A praça é um palco

12/08/2010 08:02

Antes do palco grego ou italiano existia muito provavelmente a praça. Diga-se de passagem, a rua, o espaço sem ninguém por passavam pessoas e recitavam-se histórias. A arte do teatro nasceu muito provavelmente na contação de histórias à beira da fogueira, mas seu registro como diálogo encenado data dos ritos de Isis e Osíris no Egito antigo (2500 a.C.). A palavra teatro ao contrário do que pode se pensar não nasceu do espaço da sua apresentação, mas etimologicamente estaria ligada ao ato de ver, segundo a Enciclopédia Britannica, deriva do grego theaomai (θεάομαι) – olhar com atenção, perceber, contemplar. Isto amplia a percepção e avança o significado de ver no sentido comum e propõe uma experiência intensa, envolvente, meditativa.

Tudo isso para dizer que o teatro pode e deve ser feito em qualquer lugar e sem querer fugir do clichê: se Maomé não vai à montanha, o teatro vai pra rua. A principal característica do teatro de rua hoje, é a intenção explícita de criar encenações para serem apresentadas onde a plateia seja formada pela diversidade humana. A ausência do palco aproxima os lados, enquanto o tom de constante intervenção permeia as apresentações. Afinal, se por um lado um espetáculo pode mexer com o cotidiano da cidade e seus transeuntes, por outro esses mesmos podem – e vão – intervir nas cenas. Na rua é permitido comer e beber durante o espetáculo e pode se sair no meio, porém não se pode dizer que o teatro de rua é pouco planejado. Pelo contrário, são séculos de tradição nessa que é uma das mais antigas manifestações populares.

A Mostra SESC de Teatro de Rua começou no dia 10 e segue até o dia 13 de agosto. Quem circula pelo centro da capital obviamente já viu a aglomeração e se concedeu a si mesmo alguns minutos, e parou para o teatro pôde ver além da fumaça, do sol e da fisionomia cansada da rotina cotidiana.

Hoje o espetáculo “O Homem Banda” da Cia. Um Pé De Dois (RS) toma o espaço público da praça Alencastro às 16h30. Quando ao longe se escuta um harmonioso acordeom acompanhado de chocalhos, pratos, bumbos e apitos, se imagina que aí vem a banda. E vem mesmo, mas não uma banda comum e sim uma banda inteira orquestrada apenas por um homem só. Maurolauropaulo é o Homem Banda. Um músico inventor, que apresenta sua profunda crise de personalidade através de um espetáculo e uma parafernália cheia de sonoridades.

Amanhã, no mesmo horário (16h30) e local, quem se apresenta é o grupo Mototóti (RS) com o espetáculo “O Vendedor de Palavras”. A peça conta a história de Milho, um amante dos livros que sonha em fazer com que as pessoas leiam por elas mesmas. Ele se dá conta de que há uma grande falta de palavras no mundo, e por isso as pessoas ficam repetindo as poucas que têm. E, se cada palavra equivale a um pensamento novo ele poderia se tornar um vendedor de palavras, e fazer com que as pessoas pensem mais e melhor.

Na trama também estão os avós de milho, Adam, um senhor inglês que vive em conflitos com Odete, a avó alemã. O sotaque carregado do casal é garantia do humor próprio do teatro popular, feito para a rua. Acima de tudo uma história de amor, às pessoas, às palavras e aos livros.

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