Pobreza diminui em MT

Estudo realizado em Mato Grosso aponta que a pobreza no Estado reduziu de 42% na década de 80 para 12% da população em 2008, uma queda de 30 pontos percentuais em um período de 28 anos. A pesquisa Desigualdade e Pobreza em Perspectiva: o Caso de Mato Grosso foi apresentada ano passado como tese de …

08/08/2010 16:34



Estudo realizado em Mato Grosso aponta que a pobreza no Estado reduziu de 42% na década de 80 para 12% da população em 2008, uma queda de 30 pontos percentuais em um período de 28 anos. A pesquisa Desigualdade e Pobreza em Perspectiva: o Caso de Mato Grosso foi apresentada ano passado como tese de mestrado do economista Edmar Augusto Vieira e mostra um sensível aumento na renda per capita das famílias mato-grossenses, que em 1981 era de R$ 348 e em 2008 saltou para R$ 707, incremento de 103%. Os fatores que provocaram a mudança estão atrelados aos aspectos da economia brasileira, como explica a pesquisa baseada em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Fazendo uma análise cronológica, Edmar Vieira aponta a que a atual situação é consequência de 3 fatores principais, que seriam o mercado de trabalho, a previdência e os programas de assistência social e transferência de renda. Aliado a isso, ou melhor, sustentando isso, o desenvolvimento econômico, o aumento de crédito e a melhoria do salário mínimo suportam as mudanças. “Temos o melhor salário mínimo dos últimos 30 anos, o crédito está mais acessível e os bancos perceberam um nicho de mercado nas camadas mais pobres e dinheiro na mão se reverte em consumo, que consolida o mercado de trabalho”.

O economista Vivaldo Lopes, comenta que um estudo apresentado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que a renda de trabalho é a causa da saída da pobreza de 67% das pessoas, 17% saíram em decorrência de programas de transferência de renda e os demais foram consequência da elevação do salário mínimo e ampliação dos benefícios da previdência.

Voltando no tempo, de acordo com a tese, na década de 80, chamada por Vieira de “década perdida”, a economia se afundava em inflação e estagnação econômica. Fatores esses que, segundo Edmar Vieira, provocaram crises sociais e políticas, agravando ainda mais a situação. “Uma crise daquela proporção na economia desencadeou uma crise social e política. Por isso a ditadura caiu. Quando a economia crescia a 11% no controle militar, eles não eram depostos, com a crise na economia nada se sustenta”.

De acordo com o economista, o plano Cruzado foi do céu ao inferno em uma década. Isso porque, no início do congelamento dos preços e controle da inflação a redução da pobreza foi de 42% a 14% entre 1981 e 1986 e subiu em 1988 para 38% da população mato-grossense com rendimento por pessoa inferior a R$ 120. Tal oscilação foi, segundo o economista, porque a inflação é uma questão de mercado e não pode ser controlada com determinação política, ela depende da economia como um todo. Fatores externos, como as crises do petróleo e o crescimento da dívida externa do país também influenciaram a variação.

Passando para a próxima década, o que marca a redução da pobreza nos anos 90 é a estagnação. Com uma redução de 34,7% da população classificada como pobre para uma média de 26%, depois da queda os números se mantiveram. Neste caso, a redução da pobreza estava atrelada, de acordo com o estudioso, pelo arroio da inflação, que garantiu um melhor acesso da população pobre, mas não casou com o desenvolvimento da economia, que se manteve com taxas crescimentos muito baixas.

Enfim, a partir de 2000, a realidade passa a mudar. O estudo aponta que em 2003 houve um movimento à parte neste contexto, devido às taxas cambiais e ao o que na época ficou conhecido como risco Lula, um receio do mercado financeiro pela entrada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo isso fez com que índice de pobreza subisse naquele ano. O que não se concretizou e em seguida foi acometido por seguidos avanço econômicos e pela redução da pobreza, que em 2008 chega a 12%.

Nem tudo são nuvens – A mudança que veio posteriormente no perfil econômico do Estado é mérito, segundo o economista Fabiano Fratta, exclusivamente do governo federal. De acordo com ele, em Mato Grosso os avanços econômicos obtidos não foram revertidos para a coletividade e a saída de grande parte da população da pobreza é consequência da política adotada em esfera nacional que transfere renda e assim impulsiona os mercados locais. “Mato Grosso vive da exportação do agronegócio e isso não é revertido para as camadas mais pobres. A entrada da população em outras camadas é consequência dos benefícios creditados às pessoas de baixa renda”.

Para Fratta, Mato Grosso precisa verticalizar a economia do Estado para se tornar alternativo e agregar valor à produção. Ele explica que para exportar os produtos, o governo federal reduz os impostos aos exportadores e para compensar aumenta a tributação em serviços como energia elétrica, comunicação, o que acaba por afastar a instalação de outras empresas. “É preciso reduzir os impostos para exportadores para tornar os preços competitivos, mas isso tem que ser repensado para não ser compensado em outros segmentos”.

A desigualdade social no Estado é apontada por Vivaldo Lopes como uma lembrança de anos de atraso econômico. Segundo ele, Mato Grosso tem 300 anos e só começou a melhorar a qualidade de há duas décadas. “Precisamos de pelo menos mais 20 anos para transferir renda. Tirar as pessoas da pobreza foi um grande avanço, mas não há como mudar tudo em pouco tempo”. Além disso, o economista alega que a concentração de terras no Estado é outro fator que contribui para a desigualdade. “Ainda há muita terra na mão de poucos. É preciso diminuir a concentração para dar condições de ascendência”.

Pobreza versus idade – De acordo com a pesquisa de Edmar Vieira e os dados do IBGE, em 1991 a maioria da população pobre do Estado tinha entre 30 e 45 anos, sendo 37% do total registrado. Em 2000 a pobreza migrou para a população que possui entre 15 e 30, sendo registrado que 52% da população em situação de pobreza estava dentro desta faixa etária. Outra observação feita é que a população que possui mais de 60 representava 6% da pobreza em 1991 e 9 anos depois o percentual reduziu a zero.

Para o economista Vivaldo Lopes esta migração é lamentável porque aponta para a perenização da pobreza. “A situação é dramática porque se percebe que o filho do pobre da década passada deu continuidade na pobreza”. Lopes afirma que a falta de educação formal em décadas passadas é o que coloca outras gerações na condição de pobreza.

Futuro – Os bons ventos que sopraram a economia, sobretudo mato-grossense nos últimos 20 anos, podem enfraquecer em consequência de crises que acometem o mercado externo. Mato Grosso, por ser dependente da exportação, principalmente de produtos primários, pode sofrer com a retração de mercados estrangeiros. O economista Fabiano Fratta afirma que em breve os preços das commodities exportadas vão cair e que uma crise pode acometer o Estado. “Não diversificamos nossa economia e isso nos torna dependentes. Assim, se algo acontece em um segmento não há alternativas”.

O pesquisador Edmar Vieira também concorda com Fratta. “Temos que crescer em diferentes segmentos. Quanto mais variedade se tem, mais oportunidades são geradas e a economia se torna flexível”.