Opinião – Agricultura de baixo carbono é lição do Brasil ao mundo sustentável

Por Xico Graziano

07/06/2021 12:51



Retirar CO² do ar é estratégia efetiva
Embrapa teve o mérito da formulação
Plano ABC indica rota agroambiental
Mácula na imagem do Agro é injusta

Uso de árvores e gramíneas para absorção de CO² tem efeito benéfico na equação climática, segundo pesquisa da Embrapa

Nada é tão inovador, na agenda global do clima, como o programa brasileiro intitulado “Agricultura de Baixa Emissão de Carbono”. O apelidado Plano ABC traça a rota do futuro agroambiental do país e dá uma lição ao mundo sustentável.

Sua revolucionária formulação cabe à Embrapa. Apresentado inicialmente em 2009, na COP 15 sobre Mudança de Clima (Copenhague, Dinamarca), o Plano ABC serviu de base para o Brasil apresentar, em 2015, suas metas ambiciosas no Acordo do Clima de Paris.

Qual é sua novidade, e de onde vem sua força?

Da estratégia de combate às mudanças de clima através do sequestro de carbono da atmosfera. Entender isso é fundamental. Todos os países propõem reduzir emissões de GEE (gases efeito-estufa), cortando o uso de combustível fóssil, principalmente petróleo e carvão mineral.

Mas, se o problema central, segundo a teoria do IPCC/ONU, é o acúmulo de CO² na atmosfera, na equação do clima vale também retirar gás carbônico do ar. Pois bem. Através da fotossíntese, um maravilhoso fenômeno bioquímico, as plantas crescem absorvendo CO², e liberando oxigênio ao ambiente.

Árvores, assim, armazenam carbono em seus tecidos lenhosos. Assim como gramíneas o fazem, especialmente em suas longas raízes. Baseados nesse princípio, os pesquisadores da Embrapa calcularam o efeito benéfico, na equação climática, da transformação de velhas pastagens, degradadas, em novas pastagens.

O resultado é surpreendente. Milhões de toneladas de carbono acabam fixadas ao solo pelo revigoramento das gramíneas. O raciocínio vale também para lavouras. O acúmulo de matéria orgânica no solo passou a ser um drive da sustentabilidade rural.

No Acordo do Clima (Paris, 2015), a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil estabeleceu, entre outras, as seguintes metas:

  1. Recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas;
  2. Aumentar a adoção de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) e de Sistemas Agroflorestais (SAFs) em 4 milhões de hectares;
  3. Ampliar a utilização do Sistema Plantio Direto (SPD) em 8 milhões de hectares;
  4. Expandir a área com florestas plantadas em 3 milhões de hectares.

A roda começou a virar. Um conjunto de 7 ações, constituídas por práticas agropecuárias sustentáveis, serviu de base para a formulação do programa de financiamento dessa transição da agricultura. Um balanço atual, realizado pelo Ministério da Agricultura, mostra que o padrão ABC já atinge 52 milhões de hectares –cerca de 75% da área cultivada total do país.

Na contabilidade do carbono, foram mitigados 170 milhões de toneladas de CO² equivalente, ultrapassando a meta da NDC brasileira em 115%. É sensacional. Comprova, inequivocamente, o avanço agroambiental no campo, cujo pilar é o revolucionário sistema de plantio direto (SPD), que dispensa aração e gradeação das áreas de plantio.

Empolgada, a ministra Tereza Cristina lançou na semana passada o Plano ABC+, para balizar a década 2020/2030. Afirmou que “seguiremos aliando segurança alimentar à conservação ambiental. É viável e rentável”. Um desejado casamento da agronomia com a ecologia.

Quando, em 2018, Jair Bolsonaro afirmou que romperia com o Acordo do Clima, muitos de nós reagimos fortemente para mostrar ao ainda candidato que, ao contrário do assoprado por algum imbecil, a agenda do baixo carbono interessava ao futuro da agropecuária brasileira. Fortaleceria nossa competitividade. Assim tem ocorrido.

Infelizmente, poucos formadores de opinião –políticos, jornalistas e influencers– conhecem os resultados positivos trazidos pela implementação da agricultura de baixo carbono no Brasil. A maioria ainda enxerga o campo com os olhos do passado. Daí surge um grave problema de comunicação, que macula a imagem do agro.

Modernos e competentes agricultores brasileiros, que investem em tecnologias sustentáveis e levam o país a disputar a liderança mundial do agronegócio, são confundidos com os criminosos que praticam o desmatamento ilegal da Amazônia. A maioria correta paga o mico dos cafajestes.

Não coibidas como deveriam ser, pelo governo, e não condenadas como poderiam ser, pelos líderes do próprio setor, as práticas rurais antiecológicas de uma minoria abrem brechas para o ataque, interno e externo, contra o agro brasileiro. Lamentável.

Na recente Cúpula do Clima, bastaria Bolsonaro mostrar os fatos. Nenhum setor nacional, nem qualquer país do mundo, contribui mais para mitigar mudanças do Clima que o agro brasileiro.

O resto é discurso.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano. É o atual secretário do Meio Ambiente de IlhaBela.