Análise – O futuro do setor bancário: entre o digital e o tradicional

Não se está à procura de um “vencedor” no mercado. No futuro, é provável que o mercado se divida entre os tradicionais e os digitais. Além disso, não se pode ignorar que novos participantes também aumentem sua participação no mercado, escreve Itamir Caciatori Junior

11/05/2022 07:25



”Na análise dos mercados financeiros, não se pode incorrer no erro de simplificar a questão”

Fintechs x Bancos: desburocratizar é a chave para atrair clientes| Foto: Unsplash, PiggyBank/Reprodução

Os bancos estão passando por uma considerável mudança no Brasil com a entrada de novos tipos de competidores. A tão esperada digitalização, acelerada com a pandemia de Covid-19, afetou também a competição no eficiente setor bancário de nosso país. Sim, porque, dentre tantas consequências que a inflação nos trouxe, uma delas foi positiva: um sistema bancário tecnologicamente sólido e eficiente.

Nos últimos anos, o setor financeiro começou a sentir o impacto das fintechs, empresas que misturam tecnologia da informação e finanças para fornecer serviços financeiros com alto grau de tecnologia para os clientes. Especificamente, estamos falando das fintechs que prestam serviços semelhantes aos bancos estabelecidos, denominadas “bancos digitais”. Dentre os principais serviços oferecidos por essas empresas estão a abertura de contas, transferências via Pix e pagamentos de contas e tributos.

Uma característica peculiar e que concede vantagem aos bancos brasileiros estabelecidos é a quantidade e amplitude de produtos e serviços oferecidos. Com a oferta de itens que superam a centena, esses bancos contemplam diversas necessidades de seus clientes, que vão desde consórcios até investimentos de alta complexidade.

Porém, ser digital também significa nascer digital. A simples digitalização, ou seja, colocar uma “máscara” nos bancos tradicionais e denominá-los “digitais” parece não ser uma boa ideia. Esse artifício pode ser facilmente percebido pelo correntista, rapidamente surpreendido com aviso de “compareça à sua agência” caso ocorra algum problema no seu aplicativo. Nos bancos digitais, que não têm agências físicas, essa mensagem é impensável. Ou seja, muitas vezes, os clientes dos “bancos de tijolo” recorrem às próprias agências de tijolo para resolver problemas originados no mundo digital.

Nesse ecossistema, começam a aparecer os bancos médios, autodenominados futuros hubs de negócios. Essas empresas estão abertas para parcerias com outros bancos digitais e fintechs. Então, o futuro do setor bancário não será determinado apenas pelos movimentos dos grandes bancos estabelecidos ou pelos pequenos entrantes (mas crescentes) bancos digitais. Os bancos de médio porte podem estabelecer parcerias lucrativas com bancos digitais, abrindo seus negócios a essas empresas.

Não será fácil para os bancos digitais concorrerem com instituições com décadas de existência e sobreviventes a tantos infortúnios de uma economia tão conturbada. Poucas foram as provas de fogo pelas quais os bancos digitais passaram até hoje. Dessa forma, ainda precisarão demonstrar resiliência para competir ombro a ombro com os bancos estabelecidos. Uma forma de prever o futuro da competitividade é, por um lado, analisar as aquisições e criações de bancos digitais por parte dos bancos estabelecidos; e, por outro, verificar o comportamento dos bancos digitais em relação às parcerias e fusões que se estabelecem no mercado com outros players.

Na análise da concorrência nos mercados financeiros, não se pode incorrer no erro de simplificar a questão. Não se está à procura de um “vencedor” no mercado. No futuro, é provável que o mercado se divida entre os tradicionais e os digitais. Além disso, não se pode ignorar que novos participantes (por exemplo, Agentes Autônomos de Investimentos) também aumentem sua participação no mercado. Porém, não se pode contestar o poder dos bancos estabelecidos e sua resistência durante a história do nosso sistema financeiro.

 

 

 

 

 

Por Itamir Caciatori Junior, doutor em Administração, é professor de Finanças da Escola de Negócios da Universidade Positivo (UP).





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