Opinião – Inflação dos alimentos: a culpa não é do agronegócio

O preço dessa irrealidade tributária e fiscal é a desorganização do abastecimento nacional e o encarecimento generalizado dos produtos. Escreve Antonio Cabrera.

19/03/2025 05:26

“A verdade é que a sociedade paga o preço por esses desacertos.”

Presidente Lula durante cerimônia de relançamento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em março de 2023, em Pernambuco (Foto: Ricardo Stuckert / Divulgação Planalto)

Há uma velha máxima em economia que ensina que “a vida não nos pergunta o que queremos. Ela nos apresenta opções. A economia é uma das maneiras de tentar aproveitar ao máximo essas opções”. Se por vezes parece complexo para o cidadão comum entender esse ditado, imagine o caso dos preços dos produtos agrícolas e alimentos.

Falta hoje uma teoria de preços agrícolas, mas sem a política. Sabe-se que a agricultura é uma atividade bem difícil. O clima e os preços dos grãos, as duas coisas que basicamente impulsionam nossa renda agrícola, estão fora de nosso controle. Na agricultura, você dificilmente sabe o que pode acontecer amanhã. Às vezes, é o clima. Às vezes, é geopolítica.

Dito isso, há hoje uma grande preocupação da população com o preço dos alimentos. O que a população não sabe é que o agro é uma atividade de longo prazo, diferente da maioria dos outros setores. É preciso acertar hoje para colher amanhã. Há até o inverso, ensinando que a “agricultura se vinga no ano seguinte do erro cometido hoje”.

E qual é o quadro geral da agricultura hoje? É um momento de completa desconfiança em relação ao governo. O cenário de debilidade fiscal, aumentos de impostos, insegurança jurídica e declarações desastrosas sobre o setor estão descortinando um futuro sombrio para a produção de alimentos. A realidade hoje é que preços agrícolas e alimentos estão no chão e os juros no céu.

Se perguntarem a qualquer produtor, a maior enfermidade em nossos campos é a doença dos custos. Vejamos o exemplo dos ovos. Os ovos são hoje um dos alimentos mais polarizadores. Basta acompanhar as mídias para entender a explosão nos preços e as reclamações dos consumidores.

Antes de mais nada, não custa explicar que mais de 30 milhões de galinhas foram mortas nos EUA apenas nos últimos três meses de 2024, em função da gripe aviária. E foram mais de 136 milhões de aves perdidas desde 2022. Nesse ponto, é preciso esclarecer que na produção de ovos, você não pode produzir mais ovos instantaneamente quando os preços sobem: você precisa criar mais galinhas primeiro, o que leva meses. Para completar, pense em como as pessoas usam os ovos, pois eles são um alimento básico difícil de ser substituído. Você não pode facilmente mudar para outro produto ao fazer uma omelete ou assar um bolo.

Assim, quando comentamos aqui os erros da política econômica do Brasil, saiba que cada deslize em algum momento provoca um aumento no custo de cada produtor. Em 2002 o custo do kg de frango, do início da produção à colocação nos mercados consumidores no Brasil, era de US$ 0,40 e nos EUA US$ 1,10. Em 2014, esse custo subiu para US$1,10 no Brasil e nos EUA para US$1,20. Ou seja, estamos perdendo competitividade pela nossa inabilidade em resolver a nossa política econômica.

É preciso dar um basta nessa política de gastança desenfreada dos gastos públicos. E pior, um gasto dos recursos públicos totalmente errado, que hoje, infelizmente, se traduz em aumentos de privilégios para uma pequena casta. A verdade é que a sociedade paga o preço por esses desacertos, inclusive com a alta nos preços dos alimentos. Melhor, o preço dessa irrealidade tributaria e fiscal é a desorganização do abastecimento e o encarecimento dos produtos e alimentos.

 

 

 

 

Por Antonio Cabrera foi Ministro da Agricultura e Reforma Agrária.

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