Opinião – A jornada da transformação digital financeira e o comércio

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes

07/06/2021 11:16



Implantação do Pix foi grande evolução
Próxima etapa é avançar open banking
Agenda do BC inclui desmonetização
Sistema S pode ser um grande aliado

Fachada do Banco Central, em Brasília. A instituição tem tomado medidas para avançar na transformação digital

O sistema financeiro brasileiro passou por uma grande evolução no final de 2020 com a implementação do Pix pelo Banco Central (BC). Cada vez mais utilizado pela população, ele é cada vez mais importante como meio de pagamento.

A maior segurança dos usuários quanto aos pagamentos eletrônicos e as novas funcionalidades propostas ainda para 2021 imprimem tendência favorável na cultura de utilização do Pix. O open banking, ou sistema bancário aberto, expandirá ainda mais as fronteiras da tecnologia financeira, na jornada da transformação digital.

Na agenda de aprimoramento do Pix em 2021 está a possibilidade de saques em moeda, em que os estabelecimentos do varejo poderão oferecer o serviço de saques de valores aos consumidores. Espera-se com isso não só uma gestão mais eficiente de numerário, mas também a enorme ampliação dos pontos de saques pelo país, uma vez que o comércio, vale ressaltar, é um dos ramos da atividade econômica de maior capilaridade no território nacional. Além disso, a nova funcionalidade ampliará a inclusão financeira no Brasil.

Mas a grande vantagem da modalidade saque Pix ao varejo é a capacidade de atração de novos clientes aos pontos de venda. Para as lojas de micro e pequeno porte, os estabelecimentos de bairro, o saque Pix traz uma boa oportunidade ao negócio.

A pandemia provocou a restrição da mobilidade, e as pessoas passaram a demandar mais moeda em papel. Esse fenômeno curioso ocorre em todo mundo, como apontado pelos bancos centrais. O medo da crise sanitária fez crescer a busca por moeda, seja para pagamentos das transações de troca ou monetárias, seja para poupança ou guarda de valores.

Embora esse comportamento de certa forma contrarie o processo de modernização nos meios de pagamento, no Brasil ele segue evoluindo: o BC lançou a 1ª fase do open banking em 1º de fevereiro. A partir daí, as instituições financeiras participantes devem compartilhar os dados públicos da base de clientes, pontapé inicial do que podemos chamar de portabilidade bancária.

Na próxima etapa, os clientes passarão a escolher se desejam ou não que seus dados cadastrais e transacionais sejam compartilhados entre as instituições. Na 3ª fase será permitido o compartilhamento de serviços, como pagamentos e oferta de crédito, por exemplo. Tudo isso tem de estar de acordo com as diretrizes estabelecidas na LGPD.

open banking deve estar totalmente em funcionamento a partir de 15 de dezembro, quando se inicia a 4ª e última fase, dando às instituições financeiras acesso aos dados de demais serviços, como investimentos, seguros, dentre outros.

Todas essas importantes transformações estão conferindo agilidade nas operações bancárias e financeiras, eficiência nos serviços, e redução de custos. O consumidor é um dos maiores beneficiados com o aumento da concorrência entre os bancos, que culmina na redução dos preços dos serviços prestados. Além disso, com o perfil do indivíduo amplamente conhecido, será possível personalizar novos serviços específicos para cada necessidade.

As instituições financeiras também ganham, pois toda essa agenda culminará em menores custos de se relacionar com os clientes e na democratização no acesso à informação. Aumentará a possibilidade de entrada de novos empreendimentos no mercado, trazendo ganhos à economia como um todo.

Os objetivos do Banco Central com esses esforços são, além de seguir as tendências internacionais de sucesso, democratizar o sistema bancário, digitalizar informações e operações, aumentar a inclusão financeira, desburocratizar o acesso ao sistema financeiro, e, com isso, promover a desmonetização no país.

Entretanto, mesmo com todas as vantagens à sociedade, o open banking por exemplo só alcançará os objetivos se for realmente adotado pelos consumidores, ou seja, caso eles permitam o compartilhamento dos seus dados. Para que isso ocorra, as informações precisam ser claras e amplamente divulgadas, além do ambiente de compartilhamento de dados ser considerado seguro.

O BC tem se concentrado na disseminação das informações sobre o open banking ao lançar alguns manuais importantes: 1) manual de Interface de Programação de Aplicativos (APIs, sigla em inglês); 2) manual de serviços prestados pela estrutura responsável pela governança do open banking; 3) manual de escopo de dados e serviços; 4) manual de segurança e 5) manual de experiência do cliente.

Para aumentar o engajamento da população e comunicar a importância dessas novas ferramentas, o Banco Central poderia criar convênios e utilizar as estruturas das confederações nacionais, como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), e até mesmo o Sebrae.

As instituições possuem grande capilaridade em todos os estados do Brasil por meio de suas Federações. Assim como todo o Sistema S, com o Sesc, Senac, e Sesi e Senai, por exemplo, pode ajudar bastante a propagar informação e conhecimento sobre as novas tecnologias financeiras.

Com essas medidas, o BC pode ganhar credibilidade e ampliar suas chances de sucesso na jornada da transformação digital e inclusão financeira. Apesar de todos os esforços do banco em oferecer um sistema bancário moderno e transparente, é primordial transmitir confiança para que os consumidores se arrisquem nesse novo mundo financeiro, e, nesse aspecto, o Sistema S pode ser um valioso aliado.

 

 

 

 

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes, 73 anos, é economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi presidente do Conselho de Administração do BNDES e diretor do BNDES de 2017 a 2019, diretor do Banco Central (1986-1988) e da Petrobras (1990-1992).