Adversário não se escolhe?

Toda Copa do Mundo é assim: um repórter pergunta “Que time você prefere pegar na próxima fase?”, e o treinador dá a resposta de sempre: “Quem quer ganhar Copa do Mundo não pode escolher adversário”. Dunga não fugiu à regra na sexta-feira, depois do empate sem gols contra Portugal, em Durban. “Não tenho preferência nenhuma.” …

26/06/2010 13:29



Toda Copa do Mundo é assim: um repórter pergunta “Que time você prefere pegar na próxima fase?”, e o treinador dá a resposta de sempre: “Quem quer ganhar Copa do Mundo não pode escolher adversário”. Dunga não fugiu à regra na sexta-feira, depois do empate sem gols contra Portugal, em Durban. “Não tenho preferência nenhuma.” Àquela hora, ainda não se sabia qual seria o adversário do Brasil nas oitavas de final, se Chile, Espanha ou Honduras. No fundo da sala de entrevistas coletivas, o auxiliar técnico Jorginho confessava: “O Chile…”.

Na história das Copas até houve casos de times escolhendo adversários. Na primeira fase da Copa de 1974, a Alemanha Ocidental sofreu uma surpreendente – e conveniente – derrota para a Alemanha Oriental, livrando-se assim de enfrentar Brasil, Holanda e Argentina na segunda fase. Mesmo que quisesse, porém, Dunga não tinha escolha, uma vez que os jogos que definiriam o rival de sua Seleção ocorreriam horas depois. Ainda assim, o treinador dispôs-se a analisar os três eventuais adversários: “A Suíça, contra a Espanha, teve uma postura (jogou ofensivamente e obteve uma inesperada vitória por 1 a 0) . Mas não é essa a postura habitual da Suíça. A Espanha joga um futebol um pouco mais avançado, assim como o Chile”. Entenda-se: o estilo espanhol e chileno, voltado para o ataque, “encaixa” melhor com o do Brasil. Então Dunga arrematou com o chavão: “Você está numa Copa do Mundo, tem de jogar. Tem de acreditar na tua seleção, nos teus jogadores, no trabalho realizado, e tem de afrontar todos para ser campeão”.

Uma ajudinha da tabela, porém, nunca é de recusar. Que o diga Luiz Felipe Scolari, cuja Seleção enfrentou dois times medianos – Bélgica e Turquia – no mata-mata do pentacampeonato, em 2002. O acaso do sorteio e dos resultados da primeira fase da Copa deste ano produziu alguns confrontos entre potências do futebol – sobretudo Alemanha x Inglaterra – e outros entre times de pouca tradição, como Estados Unidos x Gana e Paraguai x Japão. Ao terminar o Grupo G em primeiro lugar, o Brasil caiu do lado “bom” da tabela. Só pegaria seleções como Alemanha, Inglaterra e Argentina na decisão. Dois ex-campeões mundiais, França e Itália, já ficaram pelo caminho. Mas, como disse Dunga, é preciso jogar para ser campeão.

O técnico do Chile, o argentino Marcelo Bielsa, explicou antes de a Copa do Mundo começar que recebeu o apelido El Loco (O Louco) por conta de “exageros no comportamento” em relação ao futebol. A explicação foi importante, pois muitos pensavam que a alcunha era fruto das táticas revolucionariamente ofensivas que o treinador coloca em prática em seus times. Se não era verdadeira, a tese era bastante plausível, como a Seleção Brasileira vai perceber no jogo de oitavas de final diante do Chile.

 
NO ATAQUE
O goleiro espanhol Casillas leva o gol do chileno Millar. O ofensivo Chile é o próximo adversário do BrasilO Chile foi uma das sensações do Mundial e se classificou em uma semana na qual diversos favoritos foram eliminados. Na quinta-feira, a campeã Itália perdeu por 3 a 2 da Eslováquia, em Johannesburgo, e acabou humilhada, atrás até da modestíssima Nova Zelândia. A França, desmoralizada pelos problemas internos do elenco, ficou em último lugar em seu grupo e teve de dar satisfações do fracasso até para o presidente Nicolas Sarkozy. Na terça-feira, os franceses perderam para a África do Sul, em um jogo de sabor agridoce para os donos da casa. A vitória contra uma campeã mundial foi histórica, mas insuficiente para evitar que os Bafana Bafana fossem eliminados e ficassem com a pior campanha de um anfitrião na história das Copas. Outros dois grandes do futebol mundial, Inglaterra e Alemanha, só avançaram graças a vitórias por 1 a 0 contra a Eslovênia e Gana, respectivamente.

O Chile avançou para a segunda fase com uma aposta no futebol ofensivo, rara nos dias de hoje. Bielsa escala seu time com três atacantes e tem o costume de revezar os titulares e usar o mesmo jogador em diversas funções. Aléxis Sanchez, que atua pela ponta direita, é o principal ponto de referência, sendo responsável por iniciar muitos dos ataques do Chile. Beausejour, que já jogou no meio, e Mark González têm se revezado na ponta esquerda, e Valdívia, ex-meia do Palmeiras, chegou a atuar como centroavante no lugar do artilheiro Suazo, que sofre com uma contusão muscular na coxa esquerda.

No meio-campo, o principal jogador do Chile é Carlos Carmona. O volante tem o papel de dar segurança aos atacantes e fazer com que a seleção chilena se posicione sempre no campo do adversário, pressionando a saída de bola do rival. Para o Brasil, seria um grande teste, pois os zagueiros Juan e Lúcio e os volantes Felipe Melo e Gilberto Silva passam grande parte do tempo com a bola.

Jogar no ataque, além de ser parte da filosofia futebolística de Marcelo Bielsa, é uma forma de tentar evitar que o jogo se desenrole durante muito tempo no campo de defesa chileno. Esse é o setor mais frágil da equipe, que foi explorado com brilhantismo pelo Brasil nas eliminatórias. Em dois jogos, foram sete gols marcados pela Seleção Brasileira. Em tese, o Chile é o adversário perfeito para o Brasil, pois deixa espaço para os rápidos contra-ataques puxados por Kaká e Robinho. Resta saber se o Brasil conseguirá transformar o cenário favorável em uma vitória.