ou o que não é petista-bolsonarista no Brasil, é frágil por outra e superior razão: não conhece nem pratica o idioma que lhe permita falar para a sociedade com ética, compromisso social e responsabilidade. Ciro, talentoso, precisaria provar que finalmente derrotou seu maior adversário – o próprio temperamento. Huck, moderno e preparado, precisa fazer a perigosa travessia da rua das celebridades para a avenida da política, caminho normalmente fatal para boa parte dos transeuntes. Doria, este realiza até agora um milagre político: não gera confiança nem entre seus aliados. Sua candidatura continua sendo mais desejada pelos adversários petistas ou bolsonaristas do que por potenciais apoiadores.

A lista infindável de questões pendentes e fatos por acontecer mostra a distância entre as profecias da semana que termina e a eleição de 2022. Infelizmente, o debate público no Brasil detesta dúvidas e “ses”, perguntas ou reflexões mais cautelosas. Afinal, em 280 caracteres, apenas podem caber verdades absolutas. De qualquer forma, uma pequena e óbvia lembrança: daqui a pouco, todas as “certezas” terão de se encontrar com a realidade. E esta, vejam nosso passado recente, costuma derrotar com requintes de crueldade profecias apressadas. Mais que em qualquer outra véspera de ano eleitoral, o jogo está por jogar. As diversas Brasílias, da esquerda à direita, deveriam reler Vianinha, na inesquecível Rasga Coração.

“Acho que, vai ver, esse foi o erro de vocês… vocês descobriram uma verdade luminosa…. pensam que ela basta para explicar tudo… a tarefa nossa não é esperar que uma verdade aconteça, nossa tarefa é descobrir novas verdades, todos os dias… acho que vocês perderam a arma principal: a dúvida. Acho que é isso que o filho do senhor quer… duvidar de tudo… e isso é muito bom… acorda… arrepia as pessoas”.

 

 

 

 

Por Antônio Britto Filho, 68 anos, é jornalista, executivo e político brasileiro. Foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Estado do Rio Grande do Sul.