Opinião – O jogo de dados do setor elétrico

”O setor elétrico atual é outro, se comparado com o de 1960, quando a energia chegou na casa dos meus pais, em Aracaju. Eu tinha 7 anos”, recorda autor

07/10/2021 16:46



Passar roupas com pesadíssimo ferro, literalmente, a carvão.
Os banhos eram frios, e de cuia
A água encanada chegou por lá em 1962
Nosso racionamento era quase infinito

Utilize um computador para simular o arremesso de um dado 250 vezes. A média dos resultados estará entre 3 e 4. Se a experiência é repetida por mais 50 vezes, a média das médias será 3,49999, quem sabe 3,5, com desvio padrão menor que 0,04. Este efeito ficou conhecido como teorema do limite central ou média das médias.

Agora faça a mesma coisa, porém com o dado arremessado milhares de vezes, como acima, sobre uma mesa plana. Repita tudo no piso de sua casa e no melhor gramado de um estádio de futebol. A média poderá ser parecida com a do computador, mas só muito esporadicamente será igual. As deformações das superfícies, inclusive do dado, o vento, a temperatura e outras fricções afetam a apuração. E se a experiência é repetida outras oportunidades, nas mesmas superfícies e com o mesmo dado, os resultados seriam ainda mais distintos.

O setor elétrico tem algumas características interessantes que variam com o tempo. Mas uma delas, a insistência nos erros, é imutável. Em 2001, na semana seguinte ao início do racionamento, aconteceu uma cena inesquecível. Em reunião da Câmara de Gestão da Crise, o ONS realçou que, em virtude da redução compulsória da demanda em 20%, o preço spot (do mercado de curto prazo), que sinaliza a escassez, caiu de R$ 584/MWh para R$ 50/MWh.

Surpresa. Se o racionamento foi imposto, com ônus político impagável, por conta da restrição de oferta, como o modelo matemático de despacho das usinas poderia indicar o fim da escassez que mal começara? Os gestores do tal modelo gastaram toda verborragia para explicar o inexplicável. No dia seguinte, o preço spot foi fixado em R$ 584/MWh, enquanto durasse o racionamento.

O preço spot, ou o custo do último recurso acionado para atender à demanda, chegou a mais de R$ 3.000/MWh em agosto de 2021. Desde então, apesar do agravamento da escassez, tal preço tem decrescido. Na semana operativa entre 25 de setembro e 1º de outubro ficou abaixo de R$ 534/MWh.

Sim. O modelo matemático, que exagera em adaptar a realidade ao algoritmo, e não o contrário, errou novamente, como em 1998, 1999 (…), 2014, (…) e 2020. A rigor, diante desse número oficial, todas as termelétricas com custo menor que R$ 534/MWh deveriam ser desligadas. Irônico. Haveria um apagão de proporções inéditas se o governo acreditasse em seus cálculos. 10.000 MW de geração sumiriam da rede. Um inexplicável contrassenso.

Mas é assim que o sistema elétrico é operado desde 1998. Entre os meses de outubro e novembro, quando começa o período de chuvas, o algoritmo indica a redução dos custos de geração. Há nele uma premissa intransponível, da regressão à média – descoberta no século XIX por Gregor Mendel, Francis Galton e Carl F. Gauss.

Independentemente do estado dos reservatórios no presente, a série de vazões regressará à média, dado que a perspectiva é de chuva. Então, a ordem é esvaziar os lagos das hidrelétricas, e deixar espaço para a água que vem por aí. Só que esta premissa é tão veraz quanto a nota de R$ 3.

Como no lançamento de dados, em que as deformações afetam as sucessivas médias, as mudanças climáticas, um fator de fricção cientificamente comprovado, fazem com que as séries de vazões só excepcionalmente regressem à média. E a inclusão de nova série, ano após ano, torna a média cada vez menor, como se o teorema do limite central não fosse aplicável para esse fenômeno natural.

O governo, a exemplo de 2001, corretamente ignorou os resultados do modelo. Com base no “de onde não se espera, daí é que não sai nada”, manteve todas térmicas acionadas até o ano que vem, seja lá qual for o custo. E irá contratar o máximo que for possível dessas e de outras plantas.

Se o erro é assim tão evidente e frequente, por que não é corrigido? São várias as explicações. Fico com as mais relevantes. A primeira deriva do que os evolucionistas chamam de dependência da trajetória. A melhor fase de crescimento do setor elétrico coincidiu com o início do uso do modelo matemático aqui questionado, que é o mesmo aplicado no design da expansão do sistema. E técnicos da melhor qualidade, seguindo essa trilha que parecia virtuosa, desenvolveram centenas de teses de doutorado com as diferentes versões do algoritmo, no presente quase um entulho, e caro.

A segunda explicação provém da acomodação. Embora os reservatórios pertençam às hidrelétricas, o Mecanismo de Realocação de Energia (MRE), espécie de clube dessas usinas, estimulou a complacência no uso da água. O MRE deveria servir para a repartição do risco hidrológico entre os sócios do clube. Como há interesses políticos na segurança energética e nos reservatórios, logo encontrou-se uma forma de alocar esse risco também para os consumidores. Ficou obscura, para dizer o menos, a responsabilidade pelo uso da água, o que afeta mais ainda a otimização do uso dos recursos hídricos.

O setor elétrico atual é outro, se comparado com o de 1960, quando a energia chegou na casa dos meus pais, em Aracaju. Eu tinha 7 anos. Lembro da minha mãe a passar roupas com pesadíssimo ferro, literalmente, a carvão. Os banhos eram frios, e de cuia. A água encanada chegou por lá em 1962. Nosso racionamento era quase infinito.

A capacidade instalada de geração, bem diversificada, é hoje 35 vezes maior que os 5.000 MW em 1960. Cerca de 150.000 km de linhas de transmissão atravessam o país. Mais de 98% da população possui energia em casa. Em 1960 predominava os lampiões a querosene – isso mesmo.

Apesar desse gigantesco passo em hardware, o racionamento, no tempo, já não é probabilístico. Se não é este ano será no próximo ou mais adiante, em uma sequência infinita de pesadelos. Enquanto isto, o jogo de dados é o mesmo, onde já não se regressam às médias, mas a resultados previsivelmente desastrosos, em quilowatt hora e em Reais.

 

 

 

 

Por Edvaldo Santana é doutor em engenharia de produção e ex-diretor da Aneel. Artigo publicado também no Valor.