Opinião – Estamos vivendo um superciclo de commodities?

26/07/2021 13:42

Recuperação da economia faz a demanda crescer mais do que o esperado

Aumento da necessidade de estoque beneficia transportadores

Falta tudo, de minerais a alimentação, passando por embalagens e indo até os semicondutores. No início da pandemia, com o mundo em lockdown, a demanda por produtos e serviços diminuiu drasticamente. Porém, com o avanço da vacinação, o mundo começou a se recuperar e os padrões de consumo voltaram favorecendo, como sempre, as commodities. Consequentemente, os preços voltaram a subir e especulações de um superciclo começam a surgir.

Economistas definem um superciclo como um período de demanda anormalmente forte em que as empresas de petróleo, mineradoras e agricultores lutam para igualar a oferta, desencadeando uma alta que dura mais do que um ciclo normal de negócios. Hoje, a capacidade de produção global de matérias-primas, seja capital ou mão-de-obra, ainda é escassa e a perspectiva de aumento da oferta é incerta. As retomadas das crises sempre trazem aumento no preço das commodities. Isso porque a velocidade do crescimento da oferta é sempre menor do que a demanda que surge nos períodos pós-crise.

Os aumentos começam a chegar nas prateleiras das lojas. A Reynolds Consumer Products Inc., fabricante da folha de alumínio homônima e dos sacos de lixo Hefty, por exemplo, está planejando outra rodada de aumentos de preços –a 3ª só em 2021.

O óleo comestível processado a partir do fruto da palmeira de óleo aumentou mais de 135% no ano passado. A soja chegou a US$ 16 por bushel (1 bushel de soja = 60lb = 27,216 kg) pela 1ª vez desde 2012. O mercado futuro do milho atingiu a maior alta em 8 anos, enquanto o trigo subiu para o maior valor desde 2013. Também estão em alta o preço do petróleo bruto e os preços de materiais industriais, de plásticos a borracha e produtos químicos.

No início de maio, o Bloomberg Commodity Spot Index, índice que mede o preço geral das commodities, registrou o nível mais alto desde 2011. Um dos motivos apontados para a alta é a recuperação, mais rápida do que a esperada, da economia dos Estados Unidos. Embora os preços de algumas commodities não sejam, em si, muito perigosos para a inflação nos países desenvolvidos, eles podem ser desestabilizadores no mundo emergente.

O aumento da necessidade de estoque e a retomada da demanda estão beneficiando os transportadores. Os navios porta-contêineres estão operando com capacidade máxima, com taxas de carga marítima em níveis recordes e congestionando portos. A economista comercial do HSBC, Shanella Rajanayagam, estima que o aumento nas taxas dos contêineres no ano passado poderia elevar os preços ao produtor na zona do euro em até 2%.

Nos Estados Unidos, as taxas de transporte ferroviário e rodoviário também estão elevadas. Os preços para o serviço de caminhões têm previsão para aumento de 70% no 2º trimestre em relação ao ano anterior, e devem subir cerca de 30% este ano em comparação com 2020, de acordo com o analista da KeyBaae Capital Markets Todd Fowler.

Logistics Managers’ Index, um indicador econômico norte-americano referente a atividade logística no país, com base nas despesas de estoque, transporte e armazenamento, está em seu 2º maior nível desde 2016. Em 2020, o índice mostrou grande precisão, correspondendo aos custos reais em cerca de 90% das vezes.

Estima-se que os custos de transporte, mais voláteis do que os com estoque e armazenamento, não vão diminuir até que a demanda se retraia. Há a expectativa de que os desequilíbrios entre oferta e demanda ajudem a manter as taxas de transporte altas, com posterior moderação à medida que as cadeias de abastecimento se estabilizem.

Em abril, pressionado pelos preços de alguns produtos que enfrentam gargalos na oferta, analistas esperavam que o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) global atingisse neste ano seu maior nível desde 2011.

O CPI norte-americano subiu de 2,6% em março para 4,2% em abril, na taxa acumulada em 12 meses. No Brasil, os preços ao consumidor aumentaram 6,76% em abril em relação ao ano anterior, o maior desde o final de 2016, refletindo uma alta nos preços agrícolas e de metais e uma melhora nas perspectivas de crescimento do país.

O diferencial entre a inflação norte-americana e a brasileira caiu de 3,5 pontos porcentuais (p.p.), em março, para apenas 2,56 p.p, em abril. Na zona do euro, a taxa anual do CPI subiu de 1,3%, em março, para 1,6%, em abril, quando parte das medidas de confinamento social ainda estavam em vigor.

O IGP-M, mais voltado para os preços no atacado, está em torno de 32%, mais de 25 p.p. acima do índice oficial de inflação. Embora os 2 índices não estejam diretamente relacionados, essa alta diferença sugere que há espaço para que as empresas repassem os custos de produção mais elevados aos consumidores.

Por enquanto, as empresas estão absorvendo a maior parte do impacto, empurrando a inflação das fábricas em alguns países, incluindo a China, para o nível mais alto em mais de uma década. Com a velocidade e amplitude da alta mais cedo ou mais tarde, os consumidores também pagarão o preço.

De acordo com Doug King, CEO do RCMA Capital LLP, “há muita demanda reprimida e todo mundo quer tudo agora, agora mesmo”. As commodities estão voltando, dos fundos de pensão aos negociantes físicos de commodities, todos estão ganhando dinheiro. A dúvida é se é apenas um retorno temporário da pandemia ou um sinal de uma mudança de longo prazo na estrutura de produção e consumo da economia global.

 

 

 

 

Por Adriano Pires, 62 anos, é sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). Doutor em Economia Industrial pela Universidade Paris XIII (1987), Mestre em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ (1983) e Economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980). Atua há mais de 30 anos na área de energia.

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