Opinião – A cor da virtude, o valor que vem do berço e o selo verificador

”Nosso valor vem do nascimento, ou inexiste a partir dele, pregam as redes sociais”, diz autora

15/02/2021 12:36



Autora dá dicas de sobrevivência
É possível fugir do cancelamento

Amigos, hoje trago boas notícias: a virtude foi substituída pela autodeclaração de virtude. Sim, queridos, é isso mesmo. Pode relaxar e deixar de lado toda aquela obrigação moral de ser uma pessoa melhor e mais evoluída –agora existe um selinho pra isso. E olha que beleza: você não precisa pagar por esse selo, nem provar nada pra nenhum instituto verificador. Regozije, porque esse selo, meu amigo, é você mesmo que emite, tipo uma vaca carimbando um SIF em si mesma, uma espécie de presunto autocertificador.

Para isso, você só precisa fazer o seguinte: coloque uma bandeira de arco-íris na sua fotinha, ou vá no seu perfil do Facebook e coloque um selinho antifascista (antifa, para os íntimos). Proclame ser membro de grupos cuja autodenominação declare algo acima de qualquer questionamento, tipo “antigenocida”, “vidas negras importam”, ideias que não possam ser refutadas moralmente e a partir do próprio nome desqualifiquem qualquer contestação. É assim que se ganha o debate antes mesmo de ele começar.

Se preferir, use a palavra “antirracista”, de preferência com vários pontos de exclamação depois da palavra, ou aquele punho cerrado, melhor ainda se for preto, marca de luta (ele simboliza gente que de fato lutou contra poderosos em muitas épocas da nossa história recente, e você vai se apropriar dele pra mostrar que você também luta, só que com emojis.

Lembre: isso não é apropriação cultural, não senhor! Isso é demonstração de virtude, que independe de qualquer virtude e por isso não é roubo porque você de fato não a tem.)

A partir daí, a partir desse trabalho árduo que você enfrentou ao ter que achar o emoji certo na luta inglória contra seu teclado, você estará paramentado para debater. E esse debate, querido, eu já aviso quem vai ganhar antes mesmo de ele começar: quem ganha é você!

A regra é simples: basta gritar truco, nesse caso “fascista!”. Quem gritar primeiro ganha. As regras não são complexas, mas a filosofia do jogo é profunda: a sua autoproclamada virtude, ainda que pequena ou até inexistente, vira algo positivo em contraste com o negativo da acusação que você lançou contra o outro. Isso é pura matemática: se você não vale nada, mas o outro vale menos ainda, você é vencedor. Sim, claro, você pode até ser um zero, mas e seu oponente, ahn, que é -4? Qual o menor? Se você não tiver calculadora e continuar na dúvida se é ou não é virtuoso mesmo com o punho cerrado, “black lives matter” e a bandeira do arco-íris, certifique-se de que o outro é menos virtuoso ainda acusando esse oponente de algo funesto –o oposto do que você prega ser.

Para que não haja dúvidas: se você errar um pronome, você será condenado, mas adjetivos estão liberados. Use sem moderação! Identifique a alma da pessoa e dê aquele soco nesse âmago, porque âmago foi feito para isso. Palavras são mágicas, poções encantadas que transformam as pessoas quando são faladas ou recebidas. Assim, ao se autoproclamar antirracista, lembre ao mesmo tempo que seu oponente é racista. Não existe meio-termo! Se você é antifacista, seu oponente só pode ser facista. Se você nunca matou ninguém, seu oponente então é genocida.

Estamos na era dos algoritmos, e uma palavra já contém toda a informação que você precisa. Examinar a vida de alguém? Pra quê? Saber o que ela faz da vida, como trata os outros, a quem ajuda, como cuida da mãe? Pera lá! Palavras-chaves existem para facilitar a identificação e derrubar contexto. Precisamos evoluir, facilitar as classificações. Vamos progredir em direção à inteligência artificial, e num futuro próximo decidir tudo com o polegar, pequenos césares salvando ou matando com um gesto quase tão rápido quanto o julgamento.

É preciso identificar o outro com uma palavra acurada, mas acima de tudo, convicta. Isso facilita o diálogo porque nos poupamos de tê-lo. E palavras importam. Elas facilitam a vitória desse embate, e eu explico como: a pessoa de baixa estatura só consegue subir em banquinho se ele for bem baixinho. Pois sabe quem é seu banquinho, meu querido? Seu banquinho é seu oponente! Se ele for alto, diminua o cara! Olha que legal, olha a otimização que você está engendrando nessa luta! Rebaixe o outro e admita-se nanico. E jamais se envergonhe de ser nanico e precisar de banquinho! De jeito nenhum! Isso é ajudar quem é menor. Isso é lindo, e equalizante! Rebaixe o outro e erga-se sobre aquele corpo caído, porque assim também é mais fácil se elevar.

Enquanto você grita “fascista”, “genocida”, “misógino”, “racista”, não tenha medo de ser injusto ou desonesto. Jamais, amigo! Estar certo é nunca se considerar errado! E ninguém vai te criticar por isso, não se preocupe, porque ao se fazer nanico você consegue o apoio de todos os outros nanicos, porque nanicos unidos jamais serão vencidos. Seja vítima, e vença essa luta chorando.

E se seu interlocutor –doravante conhecido como adversário– estiver usando uma camiseta do Brasil, é bingo! Nossa bandeira também é um selo verificador, e ela verifica pra você que seu oponente é um fascista. Não importa se ele não for –o símbolo sempre supera a essência, e a partir do seu veredito, o inimigo passa a ser o que você quiser. Nem preciso falar que bandeiras nacionais são fascismo puro, mas agora já falei. Nacionalismo é fascismo, para quem não sabe. Onde já se viu querer proteger ou promover o povo da sua nação? Como assim todo o povo de uma nação ser amado? E excluir o resto do mundo? Cade o espírito inclusivo?

Porém, alto lá: não seja tão inclusivo assim. Você tem que excluir categorias, jamais nacionalidades. Essa é uma regra que não sei explicar, mas vem servindo muito bem para o propósito desse jogo. O sermão de hoje vai lhe ensinar quais categorias são “excluíveis”. Pra facilitar, escolha sempre fingir proteger o mais fraco. Não se acanhe sobre seu protegido, e recuse qualquer recusa de ajuda –seu protegido é inferior o suficiente pra não saber o que é melhor pra ele. Se ele parecer poderoso, autoconfiante, soberano ou inatingível: ignore. Ele não sabe o seu lugar de minoria. Minoria não significa estar em número menor –significa ser menor. Ele pode não saber que é menor, mas você, que é maior, você sabe. Esse é um dos seus privilégios.

Na dúvida de como agir, pergunte ao seu influencer favorito, porque aqui trabalhamos em bando. Como indivíduo você não vale nada. Sua condição social, intelectual e moral são irrelevantes. E sua condição econômica tampouco presta pra qualquer análise. Não é esse tipo de associação que estamos pregando, não senhor. Queremos algo mais atávico, mais primitivo, e muito mais eugênico.

Lembra quando éramos todos parte de um grande movimento, aquele dos 99%, na época do Occupy Wall Street? Eu estava lá, no Zuccotti Park. Dava até um certo nojo –era gente de toda cor, pessoas completamente ignorantes da sua condição étnica. Isso acabou! Agora somos vários grupelhos separados, racialmente higiênicos, lutando pela nossa pureza. Isso é sofisticação. Viramos grupos menores, mais bem delineados, cromaticamente parecidos. Atingimos o nível daquele gênio não reconhecido que entendeu que é melhor organizar os livros na estante pela cor da capa. Estamos numa nova era onde estudiosos e acadêmicos criaram uma taxonomia pra determinar nosso valor, e o que fazemos com nossa vida é irrelevante.

Nosso valor vem do nascimento, ou inexiste a partir dele. Aquele papo da Simone de Beauvoir dizer que não nascemos mulher, mas nos tornamos uma? Ignore! Mas se você for trans, pode ser. Recomendo que você aprenda observando os insetos –eles se comportam de acordo com sua categoria biológica: reino, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie– jamais espécimen, senhores, jamais. Qual mosca se comporta diferente da outra? Nenhuma! Finalmente conseguimos acabar com esse individualismo nazicapitalista. O indivíduo não presta. Você é membro de um grupo exclusivo determinado por critérios arbitrários e essencialmente físicos, características que até um bebê reconheceria. Se acha gorda? Pode ser, mas é branca? Qual dos grupos escolher? E preta gorda, vai em que grupo? E se for gay, qual a prioridade? Para isso estou aqui! Coloquei à venda uma tabela que vai lhe ajudar na sua classificação. Aceito cartão. Mas já de graça lhe adianto que os critérios não são intuitivos, e foram decididos por pessoas superiores a você. Por isso é necessário aprender, e seres superiores estão aqui para te ensinar, eu inclusive.

Uma ideia do que você vai aprender com meu coaching etno-sexual: se você é gay, você ganha do heterosexual, mas se você for trans, você ganha do gay. Se você for trans operada você está acima da mulher intacta, porque essa não sabe o que é a dor da operação e só nasceu com vantagens. Se você for gay e só tiver uma perna, você ganha de um simples trans, mas se você for cadeirante e cego, então você vence. Mas se você for cadeirante e cego, porém heterosexual, você perde do trans que consegue andar, mas ganha do branco maneta.

Voltando ao que eu falava das aparências, aparências importam! Como as vidas negras! Se você não acha a cor da sua pele importante, deixa de ser imbecil, rapaz! Essa é a coisa mais importante na sua vida! E você é culpado por ela, se a cor for branca. Presta atenção que esse ensinamento é importante: você nasceu culpado, tá entendendo? Você é culpado por nascer no corpo branco, que é o corpo mais errado. Isso é tipo aquilo que se falava de travestis e gays antigamente: “Era pra ser mulher, nasceu homem, no corpo errado”.

Aquele pastor evangélico que queria exorcizar essas pessoas não estava tão enganado assim não! Ele estava certo sobre a culpa de nascença. Sabe aquelas beatas de filme de terror que choram dando gargalhada com uma cruz fumegante na mão gritando “sai que esse corpo não te pertence?” Essa entidade do mal é a branquitude. E até pretos podem ser possuídos. O pensamento branco é tipo um demônio que te controla, e nada do que você fizer está certo. A não ser que você faça como o Fabio Porchato, o iluminado, que saiu na frente e se chamou de racista antes que alguém lhe acusasse disso – truco! Humilde, grandioso, esse ser inferior amenizou sua transgressão ao se ajoelhar publicamente e se declarar racista, como um fanático religioso que se autoflagela para se depurar do pecado original.

Você também precisa se punir, limpar-se dessa branquitude e admitir a culpa por ter nascido assim. Por favor, entenda: não estou dizendo que porque você ser branco você está errado –estou dizendo que você “é” errado. E o que seria “errado”? Errado é aquilo que os influencers estão tentando te ensinar faz tempo e você ainda não aprendeu, poha. É aquilo que foi explicado pelo mensageiro do amor no BBB, um tal de Fuckyou. Seja pro-ativo, vá atrás do saber! Os ensinamentos estão por todo lado. Pesquise! Leia o Evangelho de Lenipe Feto, ou os Protocolos dos Sábios de Quebrando o Batu. Está tudo ali, claramente descrito.

Existe uma ordem hierárquica da culpa, e o branco está no topo –que é na verdade o fundo do poço. Não é à toa que minha amiga branquela e rica, ao se dar conta de que casou com outro branco e descobriu que seus filhos nasceriam com o mesmo pecado que a originou, comemorou quando achou que a filha fosse lésbica. Fiquei sem entender a razão da felicidade, mas dei os parabéns com um ponto de interrogação, assim como eu teria feito se a comemoração tivesse sido por ela achar que a filha seria hétero. Mas que burra eu fui, senhores! Que falta de empatia, que negação do óbvio! Fui salva porque depois de anos de doutrina, prece e fé, eu vi a luz e entendi que ser lésbica é bom –é escudo, símbolo de status, um degrau um pouco acima do fundo do poço. Essa amiga aprendeu aquilo com o Tebrando o Cabu, onde ela trabalhava, e por isso ela tinha essa preferência. Ela ajudou a criar um mundo onde isso é relevante. Ela é que nem a mãe religiosa fanática que quer que o filho seja hétero. Veja que linda essa confluência de valores: a fanática religiosa e a mãe descolada dando a mesma importância à orientação sexual do filho. Esses paradoxos me confundem, mas não vamos desviar do assunto e começar a falar do massacre de índios por outras tribos indígenas, da escravidão de negros por outros negros, do pipipi, popopó, da Mauritânia que pariu! Foca no selo autoverificador. E no banquinho.

P.S. Para quem quiser ler artigos menos irônicos e muito mais sombrios sobre esse assunto:

 

 

 

Por Paula Schmitt é jornalista, escritora e tem mestrado em ciências políticas e estudos do Oriente Médio pela Universidade Americana de Beirute. É autora do livro de ficção “Eudemonia” e do de não-ficção “Spies”. Venceu o Prêmio Bandeirantes de Radiojornalismo, foi correspondente no Oriente Médio para o SBT e Radio France e foi colunista de política dos jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo. Publicou reportagens e artigos na Rolling Stone, Vogue Homem e 971mag, entre outros veículos.