Adubo vai pesar mais no bolso do agricultor em 2010

Com o término da colheita da safra de verão em várias regiões do país, os agricultores começam a perceber que os fertilizantes pesarão mais nos custos do próximo plantio. Os preços das principais matérias-primas para adubos voltaram a patamares acima da média histórica, depois de despencarem na safra passada. Praticamente todos os grandes países produtores …

13/04/2010 17:40



Com o término da colheita da safra de verão em várias regiões do país, os agricultores começam a perceber que os fertilizantes pesarão mais nos custos do próximo plantio. Os preços das principais matérias-primas para adubos voltaram a patamares acima da média histórica, depois de despencarem na safra passada.

Praticamente todos os grandes países produtores agrícolas registraram safras acima da média no ciclo 2009/2010, o que está puxando a demanda por fertilizantes nestes primeiros meses de 2010. “Este é o período que concentra o consumo no Hemisfério Norte, onde estão os maiores produtores de grãos do mundo: China, Estados Unidos e Índia”, explica o especialista em fertilizantes da consultoria Agroconsult, Cléber Vieira.

Como a possibilidade de o Brasil reduzir o uso de adubo neste ano é afastada pelo mercado, o resultado da alta de preços deverá ser mesmo o estreitamento da margem dos produtores.

A participação dos fertilizantes nos custos totais da produção estão mais altos agora, o que se soma às perspectivas pouco positivas para os preços dos grãos. “Este é um assunto que já me preocupa, porque os preços da soja não tendem a ser mais altos na próxima safra”, diz o produtor rural José Paulo Abreu, de Pedrinópolis (MG), que está em plena colheita de seus 700 hectares de soja.

Relação de troca

Atento à sua planilha de custos, Abreu se preocupa com o descasamento que está ocorrendo entre as tendências de preço dos fertilizantes e da soja. Nas últimas duas safras, os altos e baixos dos custos e dos preços de venda andaram relativamente juntos, mas agora os fertilizantes estão encarecendo enquanto a soja cai.

Mais do que a alta isolada do adubo, preocupa a relação de troca entre o insumo e os produtos agrícolas. “Nossa moeda aqui é saca de soja”, diz o agricultor Elson Pozzobon, de Sorriso (MT).

Pozzobon fez a compra antecipada de adubo em novembro, trocando 22 sacas de soja por cada tonelada de adubo formulado. “Hoje a mesma troca não sai por menos de 30 sacas”, segundo o agricultor.

Membro de um pool de compra de insumos, Pozzobon conseguiu fixar uma boa oportunidade de compra antecipada, que foi paga apenas depois da colheita. Mas a grande maioria dos agricultores não tem a capitalização necessária e começa a comprar agora, quando tira a soja do campo. “Estou torcendo para o preço da soja subir um pouco e a relação de troca melhorar para comprar o adubo da próxima safra”, diz o produtor Edson Carrijo, de Sapezal (MT).

Pelas suas contas, a tonelada de adubo que na última safra lhe custou 28 sacas de soja hoje está por 32 sacas. “O fertilizante é certamente o custo que mais vai subir nesta próxima safra”, afirma Carrijo. Os adubos custarão em média 16 sacas de soja por hectare, em uma produção média de 50 sacas.

No caso da soja do Mato Grosso, o especialista da Agroconsult calcula que a participação dos fertilizantes nos custos totais esteja na casa dos 40%, enquanto a média histórica é de 25% a 28%.

O estado sofre mais com o frete dos adubos desde os portos e com os solos mais pobres, que exigem maior complementação de nutrientes. Na média brasileira, Vieira diz que os fertilizantes respondem hoje por 25% a 30% dos custos, contra média histórica de 20% a 22%.

Impacto

Ainda assim, Vieira ressalta que outras culturas menos ligadas ao mercado externo devem sentir ainda mais o impacto da alta dos fertilizantes sobre a rentabilidade, uma vez que os preços da soja permanecem dentro de patamares razoáveis, dentro da média histórica.

A alta dos preços da soja e do açúcar no ano passado também ajudou para que os custos dos fertilizantes fossem diluídos para os sojicultores e produtores de canadeaçúcar. “Culturas menores, como arroz e feijão, não vivenciaram altas de preço e os fertilizantes pesaram mais”, diz Vieira.